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10/02/2009

"O Brasil é o país do mundo mais parecido com os EUA", diz Mangabeira

El País
S. Gallego-Díaz e J. Arias
Em Brasília
Roberto Mangabeira (nascido no Rio de Janeiro em 1947) é um ministro atípico. É catedrático na Faculdade de Direito de Harvard, escreveu diversos livros sobre política e construção social e é considerado um dos teóricos mais brilhantes, e polêmicos, no âmbito do pensamento social contemporâneo. É autor de um ensaio polêmico, "Espanha e seu Futuro", que descreve a Espanha como um país sem projeto, incapaz de aproveitar seu potencial. Mangabeira, que se considera de esquerda, foi um crítico muito duro do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que, no entanto, o chamou um dia, em seu segundo mandato, para lhe oferecer a pasta de Assuntos Estratégicos.

Em Brasília, Mangabeira analisa as linhas mestras da vida política social e econômica do Brasil e as grandes correntes internacionais, mas isso não lhe parece suficiente. "O que tento é definir iniciativas concretas que encarnem ou antecipem essa mudança na trajetória institucional do país. Escolher iniciativas em políticas públicas setoriais que tenham um efeito prático imediato, mas que também preconfigurem a mudança de rumo de que o país precisa." Um dos últimos livros de Mangabeira intitula-se "O Que a Esquerda Deveria Propor?"

El País - O que deveria propor a esquerda no mundo hoje?

Mangabeira -
Basicamente, há três esquerdas no mundo. Há uma vendida, que aceita o mercado e a globalização em suas formas atuais e que quer simplesmente humanizá-la através de políticas sociais. Para essa esquerda, trata-se apenas de humanizar o inevitável. Seu programa é o de seus adversários, com um desconto social e uma renda moral e narcisista. Há outra esquerda, recalcitrante, que quer desacelerar o progresso dos mercados e a globalização, em defesa de sua base histórica tradicional (os trabalhadores sindicalizados de grandes indústrias). E há uma terceira esquerda, a que me interessa, que quer reconstruir o mercado e reorientar a globalização com um conjunto de inovações institucionais. Para essa esquerda, o principal é democratizar a economia de mercado, em segundo lugar capacitar o povo e em terceiro aprofundar a democracia. Eu entendo esse projeto como uma proposta da esquerda para a esquerda. Diria, com uma linguagem provocativa e algo teológica, que a ambição dessa esquerda não é humanizar a sociedade, mas divinizar a humanidade. O objetivo é elevar a vida comum das pessoas comuns ao plano mais alto.

EP - Como o senhor analisa hoje a crise econômica internacional?

Mangabeira -
Eu diria que há muito tempo o mundo está submetido ao jugo de uma ditadura de falta de alternativas, e que em geral na história moderna as mudanças foram forçadas pelas guerras e os colapsos econômicos. O trauma foi o requisito da transformação. Hoje há uma grande pobreza de ideias sobre as alternativas no mundo. As ideias que orientaram a esquerda historicamente, como o marxismo, são fracassadas e a resposta à crise financeira internacional revela de uma forma muito dramática as consequências dessa pobreza de ideias. Não há nada que não seja uma versão mumificada do keynesianismo vulgar, é a única luz nesta escuridão. Até agora o debate foi quase totalmente dominado por dois temas superficiais: o imperativo de regulamentar os mercados financeiros e a necessidade de adotar políticas fiscais e monetárias expansionistas. São idéias muito aquém da dimensão do problema.

EP - O que seria preciso discutir então?

Mangabeira -
Tudo o que se pode fazer em termos de regulamentação dos mercados financeiros e de expansionismo fiscal e monetário depende, para sua eficácia, do enfrentamento de três temas mais importantes. Primeiro, a necessidade de superar os desequilíbrios estruturais na economia mundial entre os países com superávit de comércio e de poupança, começando pela China, e os países deficitários em comércio e poupança, começando pelos EUA. O motor do crescimento mundial, nos últimos anos, foi um acordo implícito entre esses dois elementos. Esse motor quebrou e vamos ter de arranjar outro. Isso exigirá grandes mudanças nos EUA, na China e na organização da economia mundial.

EP - Não se trata de regulamentar, mas de reorganizar?

Mangabeira -
Efetivamente. Vamos ao segundo ponto: a necessidade de que a regulamentação dos mercados financeiros faça parte de uma tarefa maior, que é reorganizar a relação entre o sistema financeiro e a produção. Da forma como se organizam hoje as economias de mercado, o sistema produtivo é basicamente autofinanciado. Qual é então o propósito de todo o dinheiro que está nos bancos e nas bolsas de valores? Teoricamente, serve para financiar a produção, mas na realidade só vai obliquamente para esse fim. Esse é o resultado das instituições existentes. Nesse sistema as finanças são relativamente indiferentes à produção em tempos de bonança e são uma ameaça destrutiva quando surge uma crise como esta. Quer dizer, são indiferentes para o bem e eficazes para o mal.

EP - E o debate sobre a distribuição da riqueza?

Mangabeira -
Esse é o terceiro ponto. O vínculo entre recuperação e redistribuição. Todos admiramos a construção na segunda metade do século 20 nos EUA de um mercado de consumo em massa. Em princípio, a construção desse tipo de mercado exige a democratização do poder aquisitivo e, portanto, a redistribuição da renda e da riqueza, mas nos EUA aconteceu o contrário, houve uma violenta concentração da renda e da riqueza. Como conseguiram a construção de um mercado de consumo em massa? Parte da resposta está no que ocorreu com a supervalorização imobiliária fictícia. Houve uma falsa democratização do crédito, que fez as vezes de democratização e redistribuição da renda, que não houve. E agora que esse sistema está destruído é preciso criar uma nova base para o mercado. O que eu digo aos meus concidadãos é que quero uma dinâmica de rebeldia, que precisa ter como aliada a imaginação institucional.

EP - Como são as relações entre Brasil e EUA?

Mangabeira -
Eu sempre digo que o Brasil é o país do mundo mais parecido com os EUA. São dois países com tamanhos semelhantes, fundados por população europeia e escravidão africana, multiétnicos. Muito desiguais, mas onde a gente comum continua pensando que tudo é possível. Os EUA estão buscando neste momento de inflexão histórica um sucedâneo para o projeto de Roosevelt. No Brasil estamos em uma busca paralela de um modelo de desenvolvimento. Minha proposta é que construamos experimentos comuns nas instituições que definem a economia de mercado e a democracia (FMI, Banco Mundial, OMC, ONU).


O professor de Obama

"Barack Obama é um homem muito inteligente e aberto, mas ao mesmo tempo muito cauteloso." Roberto Mangabeira teve como aluno o presidente dos EUA em um curso que deu em Harvard dedicado à análise de possíveis alternativas progressistas para democratizar a economia de mercado e aprofundar a democracia. Obama compartilha suas teorias? O catedrático de Harvard se expressa com cuidado: "Tenho relações cordiais com ele e um grande apreço. Quando se formou na escola, recusou as grandes firmas e foi ensinar direito constitucional em Chicago. Isso mostra sua capacidade de sacrifício. Mas não deve se concentrar tudo na personalidade do novo presidente, e sim no próprio país, que vive uma grande abertura".

"Obama é muito representativo da cultura pública dos EUA, centrado no pragmático." Poderá corresponder às expectativas? Mangabeira crê que a maioria de seus colaboradores é inteligente e experiente, mas com ideias muito convencionais.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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