UOL Notícias Internacional
 

06/02/2009

Crise econômica provoca o consumo patriótico na Europa

El País
Ricardo M. de Rituerto
Em Bruxelas
A greve selvagem dos trabalhadores britânicos contra o emprego temporário de outros italianos e portugueses por uma empresa francesa nas ilhas terminou na quinta-feira (5) com o acordo de aceitar os estrangeiros em troca de garantia de emprego para 102 trabalhadores locais. O conflito personifica a crise de identidade enfrentada pela Europa em um mau momento econômico e cujos cidadãos buscam instintivamente refúgio em um renovado nacionalismo econômico que está no auge: o consumo patriótico.

Mas esse protecionismo viola o princípio fundamental da livre circulação de trabalhadores. "Não vamos retirar os paus da porteira", declarou na quinta-feira (5) o porta-voz da Comissão Europeia, Johannes Laitenberger. "Não é a liberdade de movimento de trabalhadores comunitários que está causando problemas", afirmou em relação ao conflito das refinarias britânicas. Os sindicatos se dizem dispostos a proteger-se de um protecionismo que pode derivar em xenofobia.

Segundo a contabilidade da Comissão Europeia, a liberdade de movimento das pessoas criou mais de 10 milhões de empregos na UE nos últimos anos. "Esse é um valor fundamental da União", salienta Vladimir Spidla, comissário de Assuntos Sociais. "Levantando barreiras e restringindo o mercado interno não nos protegeremos da crise. Levantar barreiras não vai gerar um só emprego."

São os governos que sentem a pressão de seus eleitores e caem na tentação protecionista. O da Espanha, com o apelo do ministro Miguel Sebastián para que comprem produtos espanhóis, é criticado pelo porta-voz da Comissão. "Os cidadãos consumirão o que lhes parecer melhor", responde secamente Laitenberger. No Reino Unido, foi o próprio primeiro-ministro Gordon Brown quem, em 2007, empunhou o lema "empregos britânicos para os trabalhadores britânicos", agora adotado pelos grevistas. França e Suécia condicionam as ajudas ao setor do automóvel a que sejam aplicadas só no próprio país.

O cientista político Karel Lannoo, diretor do Centro de Estudos de Política Europeia, um grupo independente de Bruxelas, crê que "a integração europeia poderia sofrer" com essas tensões protecionistas e nacionalistas. "Temo que vamos viver dois ou três anos de desintegração europeia", diz. Na opinião dele, os governos encurralaram em 2008 a Comissão para se transformar nos verdadeiros gestores da União. Lannoo considera real o perigo de uma fratura na Europa, que ficou claro com a aprovação pela Comissão de programas de salvamento bancário apresentados por alguns governos em benefício apenas de seus bancos. A Grécia proibiu os seus de socorrer suas sucursais em outros países balcânicos. O cientista político também considera perigoso ceder ao efeito contágio e aplicar a setores que sofrem uma crise cíclica, como o automobilístico, ajudas que devem ser excepcionais como a oferecida aos bancos. "As pessoas estão assustadas, veem que dão quantias enormes para os bancos e também reclamam para outras coisas, sem que sejam realmente necessárias", ele estima. "Para os governos é muito difícil negá-las e no final veremos que são ajudas ineficazes."

A Comissão Européia diz compreender "a frustração dos cidadãos e se compromete a usar os mecanismos a sua disposição para manter os empregos", entre os quais aparentemente não está o de modificar a diretriz sobre trabalhadores deslocados que provocou a greve britânica. "A Comissão não contempla nenhuma revisão dessa diretriz", afirma categoricamente Laitenberger. "Sabemos que há problemas em sua aplicação prática e será preciso resolver caso a caso."

A diretriz foi aprovada pelo Tribunal de Justiça da União e a Comissão estuda agora seus efeitos, segundo o comissário Spidla, "para ter mais elementos de julgamento e ver se há necessidade de revisão", o que contradiz o porta-voz de seu chefe, José Manuel Durão Barroso.

Algumas especulações indicam que se poderia deixar margem de manobra para os governos na aplicação da diretriz. "Essa não é a solução, porque com diferentes aplicações iremos contra o espírito e a letra. Deve ser igual em toda a UE", replica Maria Helena André, secretária-geral adjunta da Confederação Europeia de Sindicatos (CES). O que a CES reclama é que instituições comunitárias, governos e sindicatos definam com precisão os direitos e deveres dos trabalhadores transnacionais, para evitar abusos. "Pode-se compreender o protecionismo, mas não é a solução", salienta André, falando logo depois da reunião do comitê de direção da CES que discutiu a crise e suas consequências. "O pior que pode acontecer na Europa é que todos nos tornemos protecionistas, cada um apele ao interesse nacional e as pessoas esqueçam que todos nós dependemos de todos", diz. "É preciso estar atentos para evitar a cadeia protecionismo, nacionalismo, xenofobia."

Sem avaliar o acordo alcançado pelos grevistas britânicos, por desconhecer seus detalhes, André faz notar que foi uma greve selvagem alheia aos sindicatos, na qual intervieram elementos do extremista Partido Nacional Britânico. "Os sindicatos estão dispostos a se proteger desse protecionismo, por que é um fenômeno do Reino Unido e algo que pode se repetir", alerta. "As regras da livre circulação não devem ser restritas por causa da crise."

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,68
    3,173
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,44
    64.861,92
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host