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28/01/2009

O "outro" Ocidente

El País
Miguel Ángel Bastenier
Um historiador italiano qualificou a América Latina de "Il altro Occidente": a cópia, a imitação dos modos políticos ocidentais em outra parte do mundo. E essa foi sua imagem na Europa desde as independências no início do século 19. Mas há motivos para duvidar de que o continente ibérico continue sendo por tempo indefinido esse "outro Ocidente".

Há três linhas de evolução em curso que conspiram contra a forma que as elites latino-americanas assumiram para ver a si mesmas. Uma das três é mais conjuntural, o acaso, embora com aspirações de se transformar em estrutural, e as outras duas, nitidamente estruturais, a necessidade. A primeira é encarnada pelo presidente Chávez da Venezuela; as outras duas são a ascensão eleitoral e indígena na Bolívia e a aposta na hegemonia regional do Brasil, facilitadas pela renúncia, talvez passageira, de Washington.

Essa maré diversa tenta legitimar-se pelas urnas, por isso muito frequentemente solicitadas. Há duas semanas em El Salvador, a esquerda ex-guerrilheira - a antiga Frente Farabundo Martí - ganhou as eleições legislativas e tem fundadas esperanças de alcançar a presidência nas eleições desta primavera; o presidente boliviano, Evo Morales, conseguiu no último domingo um bom resultado global no referendo para aprovar sua Constituição indigenista, embora quatro províncias de nativismo contrário tenham rejeitado o texto; finalmente, no próximo dia 15 de fevereiro Chávez joga sua carreira política em outra consulta - a segunda, já que perdeu uma anterior - sobre sua postulação indefinida à presidência. El Salvador pode se constituir em novo recruta para a esquerda chavista, já integrada por Daniel Ortega na Nicarágua, pelo próprio Morales, a convalescente Cuba do segundo Castro, e de maneira muito mais original Rafael Correa no Equador e Fernando Lugo no Paraguai. Mas a segunda e ainda mais notável ofensiva contra a subordinação a Washington é a que desfecha o Brasil.

Lula, que tem pela frente as presidenciais de 2010, às quais já não pode se apresentar e para as quais deveria colocar um delfim - seguramente, delfina - se quiser dar continuidade ao projeto, embora reivindique esses valores europeus, nem por isso quer menos a expulsão dos EUA e da Europa - da Espanha - dos fóruns unitários latinoamericanos; o instrumento para isso não permite enganos: a criação de uma nova OEA integrada exclusivamente pelos 33 países que se estendem entre a fronteira mexicano-norte-americana e a Terra do Fogo e se molham no Caribe. O presidente brasileiro quer que esse fórum exista até 2010, como já disse na megacúpula de Sauípe em dezembro passado.

Que possibilidades têm as duas ofensivas, diferentes e revoltas, para assentar sobre novas bases, satisfatórias para ambas as partes, a relação com os EUA, com um presidente, Barack Obama, tão envolvido quanto seu antecessor na comoção na Ásia Central? Lula tem valor para Washington como "cobertura" de Chávez, freio e alternativa à linha-dura bolivariana; e Chávez pelo que possa retardar ou impossibilitar a integração branda de Lula. Mas existe uma via média, na qual os dois líderes pudessem se sentir cômodos, renunciando a seus objetivos máximos? O venezuelano, dobrando-se à capitania geral do brasileiro, agora que seu petróleo caiu bem abaixo dos US$ 40 o barril; e o brasileiro, a uma mera coordenação de superestrutura das diferentes formas de integração que a América Latina hoje enfrenta em ordem dispersa, sem pretender mais que pôr alguma ordem no pandemônio.

Mas em ambos os casos, tanto com a via dura do eixo Caracas-Havana-La Paz como com a branda do Brasil - secundado quando menos por México e Argentina -, a América Latina deixaria de ser esse "outro Ocidente" tão "nosso". Se os primeiros mestiçariam ou indigenizariam a versão protótipo do latino-americano, empregando a força necessária para que ocorresse a mudança de mãos do poder - o que não ocorreu na Venezuela nem na Bolívia -, a versão brasileira e comparsas também deveria passar pela re-nacionalização dos países envolvidos, até que a cor de sua política refletisse muito melhor a variedade racial e social do continente.

Essa é a América, em momento de definição, com a qual Obama deveria entender-se. Mas nem que o afro-americano fosse o maior e mais pacífico social-democrata do mundo, o que patentemente não é, poderia ver com equanimidade qualquer das duas tentativas, porque ambas conduzem a um mesmo fim: a América para os americanos; os de outra cor.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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