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31/01/2009

A mudança já chegou na montanha mágica de Davos

El País
Francisco G. Basterra
Estão acontecendo coisas extraordinárias. Apenas dez dias depois de iniciada a presidência de Obama, os primeiros indícios da mudança que conduzirá a um novo cenário já ocorreram. Vejamos alguns deles. A montanha mágica de Thomas Mann, em Davos (Suíça), ponto de encontro tradicional em janeiro para celebrar o festim do liberalismo financeiro pelos já ex-donos do universo, foi nacionalizada. A intervenção do Estado, maciça e imediata, para alimentar o apagado motor de arranque da economia mundial é lei. Esqueçamos a ideologia do "laissez faire, laissez passer" para voltar a dois personagens clássicos: John Maynard Keynes e Deng Xiao Ping. O político chinês por aquele "não importa a cor do gato, basta que cace ratos".

Em Pequim, brinca-se ultimamente sobre o extraordinário exemplo da economia socialista americana com características chinesas. Os políticos se apoderaram do fórum de Davos, deixando em segundo plano os banqueiros, atacados por uma onda mundial de irritação que não entende sua resistência a dar créditos. Desgosto refletido nos rostos dos cem espanhóis que perguntavam na segunda-feira ao primeiro-ministro na TVE, e a extrema dificuldade de ZP [José Luis Rodríguez Zapatero, o primeiro-ministro espanhol] para explicar com tecnicismos que "não estamos injetando dinheiro nos bancos".

Se o programa "Tenho uma Pergunta para Você" é o último estágio da democracia pós-moderna, apague a luz e vamos embora. A Big-Brotherização da política via tubo catódico. Tudo é um "reality show". Tinha razão Giovanni Sartori em seu livro "Homo Videns - La Sociedad Teledirigida": a videopolítica manda nesta teledemocracia.

A necessidade de criar um grande xerife ou supervisor global do sistema financeiro quase não é mais contestada. Algo impensável até muito pouco tempo atrás. Bernanke, o presidente do Federal Reserve dos EUA, explica que "o mundo está muito interconectado para que os países vão cada um para seu lado em suas políticas econômicas, financeiras e regulatórias". Dois banqueiros espanhóis estão em Davos, exatamente os que nesta semana anunciaram os maiores lucros do banco europeu e quase mundial: € 14 bilhões.

Outro sinal incompreensível para o cidadão comum ou o pequeno empresário feridos pela falta de liquidez. A esta altura parece claro que a decisão já foi tomada: salvar os bancos acima de tudo, recapitalizá-los, sanear seus balanços, nacionalizá-los se necessário, inclusive criar, como sugere Almunia [Joaquín, comissário europeu de Assuntos Econômicos e Monetários], um banco "ruim" financiado pelo contribuinte, preenchê-lo com os ativos tóxicos de todos os bancos.

O FMI anuncia que o valor dos ativos bancários contaminados chega a € 1,65 bilhão. Os bancos não vão emprestar porque sabem que precisarão de mais capital para aguentar esse buraco negro. E a economia parada. E, como no Titanic, os banqueiros, como se fossem mulheres e crianças, são os primeiros a saltar para os botes e o resto dos mortais espera a bordo enquanto escuta a última valsa da orquestra.

Mas ao que parece somos todos culpados, porque nós particulares guardamos a poupança na meia doméstica, assim como os bancos em suas caixas-fortes. Já nos disse Zapatero para confiar - em quem ou em quê? - e consumir, depois de seu ministro da Indústria recomendar uma surpreendente volta à autarquia.

O único economista que, já em janeiro de 2008, disse em Davos que a economia mundial se dirigia para uma aterrissagem catastrófica, Nouriel Roubini, professor na Universidade de Nova York, afirma agora que o banco americano está quebrado por insolvência. E o mesmo se pode dizer dos bancos europeus. Por sua vez, Nassim Taleb, autor do interessante livro "El Cisne Negro: el Impacto de lo Altamente Improbable" [O cisne negro - o impacto do altamente improvável], subiu aos Alpes para afirmar que a nacionalização dos bancos é absolutamente necessária. "Sabem que vamos resgatá-los e nos têm presos como reféns". Obama denunciou a "sem-vergonhice" dos executivos financeiros de Wall Street que continuam recebendo suculentos salários enquanto recolhem as abundantes ajudas do governo.

O insólito apelo de Obama ao mundo muçulmano, através da televisão Al Arabiya, para entabular um diálogo respeitoso em que os EUA reconhecem que não devem impor nada, é outro dos acontecimentos extraordinários de que falei no começo. O presidente declarou concluída a longa guerra contra o terrorismo de Bush, prometendo escutar porque com frequência, admitiu, os EUA começam ditando. Barack Husein, metade negro do Quênia e metade branco do Kansas, que viveu na muçulmana Indonésia, e com parentes africanos, muçulmanos e até um rabino judeu, está melhor aparelhado que qualquer outro líder internacional para entender o mundo diversificado e estabelecer essa nova relação.

Também representa um novo EUA que estão deixando de ser "brancos" em grande velocidade. Em 2042 os latinos, negros e asiáticos serão majoritários. Mas em 2023 isso já ocorrerá se contarmos só os americanos menores de 18 anos. Muitos membros da nova Casa Branca nasceram ou viveram fora dos EUA. Dado significativo em um país em que ainda somente 22% da população têm passaporte.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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