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10/02/2009

A revanche do "herege" Lefebvre

El País
Juan G. Bedoya
Em Madri
Longa batina de negro impoluto, colarinho branco, cabelo escova, gestos austeros, mas firmes, a voz baixa e olhar altivo, os jovens sacerdotes conversam animadamente com os fiéis que aguardam o início da missa na capela Santiago Apóstolo, na Rua Catalina Suárez, no sul de Madri. São 7 da tarde da sexta-feira passada. O salão é amplo e confortável, incluindo uma grande biblioteca com centenas de exemplares à venda. Como som de fundo, cantos e rezas em latim. Vêm de uma bela capela para duas centenas de pessoas. A esta hora não chegam a 20. Assistem à Via Crúcis dirigida por outro sacerdote, estação após estação. Ele aparenta 40 anos e tem gestos marciais. Às vezes canta e os fiéis lhe respondem em bom latim.

São os seguidores em Madri do arcebispo Marcel Lefebvre (Tourcoing, França, 1905-Martigny, Suíça, 1991) e vivem ultimamente cheios de alegrias e sobressaltos. Bento XVI levantou no mês passado a excomunhão imposta a seus prelados em 1988, no dia seguinte a sua ordenação episcopal por Lefebvre, desaconselhada com veemência por Roma. Apesar de tudo, a consagração foi válida e representou o último cisma da Igreja Católica. O papa quis encerrá-lo com seu gesto.

"Nunca nos sentimos excomungados nem cismáticos, mas essa decisão do Santo Padre vem nos dar razão. Estamos muito agradecidos a ele, apesar da demora. Faz tempo que vínhamos esperando isso, sobretudo desde a eleição do papa Ratzinger. Estamos muito contentes", disse um porta-voz.

A alegria é obscurecida pela negação do Holocausto judeu e das câmaras de gás nazistas por Richard Williamson, um dos bispos reabilitados. O escândalo alcançou em cheio o papa alemão, sobretudo em seu país natal, e poderá prejudicar a plena reincorporação dessa irmandade de fiéis à Igreja Romana. Federico Lombardi, porta-voz da Santa Sé, disse assim: "Há hoje uma certa comunhão com o papa, mas faltam situações por definir. A plena comunhão se produzirá quando houver uma solução de todos os problemas". O primeiro passo é que o bispo negacionista se retrate de suas declarações, coisa complicada porque lhe saem da alma.

Reunidos na fraternidade sacerdotal São Pio X, os lefebvrianos contam na Espanha com 13 paróquias e outros tantos locais de culto, atendidos por um bispo (Alfonso de Galarreta, nascido na Cantábria em 1957) e meia dúzia de padres. Dizem que têm um milhar de fiéis. Neste frio anoitecer de sexta-feira passaram pela paróquia em Madri pelo menos 50.

A excomunhão emitida por João Paulo II em 1988 afetou somente o arcebispo rebelde e os quatro bispos consagrados. Nem os sacerdotes nem os fiéis que o seguem foram excomungados. "Eu venho à missa aqui desde sempre e penso em continuar fazendo isso. Aqui eu rezo e vejo o que me ensinaram quando era pequeno", diz um fiel. Aposentado, não aparenta os 60 anos. Sua mulher, muito mais jovem, argumenta com maior paixão. Sabe de cor os telefones da paróquia e da "casa central" que a fraternidade tem nas redondezas de Madri. Do bispo Galarreta sabe que esteve na semana passada "por aqui" e que os "visita muitas vezes", mas não quer dar sua localização. Queixa-se de que a imprensa "procura apenas o escândalo e o escárnio".

É impossível imaginar a excomunhão desses fiéis, mas também que nestes anos tenham sido cismáticos, como são chamados. Riem, inclusive com vontade. "Nossos bispos não foram excomungados por heresia ou por vida moral reprovável. Nada disso. E olhe para nós."

Sobre os outros motivos do cisma, não só não retificam como supõem como se fosse o papa quem se aproxima da fraternidade e não o contrário. "Reconhecemos o papa como cabeça da igreja e cremos em tudo o que a igreja crê. A mim não me ensinaram outras coisas senão as que aprendi sempre. Às vezes leio que este papa e os anteriores governaram muito mal nossa igreja e que permitiram coisas que não se deveriam permitir, como essas missas que pareciam festas de bairro. É o que está dizendo agora até Bento 16."

Apesar de não querer ser identificados, os fiéis de Madri parecem cansados e exibem respostas que têm preparadas há anos. "Olhe, olhe. Antes de ser eleito papa, o cardeal Ratzinger acusou alguns bispos de ter permitido reformas 'com o entusiasmo dos zelotes'. Veja, aqui está a frase, nesta revista. Pode levá-la, eu lhe dou de presente."

Intitula-se "Sim sim não não". Revista católica antimodernista e efetivamente um catálogo das reformas conciliares impostas por Roma nos últimos anos, incluindo a proibição de dizer a missa em latim e de costas para os fiéis.

Os excessos litúrgicos não eram o pior. Lefebvre também rejeitou os ensinamentos básicos do Vaticano II, do qual participou. Os considerava contrários ao proclamado pelos grandes papas anteriores. Concretamente, lhe doía a desautorização a Pio X (1835-1914), que na encíclica Pascendi, de 1907, havia condenado sem hesitação o modernismo. Também questionou alguns atos de Paulo VI e João Paulo II.

"Quem quer o fim quer os meios"

A palavra "cisma" aterroriza os papas católicos. Quem se crê sucessor do apóstolo Pedro e a voz de Deus na terra não pode entender que alguém lhe desobedeça até a ruptura. Antes emitiam ordens de prisão e quando possível mandavam os cismáticos para a fogueira. Desde a perda de seu poder temporal, os papas preferiram a reconciliação.

É o que fez até o desespero o polonês João Paulo II diante do arcebispo Lefebvre, com o então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Joseph Ratzinger, como intermediário pertinaz. Mas quando o acordo estava pactuado, em 6 de maio de 1988, Lefebvre disse a Ratzinger (hoje Bento 16) que queria consagrar um bispo. Caso fosse negada a permissão, seria levado a proceder em consciência. Dezoito dias depois Lefebvre e Ratzinger voltaram a se encontrar em Roma. O papa aceitava a ordenação episcopal, mas deveria ser adiada por um mês. Ratzinger levava inclusive uma carta de João Paulo II. "Eu peço pelas chagas de Cristo, que na vigília de sua paixão orou por seus discípulos para que todos sejam um", dizia.

Em 30 de junho de 1988 Lefebvre fez bispos Fellay (atual superior da fraternidade), Tiisier de Mallerais, Williamson e Galarreta. Dois dias depois era publicado o decreto de excomunhão.

O caminho de retorno também foi negociado por Ratzinger, cuja eleição papal foi celebrada com regozijo pelos lefebvrianos. Galarreta, o bispo espanhol que foi ordenado com apenas 24 anos, defende com entusiasmo as decisões de Lefebvre. "Quem quer o fim quer os meios. Era preciso salvaguardar o sacerdócio católico, garantir a permanência dos sacramentos, a própria continuidade da igreja. Como conceber uma igreja sem bispos fiéis à fé católica? A política de Roma era 'Morreu o cachorro acabou-se a raiva'. Morto monsenhor Lefebvre, o problema ficaria resolvido."

Mas não. Entre o conflito ou o mérito de encerrar o último dos cismas católicos, Ratzinger preferiu o segundo. Não foi uma graça, mas uma rendição. E representa a última vitória de monsenhor Lefebvre.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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