UOL Notícias Internacional
 

18/02/2009

O único homem capaz de falar com a Itália

El País
Enric González
Quem compreende a Itália? Não creio que Giulio Andreotti a compreenda, apesar de muito provavelmente conhecer seus segredos mais obscuros. Tampouco Berlusconi, embora conheça seu preço. Talvez quem mais se aproxime do conhecimento do mistério, por vias que oscilam entre a mística e o lugar-comum, seja Adriano Celentano. O acima afirmado soa a burrice, é verdade. Mas quando Celentano fala a Itália escuta. Depois a Itália aplaude ou protesta contra as incoerências banais de Celentano, ou elogia sua sinceridade. Até que o homem volta a falar e o país escuta de novo.

Celentano é um artista de variedades. Foi imitador de Jerry Lewis, bailarino, ator e sobretudo compositor e cantor. Sim, seu currículo não parece o mais apropriado para um profeta nacional. O currículo de Berlusconi também não é um modelo para o primeiro-ministro de um país democrático, e lá está ele.

O que Celentano tem de especial? Nada concreto. Criou o hino oficioso da Itália, que não é "Volare" de Modugno, como se poderia pensar de fora, mas "Azzurro". Isso é algo. Começou a subir aos palcos em 1958 e manteve uma altíssima popularidade ininterrupta até hoje: portanto, parece familiar para qualquer cidadão italiano. Diz o que lhe dá vontade, o que também constitui um fator a se levar em conta.

O anterior não explica por que qualquer programa de televisão de Celentano atinge audiências aberrantes, próximas, em alguns casos, de 70%. Seu programa "Rockpolitik" (2005), quatro emissões de três horas cada, foi quase um fenômeno telúrico. Nunca se soube com exatidão quanto a televisão pública RAI pagou por "Rockpolitik". Celentano dava um medo atroz nos diretores da RAI, e o diretor da RAI-1, Fabrizio del Noce, preferiu se demitir "temporariamente" antes do primeiro episódio e retornar agilmente ao cargo depois do último.

"Rockpolitik" foi objetivamente uma das melhores coisas que já apareceram na televisão europeia. O esquete da carta a Berlusconi, inspirado em uma cena de um velho filme de Totó protagonizado por Roberto Benigni e o próprio Celentano, constitui um modelo do que se pode improvisar diante de uma câmera. Os sermões morais de Celentano, por outro lado, constituem um exemplo do que só pode acontecer na Itália.

O anterior, novamente, não explica por que seus discursos, às vezes erráticos, às vezes demagógicos, compostos por palavras simples, dúvidas e silêncios, provocam acirradas polêmicas intelectuais. Umberto Eco o chamou de "qualunquista", isto é, herdeiro do movimento político supostamente apolítico que deixou como resíduo o fascismo. Às vezes Celentano parece qualunquista, é verdade. Outras, no entanto, parece o contrário. Salvo comunista ou ateu, pode parecer qualquer coisa.

Celentano, que foi eleitor fiel da Democracia Cristã e mantém um catolicismo carente do menor traço heterodoxo, costuma zombar dos políticos e se encarniça especialmente com Berlusconi. Apesar disso, tudo indica que vota na coalizão berlusconiana. E, na terrível polêmica desatada em torno da agonia e morte de Eluana Englaro, Celentano não se esquivou. Publicou uma carta no jornal "Corriere della Sera" apoiando Berlusconi, por mais que os esforços de Il Cavaliere para manter viva a jovem em coma irritassem o eleitorado. "Se estivesse no cargo de Berlusconi, eu faria o mesmo", disse. E depois de expressar sua compreensão pelo drama que afligia os pais de Eluana falou em "homicídio de Estado".

Adriano Celentano, nascido em Milão em 6 de janeiro de 1938, de família proletária e origens meridionais, é fundamentalmente conservador. Nos anos 1970 afirmou que o "beat" (a palavra com que define a música pop anglo-saxã) fomentava o uso de drogas duras e afastava os jovens do catolicismo. Nunca deixou de denunciar o desaparecimento dos valores morais e ao mesmo tempo a destruição da natureza, a especulação imobiliária e financeira e o cinismo da casta dirigente italiana.

Com tudo isso, não conseguimos explicar nada. Exceto, talvez, que a Itália é ainda mais misteriosa do que pensamos. E que Celentano consegue se conectar, pelos motivos que sejam, com esse mistério.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,68
    3,173
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,44
    64.861,92
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host