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24/02/2009

Deserções no peronismo enfraquecem governo dos Kirchner na Argentina

El País
Soledad Gallego-Díaz
Em Buenos Aires
Ganhar as eleições na Argentina sem contar com o aparato peronista (justicialista) é tarefa difícil, mas essa poderosa estrutura não é um bloco único e sem fissuras, e sim uma reunião de interesses diversos que às vezes oscila e se rompe em várias frentes. Foi o que aconteceu nos últimos dias, quando setores peronistas "rebeldes" anunciaram uma aliança para combater os Kirchner e os "governistas" e participar unidos das eleições legislativas de outubro, nas quais serão renovados a metade do Congresso de Deputados e um terço do Senado.

A presidente da República, Cristina Fernández Kirchner, e seu marido, Néstor Kirchner, presidente do Partido Justicialista, devem agora enfrentar não só a oposição tradicional (radicais e socialistas, que mantêm um acordo próprio), como também uma guerra dentro do peronismo. Se não conseguirem manter a maioria parlamentar em outubro, começariam meses infernais para o "casal presidencial", como são chamados na Argentina. E nesse caso ninguém aposta no cumprimento íntegro dos dois anos e meio de mandato que restam a Cristina Fernández.

A aliança que preocupa os Kirchner é a de dois políticos peronistas, Felipe Solá (ex-governador da província de Buenos Aires de 2002 a 2007) e Francisco de Narváez (um conhecido milionário de origem colombiana, deputado justicialista pela mesma província), unidos nesta ocasião com o popular chefe de governo da cidade de Buenos Aires, Mauricio Macri, que conta com seu próprio partido. Os três compareceram em fevereiro diante da imprensa para anunciar que apresentarão uma chapa comum para a província de Buenos Aires, decisiva nas eleições de outubro. Ainda não se sabe quem encabeçará a candidatura, mas o compromisso de unir-se eleitoralmente representa uma aposta forte e um pólo de atração para outras deserções. "Não se trata de decidir qual dos três será o candidato presidencial em 2011, mas de tirar a maioria de Kirchner no Congresso. Sobre isso se chegará a um pacto, sem dúvida", afirmou um porta-voz dos aliados.

Além disso, a aliança conta com a possibilidade de acordos pós-eleitorais com os dois grupos que formam hoje o radicalismo, a União Cívica Radical (UCR), dirigida por Gerardo Morales, e a Coalizão Cívica (CC) de Elisa Carrió, unidos por sua vez com os socialistas e com seu principal dirigente, o governador de Santa Fe, Hermes Binner.

Todos os analistas argentinos concordam que a batalha principal em outubro se dará na província de Buenos Aires e que ainda não está ganha. A província de Buenos Aires concentra 40% dos votos efetivos de todo o país. Ao contrário da capital, onde predomina o voto conservador, o empobrecido segundo cinturão formado por 13 cidades que cercam a capital e que concentram 10 milhões de habitantes costuma votar no que considera peronismo de esquerda, representado até agora em boa parte pelos Kirchner.

Enquanto a presidente percorre o país tentando garantir apoio em outras províncias, seu marido, instalado na residência oficial de Olivos, manipula os cordões, o governo, as subvenções e as tramas para garantir a fidelidade dos prefeitos desses 13 municípios do "conurbano", assim como o apoio dos "gordos", os principais dirigentes da central sindical peronista CGT.

Néstor Kirchner tentará revalidar também o apoio dos pequenos grupos de esquerda e de intelectuais progressistas como o Carta Abierta, que os defenderam até agora, embora quase exclusivamente pela força que deram à reabertura dos julgamentos contra militares da ditadura.

Por enquanto os Kirchner estão recebendo más notícias, porque alguns deputados e senadores que integravam a Frente para a Vitória, que os levou à presidência, anunciaram que abandonam a bancada governista. O mais famoso foi o senador Carlos Reutermann, ex-piloto de Fórmula 1. Mas a presidente ainda tem uma precária maioria no Congresso de Deputados e no Senado.

Pior que esses abandonos seria a reabertura do chamado "conflito do campo", que quase provocou a renúncia da presidente em julho de 2008 e que deu origem à sua queda em popularidade. O confronto com o campo não é hoje tão intenso como na época, quando o governo pretendeu aumentar os impostos sobre a exportação, mas poderá piorar se fracassarem as conversações que começam nesta terça-feira. Por enquanto, os produtores de cereais já realizaram uma greve de três dias.

O peronismo, segundo seus críticos, é como uma piscina cheia de piranhas. Pode-se nadar tranquilamente em suas águas, desde que não se tenha uma ferida. Neste momento, todas irão atrás do banhista. A ferida dos Kirchner se chama "conflito com o campo", porque foi uma batalha que começaram e que perderam, e deixou em evidência as maneiras autoritárias de Néstor Kirchner. Sua incapacidade para compreender o alcance do conflito e seu violento confronto com os deputados peronistas que quiseram fazê-lo ver a razão e que, em última instância, votaram contra sua lei, poderão agora passar a fatura.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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