UOL Notícias Internacional
 

15/02/2009

"O anonimato digital incentiva o jornalismo marrom", diz o escritor Tomás Eloy Martínez

El País
Juan Cruz
Tomás Eloy Martínez (Tucumán, Argentina, 1934) passou por uma cirurgia delicada, submeteu-se a tratamentos longos, e enquanto isso, escreveu artigos, terminou um livro, "Purgatório", saiu para jantar, viajou para o México para celebrar o aniversário de seu amigo Carlos Fuentes, e ainda teve tempo para sair com amigos para discutir sobre absolutamente tudo e para continuar sendo um membro bastante ativo da Fundação Novo Jornalismo, presidida por outro amigo seu, Gabriel García Márquez.

Este é o seu caráter. Tornou-se jornalista cedo, sempre quis contar histórias, e no dia em que não contar nenhuma (verdadeira ou ficcional) deixará de ser Tomás Eloy Martínez, o jornalista. Entrevistei-o em sua casa em Buenos Aires (ele tem outra em Nova Jersey, onde é professor da Universidade de Rutgers), em meio a uma dessas oscilações de saúde que enfrentou e enfrenta como um bravo entre o fechamento de um jornal, ou a conclusão de um romance, antes de viajar à Espanha para falar sobre seu último livro.

Se perguntarmos em qualquer lugar da Argentina quem é o jornalista símbolo da paixão pelo ofício, um mestre na profissão, a maioria das pessoas responde seu nome. Ainda que tenha sido incentivado a abandonar o jornalismo por conta dos prêmios que recebeu por seus livros, o ofício continua sendo sua paixão; que exerceu na revista Primera Plana, no jornal diário La Nación; no exílio, que o salvou das lutas da ditadura militar argentina, trabalhou como jornalista na Venezuela e no México; neste último, em Guadalajara, fundou um jornal diário. Ainda que tenha dirigido redações, sua paixão sempre foi a reportagem, e a coletânea de seus artigos "Lugar común, la muerte", é um exemplo dessa dedicação.

Depois de conversarmos em Buenos Aires, ele falou a alguns jornalistas argentinos sobre a essência dos seus dois ofícios, o de escritor de ficção e o de jornalista: 'A literatura, se não é desobediência, não é literatura'. Assim como o jornalismo, a literatura é essencialmente um ato de transgressão, uma maneira de olhar para um pouco mais além dos nossos limites, dos nossos narizes. Tudo o que escrevi na vida são atos de busca da liberdade. Nada me dava mais prazer - quando publicava meus primeiros artigos em La Gaceta de Tucumán - que ouvir minha mãe dizer às minhas irmãs: 'Temos que ir à missa rezar pela alma de Tomás, que está totalmente perdida'. Entre seus ideais, disse certa vez, está a verdade, enquanto jornalista, e a mentira, enquanto escritor. "O jornalista tem a obrigação de ser fiel à verdade, aos leitores e a si mesmo. O escritor, por outro lado, só tem de ser fiel a si mesmo". Fiel à sua alma dupla, de escritor e jornalista, Tomás Eloy Martínez disse que o jornalismo permitiu que ele ganhasse a vida com dignidade. Com esta alma "totalmente perdida", tratamos de juntar os pedaços do jornalismo de ontem e hoje.

El País - De onde vem essa paixão?
Tomás Eloy Martínez -
Desde que me lembro, sempre quis contar histórias. Como não me pagavam por isso, desviei-me para o jornalismo, onde tal coisa era possível. Escrevi crônicas e, como tive um certo êxito nesse exercício, quando me propus a escrever romances não quis me deixar levar pela facilidade que eu havia adquirido na profissão. Quis compor romances puros, dar as costas a qualquer fio de realidade, e não existem romances puros. Queria negar tudo o que eu era (o jornalista, o crítico de cinema, o investigador das crônicas das Índias), e de fato consegui em meu primeiro livro, de 1967.

EP - E como vê a profissão hoje?
Martínez -
Em relação ao jornalismo, em relação ao que virá, sinto uma certa perplexidade; as formas de leitura estão mudando vertiginosamente, e o jornalismo de papel está se transformando num veículo incômodo para a leitura. Muita gente prefere as versões online dos jornais, nas quais eu vejo um risco, sobretudo nos comentários das notícias ou nas opiniões. Por um lado, existe uma liberdade necessária para escrever e para expressar-se com soltura. Por outro, o anonimato das postagens abre caminho para uma perigosa impunidade. Não me preocupam tanto os descuidos e maus tratos a que submetem a linguagem, que é nossa ferramenta essencial. Preocupo-me mais com que se leia mal, e que essa rapidez de leitura incentive a rapidez de acusação. O anonimato encobre uma certa infâmia, às vezes encobre sentimentos depreciáveis. Isso não é jornalismo, é claro; é uma perversão do jornalismo, mas o jornalismo serve de veículo para isso nesse momento.

EP - Mas antes existia a imprensa marrom.
Martínez -
Existia e ainda existe. O que acontece é que isso potencializa, multiplica a força do jornalismo marrom. Todos os dias vemos sinais desse tipo de jornalismo que se manifesta em forma de acusação. Escrevi uma coluna sobre a carnificina que fizeram com Ingrid Betancourt e com Clara Rojas quando foram libertadas pelas Farc. Jornalistas muito sérios, com uma longa trajetória, colocaram lenha na fogueira das fofocas sobre sua intimidade.

EP - Como se estabelecem os limites?
Martínez -
Este é um trabalho básico dos editores. Quando a Fundação Novo Jornalismo foi criada, a intenção era proporcionar aos jovens jornalistas o mesmo tipo de educação sobre a edição de textos que o pessoal da minha idade teve na época de nossa formação profissional. Hoje essa educação foi arrasada por causa da rapidez com que se trabalha.

EP - Como foi essa sua formação?
Martínez -
Comecei no jornalismo por necessidade, porque meus pais e eu mesmo desconfiávamos que o trabalho universitário e a literatura não seriam capazes de me sustentar. Assim, comecei trabalhando em La Gaceta de Tucumán, como corretor. Lá estavam todos os professores desaprovados pelo peronismo. Essa foi minha primeira forma de educação jornalística. Cuidando da linguagem, a ética vem em consonância, porque a responsabilidade começa pela ferramenta que se maneja. Desde o princípio eu soube que não havia uma só verdade; sei que não há uma só verdade e que se você e eu narrássemos o que estamos vendo nesse momento, contaríamos de forma diferente.

EP - Muitas verdades e muitas mentiras. Lembra-se de quando foi anunciada a morte do vencedor do Nobel Le Clèzio um minuto depois que lhe deram o prêmio?
Martínez -
Bom, isso aconteceu com Le Clèzio e acontece centenas de vezes, com mortes, divórcios, separações, namoros... E não acontece só na Internet, acontece também no jornalismo de papel. Há exemplos memoráveis. Lembra-se do que aconteceu no The Washington Post com Janet Cooke, a jornalista que inventou a história de um menino que injetava heroína com a permissão da mãe..., e era uma história falsa. E a daquele jornalista mitômano que derrubou toda a cúpula de editores do The New York Times porque não perceberam que, por preguiça, ele estava criando uma realidade completamente falsa. O jornalismo que hoje consideramos verdadeiro também está exposto a esse tipo de tropeços. Mas a respeito disso tenho uma história pessoal.

EP - Prossiga.
Martínez -
Em meu primeiro dia em La Nación, encarregaram-me do obituário de Sacha Guitry. O necrológio era um gênero muito bem cuidado no jornal; escrevi esta com os dados do arquivo e com o que eu lembrava. Soltei-me na linguagem, não me fiei só nos dados, e o diretor Bartolomé Mitre veio me cumprimentar. Senti então que esse eco de um jornalismo diferente podia ter certa repercussão nos leitores. Depois me nomearam crítico de cinema, e comecei a escrever críticas iconoclastas, contrárias. Um dia as grandes produtoras retiraram a publicidade; o jornal quis que eu revisse meus critérios, e eu parei de assinar. Mandaram-me para o limbo, numa sessão que se chamava Movimento Marítimo, sobre os afogados no Rio da Prata. Era um castigo. Fui. E suportei até que apareceu a Primera Plana, a revista de Jacobo Timerman. Lá havia outros jovens, e demos corda ao nosso apetite por narrar, e descobrimos outro país. Timerman se foi depois de um ano e meio. Ficamos à frente da redação, três jovens rebeldes.

EP - Qual é a sensação de colocar um periódico novo em marcha?
Martínez -
Um delírio. Com Timerman, a revista era mais conservadora; em 1963 ele perguntou qual era o fato cultural do ano, e eu disse: os Beatles. Eles não saíram, mas colocamos na capa Borges, Cortázar, García Márquez, Cabrera Infante. Antes disso, a Primera Plana tinha tratado muito mal os contos de Cortázar e "A Cidade e os Cães", de Vargas Llosa. Descobrimos que havia uma literatura latino-americana, e graças a isso fomos abrindo caminho para a literatura...

EP - Na época, o novo jornalismo estava surgindo nos Estados Unidos, mas vocês já o faziam na América Latina.
Martínez -
E acho que além disso ele nasceu entre nós por instinto, por pura necessidade de narrar, pelo vício de ler romances e por discordarmos do jeito que existia de narrar a realidade. Por que não podemos, no jornalismo, narrar como nos livros? Em dois de meus primeiros livros, trabalho o novo jornalismo: em "O Romance de Peron" narro uma investigação muito séria de uma forma romanceada, e em "Santa Evita" decido inverter os termos do novo jornalismo. Se na primeira eu havia contado, com os recursos do romance, o que me parecia jornalisticamente correto, em Santa Evita narro, com os recursos do jornalismo, uma ficção absoluta.

EP - As águas se misturam.
Martínez -
E isso obriga a ter um cuidado ético muito severo. O leitor não pode se sentir confuso: a ficção é ficção, e o jornalismo é jornalismo, porque se corre o risco de perverter ambos os gêneros.

EP - E o jornalismo é uma matéria delicada.
Martínez -
Parto do fato de que o jornalismo é, antes de mais nada, um ato de serviço, um serviço ao leitor. Com o jornalismo, você serve a um leitor; apresenta a ele uma realidade com a maior honestidade possível, com os melhores recursos narrativos e verbais de que dispõe.
Mas a todo momento é preciso deixar bem claro que essa é a realidade que você viu, em cuja veracidade acredita... Na ficção, por outro lado, é preciso deixar em evidência que os dados fornecidos não são nada confiáveis.

EP - E a obsessão de Gabriel García Márquez pela informação é equivalente à que Truman Capote sente para que não lhe escapem detalhes em "A Sangue Frio"...
Martínez -
No caso de García Márquez, é porque importa muito a ele a criação de um universo verossímil, mesmo nos romances. O leitor se identifica mais com o que é narrado se isso parece verdadeiro... García Márquez é obcecado pela informação; e o vi trabalhar em "Notícia de um Sequestro" com uma obsessão pela informação precisa que vai além de todo cálculo. Ele já era na época um escritor de primeira linha, tinha recebido o Prêmio Nobel e estava trabalhando nesse livro-reportagem como fazia em qualquer um de seus romances de outro registro. Não é preciso desconfiar de nenhum dado do livro. Por outro lado, não acredite em nenhuma informação de "O General em seu Labirinto": é tudo imaginação.

EP - O jornalismo e a ficção se retroalimentam. Qual a contribuição de um para o outro?
Martínez -
Uma proximidade maior e melhor do leitor com o fato tal como é. Porque proporciona uma identificação entre o leitor e as personagens que estão sendo aludidas. O velho jornalismo dizia: "Morreram xis pessoas no tsunami que aconteceu ontem no sudeste asiático; uma grande onda avançou quilômetros a alcançou aldeias e cidades...", enquanto o novo jornalismo começaria uma notícia como essa assim: "A senhora Tapa Raspatundra estava na orla de seu vilarejo em Java quando uma nuvem negra a fez prever a catástrofe...". Ele conta o horror da onda e identifica o leitor com um personagem que vive a tragédia em primeiro plano. O relato introduz o leitor dentro da história.

EP - Você passou pela ditadura militar. Em épocas assim, o jornalismo perde sua identidade.
Martínez -
A ditadura teve um efeito muito venenoso no meu país e cerceou muito a dignidade jornalística daquela época. Eu passei esse período na Venezuela, em exílio. À distância, via-se que a Argentina vivia um processo ditatorial, uma ditadura atroz. Lembro que poucos dias depois de chegar no El Nacional de Caracas pediram-me uma crônica sobre a Argentina. Eu a intitulei "Uma longa marcha entre os escombros"; reuni ali todas as informações sobre a Junta Militar, que condenava a cidadania à obediência cega. Diziam-me: "Você está errado, Videla é o bom; foi a ala mais civilizada do Exército que venceu; há outra ala mais perversa..." E havia, mas Videla havia preparado com habilidade o assassinato completo de toda a consciência na sociedade.

EP - Brecht dizia que era preciso cantar também nos tempos sombrios. E fazer jornalismo?
Martínez -
No Brasil houve momentos memoráveis durante a ditadura; quando a censura oficial proibia a publicação de certas notícias, os jornais saiam com espaços em branco onde as informações seriam impressas. Na Argentina, isso não aconteceu. Aqui, ou o jornalista era cúmplice ou não sabia a que estava se expondo. A cumplicidade foi uma exigência para poder trabalhar no jornalismo. Os jornalistas chilenos pediram desculpas por sua obediência à ditadura de Pinochet. Os jornalistas do meu país não pediram desculpas. Muitos deles se orgulham do que fizeram: acreditam que fizeram o correto e estavam de acordo com o que se fazia.

EP - Com tudo o que se diz hoje sobre o que é o jornalismo, qual seria seu diagnóstico sobre o futuro da profissão?
Martínez -
Sempre haverá jornalistas, assim como narradores. Defoe é anterior ao jornalismo, assim como Homero e Heródoto; eram todos narradores de fatos que davam como certos, e a história continua em pé graças ao fato de que o homem sempre teve vocação para narrar seus feitos. Não narrava as ausências: narrava aquilo que lhe parecia narravel ou contável. Só o escrito permanece; aquilo que não foi narrado não existe, e o que foi escrito se transforma em verdade. E isso continuará sendo assim. O jornalismo? As transformações são muito vertiginosas. Quando eu era criança não existia televisão, só rádio e era um rádio muito mais precário que o de hoje: quando comecei no jornal, as notícias eram gravadas em cilindros de cera. A primeira vez que fui a Madri para entrevistar Perón, em 1966, as notícias eram transmitidas por telex ou por telegrama. E agora veja todos os progressos que existem. Nesse ritmo, que quer que eu preveja o futuro?

EP - E o passado? O que a profissão lhe deu?
Martínez -
Um bom modo de ganhar o pão. Um modo digno, esforçado e muito trabalhoso. O jornalismo geralmente não é bem pago, mas qualquer que tenha sido o salário, procurei dar o melhor de mim, porque sempre me pareceu que o que estava em jogo era a minha pessoa, meu ser, minha natureza humana, e não o que recebia em troca. Foi isso que a profissão me deu.

Tradução: Eloise De Vylder

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    13h30

    -0,17
    3,162
    Outras moedas
  • Bovespa

    13h32

    -0,63
    65.250,98
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host