UOL Notícias Internacional
 

11/02/2009

Líder líbio retoma sonho de unir a África sob sua batuta

El País
Ignacio Cembrero
Em Madri
A sua longa lista de títulos - Guia da Grande Revolução, Guia Supremo, etc -, o líder líbio Muamar Khadafi, 66 anos, acaba de acrescentar outro: Rei dos Reis Tradicionais Africanos. Dessa maneira seu séquito o descreve desde que, no início da semana passada, ele foi eleito na cúpula de Adis Abeba presidente da União Africana, organização que reúne 53 países do continente.

A designação foi quase por acaso. O cargo correspondia por rotatividade a um país do norte da África. O Marrocos não é membro da UA, a Mauritânia foi sancionada com a suspensão de sua participação e os demais chefes de estado da região não compareceram ao encontro.

O cargo caiu, portanto nas mãos de Khadafi. E o que seria uma cúpula de 48 horas durou quatro dias. O líder líbio quer que durante o ano que durar sua presidência a UA realize seu sonho de criar os "Estados Unidos da África". Nem todos os países membros se entusiasmaram, por isso os debates foram prolongados.

Khadafi apareceu na capital etíope vestindo uma toga de brocado dourado e um barrete combinando. Sua indumentária era a habitual, mas não a de seu séquito, ao qual incorporou uma dezena de chefes tribais que a delegação Líbia descreveu como "reis tradicionais africanos".

Não em vão, Khadafi está convencido de que o que importa realmente na África são as tribos. "Precisamos de estruturas políticas; nossas estruturas são sociais", afirmou aos mandatários. "Nossos partidos políticos são partidos tribais, e por isso houve derramamento de sangue." Por isso estão proibidos na Líbia.

Apesar de que em setembro fará 40 anos que Khadafi exerce o poder na Líbia - chefiou um golpe de estado militar -, o líder continua marcado por suas origens beduínas. Nasceu em um povoado da região de Sirta, no seio da tribo qadhadfa.

Junto com sua visão tribal, outra das tendências básicas da trajetória política do célebre coronel líbio é seu empenho para exercer um papel na África. Por acaso essa paixão africana foi acentuada pela rejeição que provoca entre muitos líderes árabes, que veem nele um personagem esdrúxulo.

Nos anos 80 Khadafi financiou os movimentos rebeldes de vários países africanos, a começar por seus vizinhos Chade e Níger. Essas aventuras desestabilizadoras foram um motivo, não o mais importante, de sua exclusão da comunidade internacional. A principal razão de sua marginalização foi o envolvimento de seus serviços secretos nos atentados contra aviões da companhia aérea americana PanAm em 1988, e da francesa UTA no ano seguinte, que ao todo causaram 440 mortes.

Vinte anos depois, Khadafi retoma seu sonho africano, mas desta vez pela via pacífica. Transformou-se em um membro relativamente sensato da comunidade internacional, que a ex-secretária de Estado americana Condoleezza Rice visitou em setembro. Há apenas um mês foi o rei Juan Carlos da Espanha que se deslocou até Trípoli.

"Precisamos que as populações da África canalizem suas energias para nos empurrar até alcançar a fase final: os Estados Unidos da África, que serão como são hoje os Estados Unidos da América", afirmou Khadafi em seu discurso na cúpula.

Para tanto, prosseguiu, é necessário "um governo de união". "Terá que haver secretários [ministros], coordenadores de políticas como Defesa, Relações Exteriores", que hoje em dia "são divergentes." Khadafi mencionou inclusive a criação de um exército único africano, de uma moeda única e um mesmo passaporte.

Em 12 meses deveria ser assentada a base de uma união que a Europa, um continente muito mais homogêneo, não conseguiu em mais de meio século. O sonho líbio topou com as reticências de vários pesos-pesados africanos, a começar pela África do Sul.

Afinal, foi Jean Ping, presidente do órgão executivo da União Africana, o encarregado de explicar à imprensa o difícil compromisso alcançado. "O propósito inicial foi criar um governo da União, mas os países membros indicaram durante o debate que isso tem implicações claras e que não se havia chegado a essa fase", esclareceu. "Será melhor passar de uma comissão para uma autoridade."

A comissão que Ping preside passará a se chamar autoridade, terá algumas competências mais e um orçamento maior. A mudança de nome vai demorar anos porque precisa ser ratificada por dois terços dos países membros. Mesmo assim, Khadafi mostrou-se satisfeito: "Isto deve ser aplaudido, e agora é preciso aplicar a decisão".

Apesar de ter sido rebaixado, seu projeto continua provocando ceticismo na África. Primeiro os maus-tratos que deparam os subsaarianos na Líbia - denunciados por ONGs de direitos humanos - não fazem de Khadafi o mais indicado para dar lições de pan-africanismo.

"Peço que alguém depressa desperte Khadafi de seu sonho e o faça voltar à realidade", escreveu Sylva Nze Ifedigbo no "Nigerian Muse" de Lagos. "A África tem problemas demais para perder tempo discutindo o panafricanismo. O que nossos povos precisam é de pão na mesa."

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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