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13/02/2009

Pesquisa explica como alguns vírus provocam o câncer

El País
Mónica L. Ferrado
Em Barcelona
Quinze por cento dos casos de câncer estão relacionados a um vírus. Mas nem todas as pessoas infectadas acabam desenvolvendo um tumor maligno. O processo maligno começa nos casos em que o patógeno consegue modificar seu próprio material genético para enganar as defesas do organismo, segundo os resultados de um estudo publicado por "Genome Research", dirigido por Manel Esteller, diretor do Programa de Epigenética e Biologia do Câncer do Instituto de Pesquisa Biomédica e do Instituto Catalão de Oncologia (ICO) e pesquisador Icrea.

Os pesquisadores analisaram mais de 500 amostras de tecidos infectados pelos principais vírus causadores de câncer: o vírus do papiloma humano, causa necessária para o surgimento de câncer de cérvix; o vírus da hepatite B, relacionado ao aparecimento do câncer de fígado; e o vírus Epstein-Barr, causa de alguns tipos de linfoma. Eles foram recolhidos em três grupos de população: pessoas infectadas mas não sintomáticas, pessoas que desenvolveram alguma infecção ou lesão pré-maligna e pessoas que já desenvolveram um tumor ou um câncer associado.

Em cada um desses três estágios, o material genético do vírus sofre importantes mudanças em seu epigenoma. Quer dizer, no padrão de sinais químicos - uma espécie de interruptores - que faz que seus genes (genoma) se expressem ou não. A metilação os desativa e a acetilação os ativa. "Quando o vírus entra no corpo, nos primeiros estágios da infecção, se expressa com todos os seus genes porque não está metilado. Assim, o sistema imunológico pode detectá-lo e eliminá-lo", explica Esteller.

Mas pouco a pouco o vírus consegue enganar o sistema imunológico. Conforme a infecção avança para um estágio pré-maligno, os vírus vão ficando mais metilados, o que significa que seus genes vão deixando de se expressar, e portanto o sistema imune vai tendo cada vez mais dificuldade para detectá-los e atacá-los, explica Esteller.

O vírus consegue esse estado roubando proteínas da célula hospedeira. Ele as utiliza para criar uma roupagem bioquímica com a qual se camufla do sistema imune. Mas não esconde sua carga viral, que continua ativa. Quando o tumor maligno aparece, o vírus não só conseguiu se camuflar totalmente, como com o espólio genético também conseguiu modificar o comportamento da célula e transformá-la em cancerígena.

O que faz que esses vírus aumentem sua capacidade de enganar? Para ter uma resposta precisa ainda será necessário pesquisar mais, mas já há indícios de que por um lado influem diferenças genéticas individuais e, por outro, há estudos que indicam que algumas exposições ambientais facilitam a metilação. É o caso da exposição ao tabaco, a doses de radiação elevada ou excesso de sol, explica Esteller.

Os maus hábitos não só modificam a epigenética do vírus, como também enfraquecem o sistema imunológico e facilitam que o vírus penetre na célula. De fato, quando se detecta a presença do vírus da hepatite B e C utilizam-se medicamentos que reforçam a atividade do sistema imunológico. No caso do vírus do papiloma (HPV) ainda não existe tratamento eficaz para o aniquilar, mas aconselha-se aumentar os hábitos saudáveis para que o sistema imunológico se defenda da forma mais eficaz e acabe com ele, explica Silvia Sanjosé, responsável pela Unidade de Infecções e Câncer do ICO. Em mulheres, o HPV representa 55% dos tumores associados a infecções.

Segundo os dois especialistas, conhecer a epigenética desses vírus permitirá desenvolver tratamentos que evitem a metilação, isto é, impeçam que o vírus roube de sua célula hospedeira proteínas para enganar o sistema imunológico. Esteller acredita que essas alterações também poderiam estar presentes em vírus responsáveis por outras doenças, como a gripe e a Aids.

Outras pesquisas mostram que não só se herda o genoma como também seu padrão de ativação, o epigenoma. "Acreditamos que o epigenoma alterado por hábitos tóxicos também pode ser herdado", conclui.

Instrução de instruções
Se o genoma é o livro da espécie, o epigenoma seriam as anotações na margem que explicam a ativação dos genes. Em definitivo, os genes predispõem, mas o epigenoma os condiciona a atuar ou não. Conseguir um mapa completo do genoma humano representa um grande passo, mas até que não se conclua o mapa do epigenoma não se terá o padrão genético de muitas doenças e sua relação com o ambiente. O metiloma dos vírus (o mapa de desativação dos genes) que a equipe de Esteller agora completou encurta o caminho para conseguir uma das peças do epigenoma humano: o metiloma humano. "Por enquanto temos fragmentos, não está completo." Segundo o pesquisador, em menos de cinco anos poderá estar pronto.

Para conseguir um mapa completo do epigenoma humano, além das metilações também será necessário completar as acetilações (ativação de genes) e o comportamento de outros elementos como as histonas, que empacotam a cadeia de DNA.

Esse é exatamente o objetivo do consórcio internacional AHEAD, formado por EUA e UE, do qual Esteller também participa, e do Projeto Internacional do Genoma do Câncer, que pretende estudar a epigenética do tumor.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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