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11/02/2009

Opinião: Obama e o caminho para Damasco

El País
Javier Valenzuela
Um dos filmes preferidos de Barack Hussein Obama é "Lawrence da Arábia". Conta a história de T. E. Lawrence, o fascinante aventureiro britânico que, durante a Primeira Guerra Mundial, uniu-se à rebelião árabe contra o domínio turco do Oriente Médio. Já se passou quase um século desde as campanhas de Lawrence junto aos guerreiros de Faissal e quase 40 anos desde a morte do último grande líder do pan-arabismo, o rais Nasser. Triturado por Israel na guerra dos Seis Dias e fracassado em todas as suas tentativas de construir países modernos e vigorosos, o nacionalismo árabe deu lugar a um novo protagonista no cenário internacional: o islamismo. Hoje ninguém fala dos árabes, todos o fazem dos muçulmanos. No entanto, os árabes continuam lá.

No final de janeiro, Obama concedeu sua primeira entrevista televisiva como presidente à Al Arabiya, uma rede de notícias que concorre com a pioneira Al Jazira. Foi um gesto de boa vontade para um mundo árabe atravessado por agudos sentimentos de admiração e ódio pelos EUA, e onde seu silêncio durante o bombardeio israelense de Gaza havia provocado não poucas decepções.

"Os árabes creem nas pessoas e não nas instituições", escreveu Lawrence em "Os Sete Pilares da Sabedoria". E a pessoa de Obama desperta a simpatia da maioria dos árabes, salienta a egípcia Randa Achmawi, recente ganhadora do Prêmio de Jornalismo Mediterrâneo. "As razões são óbvias: pele escura, raízes familiares africanas e muçulmanas, nome e sobrenome de sonoridade árabe, promessas de fechar Guantánamo e retirar-se do Iraque..." Mas há mais, acrescenta Achmawi: "A chegada de um negro à Casa Branca revalorizou a democracia americana aos olhos de milhões de árabes céticos".

Os americanos demonstraram que podem expulsar os neoconservadores, mas os árabes podem se livrar da tirania, da corrupção, da burocracia, do desperdício dos poderosos, da miséria dos humildes, da violência como instrumento político e tantas outras pragas que gangrenam seu mundo? E, caso a resposta seja afirmativa, como fazê-lo e como Washington pode ajudá-los? Essas são as perguntas que hoje se fazem intelectuais, jornalistas e ativistas dos direitos humanos árabes.

Da Mauritânia a Omã, o mundo árabe, definido por uma comunidade de língua, cultura e história, estende-se ao longo de quase 13 milhões de quilômetros quadrados. É formado por 22 países - um deles, a Palestina, sem estado - e habitado por cerca de 325 milhões de pessoas, na maioria muçulmanas, embora no Egito, Líbano, Palestina e Síria haja importantes minorias cristãs. Mas seu mapa político "não mudou praticamente desde os anos 1970", observa o jornalista libanês Rami Khoury. Seu humor principal, a tragédia dos palestinos, só fez agravar-se: Israel transformou em um arquipélago de bantustões e guetos os territórios que conquistou em 1967. E quanto aos outros países da Liga Árabe nenhum é um exemplo de democracia política e/ou economia dinâmica.

"Os países árabes são geralmente regidos pela autocracia", lembra Khoury. Esta pode ser benevolente, como as monarquias jordaniana e marroquina e de alguns pequenos emirados do Golfo, ou feroz, como o baathismo sírio. De fato, com a substituição de Hafez el Asad por seu filho Bashar, o regime sírio efetuou uma contribuição árabe à política contemporânea: a presidência da República hereditária. Hoje a principal preocupação do egípcio Hosni Mubarak e do líbio Muamar Khadafi é deixar o cargo para seus respectivos filhos.

A situação não é melhor no plano econômico. O maná do petróleo transformou Catar, Kuwait, Dubai e outros Emirados no Eldorado da indústria do luxo e da arquitetura espetacular, mas pouco mais. Enquanto o Extremo Oriente e a América Latina melhoraram suas posições econômicas, o mundo árabe continua empacado.

Na realidade, as novidades dos últimos anos no mundo árabe foram o auge dos islâmicos e a derrubada pelos americanos de Saddam Hussein. Mas o caso do Iraque, lembra Achmawi, "não tem boa repercussão entre nós, e não porque o déspota iraquiano despertasse simpatias, mas porque não nos entusiasma que se invada e ocupe um país irmão com falsos pretextos". Os árabes não esqueceram que, quando iam se revelando as mentiras sobre as armas de destruição em massa e as ligações com Bin Laden, Bush esgrimiu um último argumento: a tomada de Bagdá iria acender a democratização do Oriente Médio. "No entanto, e faltando ver como termina a situação no Iraque, os EUA continuaram apoiando os autocratas pró-americanos de sempre, em particular os da Arábia Saudita e do Egito", denuncia Khoury.

O símbolo da rejeição árabe a Bush foi a sapatada que lhe atirou o jornalista iraquiano Muntadhar al Zeodi. De Casablanca a Bagdá, passando por Argel, Cairo, Beirute, Damasco e Riad, o ex-presidente é identificado com a morte de dezenas de milhares de iraquianos; a manutenção, agora sob o pretexto da guerra contra o terror, da aliança com tiranos árabes; o desprezo por Arafat até sua morte; a rejeição do Hamas quando ganhou as eleições palestinas e o apoio incondicional a Israel. "O relativo à democratização do mundo árabe ficou na retórica barata", diz Achmawi.

Mas existem democratas árabes. O egípcio Saad Eddin Ibrahim, sociólogo e ativista dos direitos humanos, é um deles. No Líbano, Egito, Argélia, Marrocos, Catar e outros países, ele e gente como ele continuam escrevendo, organizando a sociedade civil, manifestando-se, usando espaços de liberdade como as redes Al Jazira e Al Arabyia e empregando engenhosamente instrumentos tecnológicos como os telefones celulares e a Internet. Condenado novamente a dois anos de prisão no verão de 2008, Ibrahim teve de se exilar.

Quando Lawrence da Arábia propôs a seus companheiros de armas beduínos atravessar um deserto infernal para atacar Ácaba pelas costas e avançar para Damasco, estes lhe disseram que isso era impossível. "Por quê?", perguntou. "Porque assim está escrito", lhe responderam. "Nada está escrito", sentenciou o britânico, lançando-se às areias ardentes de El Houl. Está escrito em alguma parte que o mundo árabe deva continuar assim? Existe algum "mektub" ou destino que o condene eternamente? Não, pensam os reformistas árabes. Na opinião deles, Obama, assim como pretende fazer em outros cenários, deveria substituir a visão ideologizada neoconservadora da era Bush por um pragmatismo progressista. Em que consistiria? Eles resumem assim:

1. Os EUA devem apoiar os países árabes que realizem eleições, estabeleçam sistemas judiciais independentes, tenham parlamentos robustos, que desenvolvam sistemas educacionais decentes, garantam a liberdade de imprensa, avancem na igualdade da mulher... Ao mesmo tempo, devem reduzir o apoio aos que não caminhem por essa via. "Mas sem ameaças de forçar uma mudança de regime", adverte Khoury. "Isso acaba sendo contraproducente."

2. Os EUA têm de se comprometer a aceitar os resultados eleitorais nos países árabes. "Inclusive quando ganharem os islamistas", explica Ibrahim. Como outros especialistas, o jornalista espanhol Javier Martín, até há pouco tempo diretor do serviço árabe da agência Efe, afirma que, embora pareça paradoxal, o islamismo político moderado pode ser uma via de acesso à modernidade, e cita o exemplo da Turquia governada por Erdogan, um país muçulmano embora não-árabe.

3. Os EUA não podem continuar mantendo tanta cumplicidade com uma Arábia Saudita que difunde essa versão retrógrada do islã que é o wahabismo.

4. Os EUA devem emancipar sua política exterior de Israel e se transformar em um "honest broker", um mediador justo no conflito com os palestinos. Marwan Muasher, ex-ministro das Relações Exteriores da Jordânia e autor de "The Arab Center: The promise of moderation" [O centro árabe: a promessa da moderação], afirma: "A melhor ajuda de Washington aos moderados árabes seria concluir o processo de paz israelense-palestino. E Obama não deve esperar um segundo mandato para fazê-lo".

Obama chegará a Damasco, se transformará nesse presidente americano com que sonham os reformistas árabes? A simpatia pessoal que desperta está tingida de certo ceticismo. "Não façamos demasiadas ilusões", diz Randa Achmawi. "Intuímos que Obama manterá a política tradicional em relação a Israel e além disso continuará apoiando os regimes totalitários árabes, enquanto isso convier aos interesses econômicos e de segurança de seu país. Vai preferir a situação como está."

Mas está também não está escrito. Obama, o admirador de Lawrence, tem quatro anos pela frente para redigir sua própria história.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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