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28/01/2009

O Iraque de Obama

El País
Ramón Lobo
O novo presidente dos EUA quer retirar suas tropas de um país que luta contra a rebelião e com instituições ainda frágeis. Um jornalista de "EL PAÍS" viu a situação em campo, seis anos depois da aposta de Bush em uma guerra rápida e barata



Os soldados americanos no Vietnã escreviam e pintavam nos capacetes de combate para afastar sua irritação. A sigla mais comum era "FTA: Fuck The Army". No Iraque está proibido, por questão de uniformidade e imagem. Aqui a preferida é "WTF: What The Fuck" [que merda]. A via de escape é a Internet e as paredes de alguns banheiros: "Matar muçulmanos em nome de Deus ou de Bush, que merda importa?" Também se podem ler citações mais intelectuais e uma de Platão: "Só a morte viu o final da guerra".

Quando o blindado serpenteia entre as estacas do último posto de controle e deixa as defesas da base, os militares carregam suas armas e preparam os nervos. Entram em território hostil. Os iraquianos têm ordem de afastar-se para o lado e deter seus veículos. Todos obedecem às instruções dadas através da televisão e da rádio. Quando não, dispara o alarme: "O que faz esse imbecil nos seguindo?" Os pedestres adultos observam a passagem dos comboios sem mover um músculo. Ninguém sorri, ninguém cumprimenta, ninguém parece ter esperança de que Barack Obama represente uma mudança em suas vidas. Só os meninos agitam as mãos e levantam o polegar. Para eles trata-se de um filme de ação.

No norte de Bagdá o inimigo são os franco-atiradores emboscados em residências e edifícios semidestruídos. Na província de Diyala, onde atua a organização Al Qaeda no Iraque, o perigo são os explosivos. Ali se viaja de Striker, um veículo teoricamente resistente a bombas. O atirador principal rastreia o tráfego com um monitor que detecta fontes de calor. Esta é uma zona de guerra, como a província de Nínive, no norte.

"Quando matam um companheiro da base, cortam nossas comunicações telefônicas e de Internet para não contarmos o que aconteceu. Querem seguir o protocolo, que seja o exército quem se apresenta na residência e informa a família sobre o ocorrido", afirma o sargento de origem peruana Carlos Mora-Pacora. "Há algumas semanas, depois de vários dias sem comunicação devido à morte de dois rapazes, pude falar com Katia, minha mulher. Ela estava preocupada. Expliquei que o gerador tinha quebrado. Se dissesse a verdade, ela viveria aterrorizada cada vez que não houvesse comunicação, olhando para a porta à espera de alguém chamando para dar a notícia."

A guerra destinada a salvar o mundo da ameaça das armas de destruição em massa que nunca foram encontradas custou a vida de 4.214 soldados americanos, segundo "The Washington Post", e ferimentos em mais de 33 mil, segundo o Pentágono. Também houve 316 baixas de militares de países que participaram ou participam da chamada Coalizão Multinacional; entre eles 11 espanhóis. Embora não existam dados oficiais sobre o número de iraquianos mortos desde 19 de março de 2003, data da invasão, a revista britânica "The Lancet" publicou há dois anos um relatório que estimava a cifra em mais de 600 mil. O site www.antiwar.com oferece outra que inclui os mortos em atentados e por falta de cuidados médicos de qualidade: 1,3 milhão.

Ted Englemann, veterano do Vietnã que aderiu às tropas americanas em busca de material para um livro que apague seus fantasmas, preocupa-se que o índice de suicídios seja muito superior ao de outras guerras. "Eles os dissimulam como baixas em combate e ninguém conta os que voltam para casa, compram uma moto, aceleram e se espatifam." O exército admite a morte por suicídio no Iraque de 121 soldados em 2007, 20% a mais que em 2006. Quando se conhecerem as cifras de 2008, o mais provável é que sejam semelhantes; até agosto se suicidaram 93 soldados. O exército admite que uma média de 5 soldados por dia tentam acabar com sua vida ou ferir-se.

Um cabo de sobrenome espanhol que só fala inglês e a quem falta um mês para voltar para casa no Colorado, se declara "cansado de lutar". É sua terceira missão. Combateu a Al Qaeda na província de Diyala em 2006 e a milícia xiita do Exército do Mahdi em Cidade Sader entre março e maio deste ano. "Os que não matamos fugiram para a Síria e o Irã ou se esconderam. Cada vez que saímos, arriscamos a vida. Há muita tensão. A cabeça precisa se afastar para não enlouquecer. Há alguns dias mataram um rapaz da unidade. Uma granada arrancou a metade do seu rosto. Não foi possível fazer nada por ele."

Há bases McDonald's: comida "junk" de vários tipos, lavanderia em 48 horas, camas aceitáveis, lojas e chuveiros quentes. Mas a maioria dos soldados em missões de segurança vive nos Combat Out Post (COP, bases avançadas de combate), cujas condições são espartanas: banheiros exíguos, patrulhas constantes e colchões cheios de percevejos. "Eu troco de camiseta a cada três dias; de casaca a cada sete, e tomo uma ducha quando posso. Não se preocupe com o cheiro. Aqui ninguém vai perceber o seu", diz um capitão do COP Apache.

A guerra que o Pentágono de Donald Rumsfeld calculou que seria rápida, produtiva e a um preço ínfimo, cerca de US$ 60 bilhões, resultou em um desastre. O já ex-presidente George W. Bush gastou na operação Liberdade para o Iraque dez vezes mais do que custou a primeira Guerra do Golfo e três vezes mais do que se gastou na do Vietnã. Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de economia, calcula que o custo real do período 2003-2008 supere os US$ 3 trilhões, cerca de 2,3 trilhões de euros.

"Perdemos quatro anos", afirma Husam Alwan Abd, chefe dos Filhos do Iraque em Murtadiya, a segunda cidade em importância de Diyala. "Lutamos conta a Al Qaeda desde 2006. No início o fizemos sozinhos na província de Al Anbar. Ninguém nos ajudou. Agora contamos com o apoio americano. Demoraram muito para perceber que os sunitas não somos o inimigo [Sadam Hussein era sunita]. Entre todos, destruímos este país, e o Irã é agora o grande beneficiário."

Os Filhos do Iraque é o novo nome do Despertar, um movimento iniciado pelas principais tribos sunitas cansadas do extremismo de Abu Musab al Zarqawi e da Al Qaeda. O general David Petraeus, chefe militar americano em Bagdá entre fevereiro de 2007 e setembro de 2008 e hoje chefe do Comando Central, que também cuida do Afeganistão, soube aproveitar: os atraiu com a promessa de uma certa amnésia sobre o passado e salários de US$ 300 mensais (que hoje são pagos pelo governo de Bagdá), apesar de muitos serem antigos insurgentes que atentaram contra soldados americanos.

"O que esperavam ao nos invadir? A resistência é um direito. Antes os considerávamos ocupantes; agora são forças que nos ajudam. Não estaremos preparados antes de 15 anos. É o preço de ter destruído o estado. Agora é preciso construí-lo. Se os americanos fossem embora amanhã, seria um desastre, o Irã nos invadiria", acrescenta Husam.

Depois de três guerras, embargos internacionais e a ditadura de Sadam Hussein, este é um povo de atores, gente que pretende representar um personagem com o objetivo de sobreviver. Nunca se sabe quem diz a verdade e que quantidade de verdade. "Não têm iniciativa, sempre esperam que alguém faça algo por eles, mas as coisas estão mudando. Depois de cinco anos e meio, rompemos as barreiras culturais: entendemos melhor o sistema das tribos e eles nos entendem melhor", diz o coronel Burt Thompson, chefe da 1ª Brigada da 25ª Divisão, com sede em Baquba, capital de Diyala, e especialista em estratégia.

Os americanos não fumam cigarros, só mascam tabaco e arrotam. Os árabes arrotam e fumam cigarros, mas não mascam tabaco. Ainda restam diferenças insuperáveis.

O maior dos erros de Paul Bremer, o procônsul colocado pelos neoconservadores depois da ocupação do Iraque, foi a dissolução das forças armadas iraquianas em maio de 2003. Desde então os EUA viajaram na direção errada. Cada ano era pior que o anterior: atentados contra as forças estrangeiras, grandes matanças de civis, sequestros indiscriminados, cidades inteiras como Faluja, Ramadi e Samarra nas mãos da rebelião, violência sectária e limpeza étnica (religiosa)... Dezenas de milhares de mortos até que Petraeus teve a inteligência e a coragem de mudar o enfoque. Apesar das críticas recebidas nos EUA pelos setores mais conservadores - o acusam de esquecer o sangue derramado -, a estratégia funciona: a violência diminuiu, inclusive nas ainda problemáticas Diyala e Nínive. Agora o general Petraeus quer exportá-la para o Afeganistão para combater os taleban.

Trata-se de um avanço sólido? Depende só da presença das tropas americanas e do aumento de 30 mil soldados em fevereiro de 2007? Uma retirada antecipada por ordem de Obama provocaria problemas? "As percepções são importantes no Iraque", afirma o coronel Thompson. "A percepção de que existe um melhor governo faz que o governo funcione melhor. A percepção de maior segurança gera segurança. Esta não é uma guerra convencional, é uma guerra contra insurgentes; luta-se em muitas frentes: a militar, a econômica, a social e nas percepções das pessoas."

Dos grafites de Generation Kill nos banheiros - "Amo o exército e amo matar muçulmanos" - se passaram nos últimos meses a soldados que enchem os bolsos de balas, distribuem bolas de futebol dos blindados e aprendem frases coloquiais em árabe. Aprenderam empatia.

O Humvee (sucessor do cinematográfico Jeep) cruza uma rua de Bagdá na qual dezenas de crianças cumprimentam seus atores favoritos. "Talvez estejam dizendo com um sorriso: odeio vocês, filhos da puta", exclama um soldado, entre gargalhadas. Os três homens que viajam no blindado se distraem com conversas triviais e se alertam da presença de mulheres bonitas sem a "abaya" (traje tradicional que cobre todo o corpo e a cabeça): "Uma de sete pontos à direita e às duas e dez". A saída de um colégio feminino se transforma em acontecimento. Todos olham dissimuladamente para não ofender sensibilidades.

Um desses homens conta que antes do Ramadã receberam instruções sobre como se comportar no mês do jejum muçulmano. "Um dia desci do veículo mastigando pão e um homem me criticou: 'Você não pode comer, é Ramadã', disse. Depois vi que ele acendia um cigarro e corri para avisá-lo que também não era permitido fumar. O homem encolheu os ombros e respondeu que ele podia fumar porque Alá estava olhando para o outro lado."

Nos refeitórios das bases há televisores enormes. Acompanham-se os canais militares que transmitem basquete e futebol universitário, as notícias do Pentágono e anúncios para se alistar em qualquer força. Também gostam de alguns programas da ultraconservadora "Fox News", mas o campeão de audiência é a luta radical. Quando um dos combatentes acerta um pontapé entre as pernas do adversário, o refeitório ruge como um estádio. Em salas de lazer projetam-se vídeos. Abundam os argumentos sobre a guerra, bons e maus. Nos computadores conectados à Internet há soldados que navegam por sites que anunciam carros e objetos de luxo. É sua ligação com o mundo que deixaram para trás, sua forma de pintar o capacete.

O sargento Jerry pertence à Guarda Nacional de seu estado e acaba de prolongar voluntariamente sua estada. Sua obsessão é alcançar os três anos de serviço em zona de guerra para ter acesso a benefícios especiais aprovados nos EUA depois do 11 de Setembro. "Me faltam seis meses e com essa ajuda poderei pagar os estudos universitários de minha filha. Tenho família e uma hipoteca. Se eu estiver lá, posso vê-las, mas não pagar a casa. Aqui enfrento os gastos, mas não estou com elas. O que você teria escolhido?" Quando narra sua história seus olhos ficam úmidos, apenas uma leve película. Dentro dele ferve um vulcão que quer se expressar.

No Vietnã houve um recrutamento obrigatório; no Iraque é voluntário, um eufemismo que esconde urgências econômicas.

"Muitos soldados são rapazes de 19 ou 20 anos que acabam de sair do colégio. Outro dia um deles matou um homem que pretendia entrar na base para se suicidar. Eu disse a ele que fez bem, que salvou a vida de muitos companheiros, mas nunca se sabe como funciona o processo por dentro", diz o capitão Charles Brown, destinado a um COP em território da Al Qaeda. "Uma vez tivemos vários feridos na explosão de uma casa. Um rapaz correu para o helicóptero com o pé de um companheiro mergulhado em gelo, na tentativa de salvá-lo. São experiências difíceis."

"A Al Qaeda no Iraque é um inimigo dinâmico e interativo que se move em pequenas células. Nós aprendemos com eles e eles conosco. Nunca buscam o confronto direto porque sabem que os arrasamos. Utilizam explosivos contra as tropas e contra a população civil. (...) Os Filhos do Iraque fizeram um trabalho extraordinário. É preciso ser realistas e buscar a eficácia. (...) Historicamente, as guerrilhas têm uma duração média de dez anos. Neste caso nos restariam quatro", brinca Thompson. O capitão Brown, que lutou em Faluja no final de 2004, é otimista: "Pela primeira vez vejo a luz no fim do túnel e me parece que a maioria dos iraquianos também".

Os soldados americanos vão se retirar do Iraque em dezembro de 2011, segundo o Acordo do Estatuto de Forças (SOFA na sigla em inglês). Faltam três anos, a metade se Obama cumprir uma de suas promessas da campanha eleitoral. Ninguém acredita que o exército iraquiano esteja preparado dentro de 16 meses, nem de 36. Thompson afirma que o problema é de material e capacidade para sustentar um combate prolongado. E também de confiança - outra vez as percepções. Desde 1º de janeiro, o Comando Militar americano tem de pedir autorização ao governo de Bagdá para atuar, salvo em caso de perigo para suas tropas, que deixarão de patrulhar as cidades a partir de junho próximo.

O outro buraco negro, além da insegurança, é a corrupção. Em um país com reservas de petróleo estimadas em mais de 115 bilhões de barris não existe Mister 10%; aqui o que aplica a mordida deseja 50%. Quando a cadeia do desfalque chega ao patamar mais fraco, quase não resta nada para pôr no bolso. "Em todos os países existe corrupção. Existe nos EUA e na Europa", reconhece um comandante americano. "Mas a corrupção que pode haver em nossos países não afeta nosso modo de vida; aqui no Iraque impede o funcionamento da eletricidade, da água e do comércio", explica o chefe militar.

Se o exército iraquiano melhorou muito nos últimos 12 meses, depois da incorporação de alguns comandos do regime anterior, não se pode dizer o mesmo da Polícia Nacional, composta por antigos membros das milícias Badr do Conselho Supremo da Revolução Islâmica no Iraque e as do partido Dawa, ambos xiitas. A Polícia Civil é ainda pior: está muito infiltrada pelo Exército do Mahdi. Contra eles, os Filhos do Iraque, cerca de 100 mil sunitas armados que não confiam no governo de Bagdá nem em suas instituições de segurança. São ingredientes para o confronto civil ou para a incubação de outro ditador. Seria a mãe de todas as ironias.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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