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05/02/2009

Crise encurrala governos europeus

El País
Andreu Missé e Cristina Galindo
Em Bruxelas e Madri
A crise que fustiga sem tréguas a economia mundial está promovendo protestos sociais em toda a Europa, de Reykjavik a Sofia. E os políticos começam a tremer. As turbulências financeiras já derrubaram os governos da Bélgica e da Islândia e começam a passar a fatura da instabilidade em outros países europeus, como França e Reino Unido, e especialmente no antigo bloco comunista, onde houve algumas das maiores mobilizações dos últimos 20 anos.

O desastre econômico, que provoca um constante aumento do desemprego e uma deterioração das condições de trabalho, a frustração por parte da opinião pública e a perda de confiança nos políticos alimentam os protestos, segundo especialistas. "A situação é preocupante e pode piorar nos próximos meses", advertiu o diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn. A crise ameaça provocar protestos "quase em todos os lugares", ele acrescentou. Entre os países mais vulneráveis, dois da UE: Letônia e Hungria.

As economias da Europa Ocidental não estão imunes. Houve manifestações na França, com uma greve geral na semana passada, e protestos no Reino Unido, onde trabalhadores de cerca de 20 usinas energéticas exigiram que não se contratem estrangeiros. Outros países, como a Espanha, com o recorde de desemprego da União, e a Irlanda, com as contas públicas destroçadas que podem elevar o déficit a 13%, enfrentam sérios desafios políticos. A Alemanha, maior economia europeia, sofre a pior recessão desde a Segunda Guerra Mundial.

Hungria, Bulgária, Grécia, Letônia, Lituânia... registraram protestos mais ou menos violentos. Os analistas explicam que se trata de problemas internos que se agravam com a crise econômica internacional. "Cada país enfrenta uma situação nacional diferente, e não vejo no horizonte uma grande catástrofe em termos políticos na Europa", afirma Jacek Kucharczyk, subdiretor do Instituto de Assuntos Públicos de Varsóvia.

Mas se algo ficou claro na reunião do Fórum Econômico Mundial, que terminou ontem em Davos, Suíça, é que a crise ameaça gerar reações sociais violentas em todo o mundo e um ressurgimento do protecionismo e do nacionalismo.

Evitar que se amplie o clima de revoltas populares e manifestações de protesto será um dos principais objetivos da cúpula de chefes de estado ou de governo da UE, que se realizará em março. "O que fizemos até agora não é suficiente para recuperar a estabilidade do sistema financeiro", indica uma fonte da Comunidade europeia. "Os bancos continuam sem querer dar informação e ainda não sabemos os ativos tóxicos que possuem", acrescenta. Na opinião dele, "o que está em jogo não é uma recessão de 2%, mas de 15 ou 20%". "Os economistas não se atrevem a dizer até onde chegará o caos", explica.

A maior angústia deriva da incessante cadeia de anúncios de fechamento de empresas e expedientes de regulação de emprego que elevaram o número de desempregados na UE a 17,4 milhões, 1,6 milhão a mais que um ano atrás.

Poul Nyrup Rasmussen, presidente do Partido dos Socialistas Europeus, declarou: "A Europa deveria tomar novas e excepcionais medidas para evitar a perda de 3,5 milhões de empregos prevista para este ano". "A UE não pode permanecer passiva e aceitar que o desemprego aumente ano após ano", ele acrescentou. A Organização Internacional do Trabalho prognosticou a perda de 51 milhões de empregos em todo o mundo.

As turbulências econômicas já causaram vítimas. O primeiro-ministro belga, Yves Leterme, foi o primeiro a cair em consequência da crise do Fortis, o principal banco de seu país. Sua demissão em 19 de dezembro passado não se relacionou tanto à crise financeira como à própria instabilidade que marcou a vida política do país por falta de entendimento entre flamengos e valões. Mas Leterme teve de atirar a toalha diante das acusações de que sua equipe havia pressionado os juízes para que não paralisassem a venda do Fortis ao grupo francês BNP, como pediam os pequenos acionistas.

Outro que caiu com a crise foi o governo da Islândia do conservador Geir H. Haarde, que não resistiu à pressão civil devido ao afundamento dos bancos e da economia do país, que este ano cairá 9,7%. Haarde apresentou sua demissão há uma semana, encurralado pelos protestos, alguns com lançamento de ovos. A ressaca da crise poderia levar o país a ingressar na UE. A incorporação poderia ocorrer em 2011.

O Reino Unido é, sem dúvida, o mais atingido pela crise, com previsões de redução da atividade para este ano de 2,8%, entre as piores da União. O primeiro-ministro Gordon Brown, que havia recuperado popularidade no outono passado ao liderar as medidas para salvar os bancos de seu país e europeus, voltou a cair em desgraça quando se descobriram novos descalabros bancários. A pesquisa da YouGov publicada pelo jornal "Daily Telegraph" lhe dava 7 pontos abaixo do líder conservador David Cameron, em termos de competência econômica, quando no outono contava com 7 pontos de vantagem.

As últimas medidas do governo britânico para salvar a indústria do automóvel, especialmente a garantia de empréstimos no valor de 2,5 bilhões de euros, foram recebidas com absoluta frieza pela população. Em geral, as ajudas maciças aos bancos com dinheiro público criaram um crescente mal-estar entre os cidadãos, ao comprovarem que não se recuperava a economia nem o emprego, mas que se dava dinheiro aos banqueiros, os verdadeiros culpados pela crise.

A França viveu na última quinta-feira uma jornada de importantes manifestações, das quais participaram 2,5 milhões de trabalhadores, segundo os sindicatos, que a polícia diminuiu para 1 milhão. A greve geral só teve um sequência significativa no setor público, e os transportes cumpriram os serviços mínimos. Apesar da impressão geral de que o presidente francês, Nicolas Sarkozy, aguentou este primeiro empurrão, também é verdade que o protesto maciço paralisou por enquanto as reformas previstas pelo governo, que os trabalhadores rejeitavam. Sarkozy deu a entender que havia captado a mensagem e se ofereceu para iniciar negociações com sindicatos e empresários.

Mas foi na Grécia que se registraram os protestos mais violentos e as mobilizações mais maciças desde dezembro. Um país que crescerá ligeiramente este ano, mas que sofre uma sangria endêmica de recursos econômicos e uma grande desigualdade social. Os 80 armadores mais ricos possuem um patrimônio equivalente a todo o Produto Interno Bruto do país. Há quase duas semanas a Grécia sofre um amplo protesto dos agricultores, que mantêm bloqueadas as estradas e passagens de fronteira com a Bulgária. O governo está entre a espada e a parede.

"O que estamos vendo na Grécia não está longe, infelizmente, do que pode acontecer na França", advertiu o ex-primeiro-ministro socialista francês Laurent Fabius. Na França e em qualquer outro país. O drama da crise grega é que não é um assunto conjuntural, mas algo que afeta a estrutura produtiva e a desigual distribuição da riqueza. Os protestos são um sinal de alarme para toda a Europa.

Na Europa Central e do Leste, o perigo de revoltas é potencialmente maior. Na Letônia, uma manifestação com mais de 10 mil pessoas - uma das mais concorridas desde o final dos anos 1980 - desembocou em fortes distúrbios no centro de Riga. Nesse dia, um protesto de 7 mil pessoas na Lituânia também acabou com investidas policiais e 20 feridos. Manifestações menores também surgiram na Bulgária, República Checa e Hungria. "Não há um perfil homogêneo dos que protestam, mas eles são unidos pela negativa a ser politizados", diz Vessela Tcherneva, analista do Conselho Europeu de Relações Exteriores, no escritório de Sofia. "Na Bulgária, por exemplo, o cidadão não tem confiança nos políticos e a situação é muito tensa", acrescenta.

Em muitos desses países, que continuam lutando para combater seus elevados déficits públicos e suas vultosas dívidas externas, não há grande margem para aumentar o gasto com investimentos e contrabalançar os efeitos da crise. Nessas circunstâncias, alguns governos tomam medidas impopulares, o que aumenta o mal-estar entre os cidadãos.

Além disso, trata-se de governos mais frágeis e instáveis, em democracias jovens que surgiram após a queda do comunismo. Em alguns, como Romênia e Bulgária, a corrupção está muito presente. "Esses países são mais vulneráveis, porque são menos desenvolvidos que os mais ocidentais. Em geral têm menos confiança na capacidade das elites políticas para resolver as crises. Suas economias dependem fortemente do investimento estrangeiro, que está despencando", explica Jiri Pehe, diretor da Universidade de Nova York em Praga.

Inclusive em países como a República Checa, que parece contornar a crise melhor que seus vizinhos, poderá haver mudanças. "A situação política é muito instável e o governo checo é muito frágil. Em caso de uma grande crise, provavelmente seriam convocadas eleições antecipadas", afirma Petr Drulak, diretor do Instituto de Relações Internacionais de Praga.

Na Letônia, a situação parece no limite. O índice de aprovação do governo é de 10%, o pior da UE e da história pós-comunista dessa antiga república soviética. Por enquanto aguenta, mas a incerteza política se estende pela Europa Central e Oriental. Os recém-eleitos governos da Romênia e Lituânia podem se salvar, mas o Executivo húngaro enfrentará eleições gerais em 2010.

"A Hungria não teve o forte crescimento de outros países da região e arrasta um elevado déficit público. O governo é muito impopular, mas não creio que os protestos sigam adiante", afirma Sandor Richter, especialista do Instituto de Estudos Econômicos Internacionais de Viena. Na capital búlgara, Vessela Tcherneva acrescenta: "Não creio que haja uma mudança de governo, porque as pessoas acham que dá na mesma".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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