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18/02/2009

Os amigos de parricida expulso de um concurso de televisão defendem seu retorno

El País
Juan Diego Quesada
Em Madri
Cyril Jaquet sonhava em dar a volta ao mundo. Os que trabalharam com esse auxiliar de voo de 29 anos o retratam como um funcionário atento, pontual e educado. Também um pouco teimoso e de firmes convicções. Uma anedota da época em que trabalhou na Air Madrid, companhia da qual foi retirada a licença de funcionamento, exemplifica bem sua determinação. Com os passageiros já embarcados, Cyril achou que o voo não cumpria as medidas de segurança necessárias e se negou a voar. Pensava que colocaria em risco a vida dos passageiros.

Há uma semana, Cyril estava a um passo de participar com sua namorada, Paola Alberdi, de um concurso na Antena 3, "A Volta ao Mundo ao Vivo", quando se soube que na noite de 1º de agosto de 1994, com 15 anos, ele assassinou a sangue frio seus pais em um chalé nas redondezas de Benijófar, um povoado rural ao sul de Alicante (sul da Espanha). Primeiro disparou contra sua mãe e depois esperou pacientemente quatro horas até que seu pai chegasse, quando lhe descarregou meia dúzia de tiros. O jovem se entregou dez dias depois dos assassinatos, mas uma imagem ficou gravada em todos os que participaram do enterro dos pais: a de Cyril quase sem mostrar sinais de dor, inclusive sorrindo e fazendo brincadeiras com seus colegas de classe. "A atitude do rapaz no banco dos réus foi determinante para se pensar que era o maior suspeito", contam fontes da investigação.

Em Benijófar, aonde seus pais chegaram, vindos da Suíça, em meados dos anos 1980, não esqueceram o ocorrido. Nem o perdoam. Desde que o parricida apareceu no primeiro programa do concurso, rodado em Veneza, os moradores o reconheceram e se mobilizaram para evitar que participasse. "Aqui têm muito ódio dele. Todos ficamos indignados quando soubemos que estava na televisão. Começamos a mandar mensagens de celular para a rede", diz uma moradora. A história de seu passado correu como um estopim e a produtora do programa convidou Cyril, que depois do duplo crime passou três anos detido em um centro para menores em Godella, a deixar o programa.

Em Pueblo Lucero, uma área residencial próxima a Benijófar, Adolfo Merino, tio materno de Cyril, dirige um restaurante junto a um campo de golfe. Nunca mais viu seu sobrinho, nem mesmo no dia em que seria distribuída a herança. Deixou nas mãos de seu advogado. "Eu o queria como um filho. Sempre foi muito inteligente e sabe conquistar as pessoas. Ninguém pode imaginar o que sofri ao saber que era o assassino", diz Merino. E acrescenta que o próprio Cyril ressuscitou a tragédia daquela noite quente de agosto: "Ele foi por seu próprio pé ao programa. Minhas tripas se reviraram quando o vi na televisão. Foi muito duro. Eu não tenho mais nada contra Cyril, que viva sua vida tranquilo. Mas também não se exiba publicamente".

Com apenas 5 anos, Cyril se instalou nesta região da província de Alicante com seus pais, Olivier Jaquet e Isabel Merino, um casal que se conheceu na Suíça (ela é filha de imigrantes de León). A família montou um restaurante, o Las Palmeras, especializado em "fondues", que teve um grande sucesso entre a clientela estrangeira da região. Mas Olivier o vendeu depois de alguns anos. Não gostava de trabalhar em hotelaria e se dedicou a instalar calefações. Enquanto isso, Cyril foi conquistando em Benijófar uma fama de menino rebelde, mau aluno, pouco convencional, com esse ar enigmático que os forasteiros têm nas áreas rurais. Todos lembram dele como um adolescente muito bonito, bem vestido, de moto, que fazia sucesso entre as garotas do povoado. Manuel Espinosa, conhecido como El Ramírez, era um amigo íntimo do casal, com o qual ia dançar música de acordeão. "Eu gostava do menino como de um filho, até que ele fez isso. Eram meus melhores amigos. Nunca conheci pessoas tão educadas, sérias e amigas das pessoas como esse casal", afirma. E nega rotundamente, como se aventou depois do homicídio, que os pais maltratassem o menino. "Talvez o criassem com liberdade demais."

Depois do reformatório, Cyril se empregou em diversos trabalhos, mas finalmente optou por um que lhe oferecia a possibilidade de viajar. Tornou-se auxiliar de voo, no início em Mallorca e depois em Madri. Os relatos das pessoas que trabalharam com ele são excelentes. "Foi dos poucos que se negaram a fazer coisas pouco éticas que algumas companhias exigem", afirma uma chefe de cabine que trabalhou com Cyril, que segundo seu entorno foi para o estrangeiro para evitar a polêmica "Lhe fizeram sobrecarga, e não nomeiam qualquer um para esse posto", afirma Adelaida Mesón. Seus amigos o defendem plenamente. Tysha Odile, uma amiga, proclama que as pessoas "estão destruindo" sua nova vida. "Que sentido tem falar sempre de reinserção, se depois não damos uma segunda oportunidade às pessoas?", pergunta. "Agora eu soube do assassinato e sim, fico muito surpresa. Mas desde o primeiro momento o apoiei. Cyril mudou."

O produtor e apresentador do programa de televisão, Óscar Martínez, afirma que não sabiam nada sobre o passado do rapaz. "É mentira que procuramos morbidez para ganhar audiência. Ele contou que era órfão." Mas, "talvez apareça um domingo no concurso e esclareça o que fez", sugere. O espetáculo tem de continuar.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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