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13/02/2009

Um caminho mais à direita em Israel

El País
Lluís Bassets
Sempre há um caminho mais à direita - é o que parece demonstrar a evolução de Israel. O tropismo de inclinação destra tem muitas explicações, mas a mais convincente de todas é o medo. Quando uma sociedade consegue transformar o medo no ar que respira, é inevitável o surgimento da síndrome do caracol, que vai se enroscando cada vez mais para dentro de sua casca feita de nacionalismo, xenofobia e impavidez diante dos sofrimentos alheios.

O eleitorado israelense se moveu sob a tração de duas forças: a primeira e mais potente, a angústia por segurança, impeliu o Nossa Casa Israel (Yisrael Beiteinu), o partido da limpeza étnica antiárabe; a segunda, a da moderação política, colocou o Kadima no mínimo em paridade com o Likud e talvez na liderança em votos e em deputados. Os eleitores puderam apostar primeiro em um leilão de falcões organizado em torno do ataque a Gaza: Tzipi Livni e Ehud Barak protagonizaram a disputa, mas ninguém se enganava sobre a maior dureza e belicosidade de Netanyahu.

Mas nos 20 dias transcorridos desde a posse de Obama, momento em que se completou a retirada da Faixa de Gaza, até o dia das eleições israelenses, tanto o Kadima como o Partido Trabalhista se dedicaram a vender moderação, algo que jogou em detrimento de Barak e de Netanyahu: para duro, Lieberman; mas para a contraditória mistura de dureza e moderação, melhor o Kadima que os trabalhistas e, é claro, que Netanyahu.

A vitória do bloco nacional não admite discussão, embora ninguém possa tirar méritos de Tzipi Livni, que superou as pesquisas desfavoráveis de toda a campanha eleitoral. Mas os eleitores votaram a favor da segurança máxima contra a negociação da paz e a criação do estado palestino, isso está claro. Será difícil o governo se comprometer exatamente no caminho contrário, o que os eleitores não elegeram. Avigdor Lieberman diz alto e claro e transforma em programa o que toda a centro-direita pensa e quase todos os israelenses à direita e à esquerda sentem no fundo de seus corações, salvo os escassos 10% realmente comprometidos e preocupados com os palestinos.

Esses resultados eleitorais, perfeitamente previsíveis, consagram Israel como o último reduto neoconservador em um mundo que se encontra em plena virada e se afasta da ideologia hegemônica dos últimos oito anos de George Bush. Para esse conservadorismo israelense que sai reforçado das eleições, têm plena vigência e inclusive adquirem todo o sentido as idéias fundamentais que animaram a última etapa política nos EUA. Os neoconservadores defendiam a resolução dos problemas de segurança e das ameaças terroristas exclusivamente pela força militar, detestavam o multilateralismo e o consenso internacional, contornavam sempre que possível a ONU e se sentiam especialmente confortáveis com a ideia do destino manifesto dos EUA - uma forma de providencialismo muito próxima da do "povo eleito" - e do excepcionalismo americano, essa peculiaridade histórica que muitas nações adotam para se permitir aventuras fora de qualquer norma.

Sua aproximação da questão palestina não poderia ser mais reducionista. A paz passava pela vitória em sua guerra global contra o terror e não davam a menor importância à ferida que representam o êxodo e a reivindicação palestina para todo o mundo árabe e muçulmano. O máximo que poderiam conceder era o desligamento tal como imaginou Ariel Sharon: uma retirada unilateral de uma parte dos territórios ocupados, acompanhada da construção de um muro de alta segurança e da manutenção de diversos postos de controle e vigilância em território palestino.

Nesses termos caberia admitir inclusive a futura criação de uma entidade equivalente a um estado para os palestinos. Mas Bush a imaginava como resultado de uma negociação bilateral e desigual entre palestinos e israelenses, na qual os EUA não jogariam como sempre de árbitro leal nem se envolveriam profundamente como se fez na época de seu pai e de Clinton.

Tudo isso já faz parte do passado. Por mais que se critique Obama por sua simpatia por Israel, nada será como antes. A submissão de Bush a Sharon e a Olmert não terá novas réplicas. Washington vai se envolver a fundo. Os documentos que são colocados na mesa do presidente levam títulos como o que pôs um "think tank" liberal: "Restaurar o equilíbrio. A estratégia sobre o Oriente Médio para o novo presidente" (Instituto Brookings). Existe um caminho à direita, que inclui Lieberman no governo, mas tem uma trajetória de colisão direta com Barack Obama. Por isso seria melhor que desta vez Israel curasse sua síndrome de caracol e tomasse o caminho do centro, o da grande coalizão. Talvez será em algum momento o caminho da paz. Talvez, insh'allah.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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