UOL Notícias Internacional
 

04/02/2009

Dez anos de Chávez

El País
M. Á. Bastenier
O presidente Hugo Chávez, que acaba de completar dez anos de mandato na Venezuela, enfrentará no dia 15 um referendo constitucional para continuar se candidatando em 2012, e períodos sucessivos. Nesta década, a Venezuela passou de um ator de segunda ordem a ocupar um lugar de grande visibilidade no cenário internacional, e o próprio Chávez, como líder de um sistema que chama de socialista e bolivariano, disputa com o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, a direção da esquerda na América Latina. Essa estreia mundial da Venezuela se sustenta em dois pilares: um presidente de histrionismo contagioso, que combate a pobreza de seu povo e soube se fazer enormemente atraente para uma parte do mesmo; e, enquanto durou, no aumento dos preços do petróleo, de que o país é grande produtor. Depois de um primeiro referendo sobre a reeleição, que Chávez perdeu, se for derrotado novamente terá uma terceira oportunidade de consulta, desta vez a pedido dos cidadãos. E isso parece difícil de justificar.

A Venezuela não é uma ditadura, mas as liberdades públicas diminuem de fato; a imprensa é muito crítica do governo, mas o poder favorece toscamente os que o tratam bem, e com isso as vozes críticas se atenuam. Assim, com o humor de um menino caprichoso, nega aos jornais de oposição informações tão frívolas quanto o itinerário da próxima viagem de Chávez; e com a mídia audiovisual ocorre algo parecido, em consequência de um sistema de concessões com data de vencimento, de forma que basta o poder não renovar as licenças se não gostar do comportamento das emissoras.

As eleições realizadas sob o chavismo, todas vencidas pelo presidente menos esse primeiro referendo de dezembro de 2007, foram livres no tocante à cerimônia do voto, como reconhece o decano intelectual de oposição, Teodoro Petkoff, mas com anterioridade ao sufrágio todo o peso da propaganda do estado e trapaças, como a naturalização de milhares de imigrantes colombianos para que votem no governo, orientam o cidadão.

Apesar disso, nas eleições de 2008 para governadores e prefeitos, uma oposição feita de retalhos e sem candidato unificador ganhou em vários grandes estados e na prefeitura maior de Caracas. Diante disso, a rua chavista, com ou sem a anuência do líder, não deixou de fustigar muitos dos eleitos para impedir o desempenho normal de seus cargos. Tudo isso não exclui, entretanto, que práticas parecidas sejam comuns em muitos países da América Latina.

O regime combate o atraso e a emigração, e para isso idealizou um sistema de troca de petróleo por serviços como os efetuados por milhares de profissionais cubanos, principalmente em saúde e educação, que levaram tratamentos médicos para paragens esquecidas que só tinham visto dentistas e oculistas na televisão. As estatísticas oficiais afirmam que o número de pobres diminuiu da metade para um terço da população, e a indigência para menos de 10%. Em consequência disso, Chávez mantém um alto grau de aprovação, sobretudo entre as classes populares de epiderme morena. Mas a oposição afirma que a corrupção aumenta, a insegurança cidadã escala novos picos e o desmando burocrático é inextricável. Eleazar Díaz, diretor do jornal de maior circulação na Venezuela, diz que desta vez Chávez ganhará porque se situou acertadamente no centro da polêmica, enquanto no referendo anterior descuidadamente dava por certa a vitória.

O regresso à disciplina de uma parte do chavismo, que não votou em 2007, deveria equivaler, diz ele, à vitória. Em seu nervosismo, o presidente governa de olhos postos na rua, de forma que seus pronunciamentos podem contribuir para contaminações perigosas com questões muito distantes do horizonte venezuelano, como os recentes acontecimentos em Gaza. A Venezuela rompeu com Israel em solidariedade com o povo palestino, no que está em seu perfeito direito. Mas embora o poder possa dizer que não, o ar de valentão que às vezes adota alimenta excessos como o recente ataque a uma sinagoga em Caracas, quando na Venezuela nunca houve problemas de antissemitismo.

A Venezuela de Chávez hoje é uma onda esquerdista mal articulada, com as melhores intenções, mas animada de propósitos contraditórios, nada respeitosa dos direitos individuais e cuja forma de governança se baseia cada vez mais no vitupério. A rua é sempre um tigre difícil de cavalgar.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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