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24/02/2009

Lei do narcotráfico rege cidade mexicana na fronteira com os EUA

El País
Pablo Ordaz Na Cidade do México
O que diziam os cartazes era muito claro: "Se o chefe de polícia de Ciudad Juárez não renunciar a seu cargo, mataremos um agente a cada 48 horas". Isso foi na quarta-feira. Na sexta apareceram os dois primeiros mortos, um guarda municipal de 25 anos - atingido por armas de grosso calibre na porta de sua casa - e um guarda penitenciário. Junto deles, vários cartazes que não deixavam margem para dúvidas. Eram os primeiros. Haveria mais.

Não foi preciso. Algumas horas depois, o responsável municipal pela segurança pública, um major aposentado chamado Roberto Orduña Cruz, se dobrou às ameaças do narcotráfico e se demitiu. Segundo afirmou em uma carta dirigida ao prefeito, fez isso para salvar a vida de seus agentes. O prefeito se apressou a nomear um substituto e a declarar solenemente: "O crime organizado pretende controlar a polícia, mas não vamos permitir isso". Talvez não tenha se lembrado nesse momento de que Orduña é o segundo chefe de polícia de Ciudad Juárez que deixa o cargo em menos de um ano por motivo idêntico: não ser do gosto dos bandidos.

Não é fácil ser policial no México, e muito menos em Ciudad Juárez. Os policiais honestos são mortos. Os corruptos também. Só este ano 19 agentes foram assassinados pelo narcotráfico na cidade de fronteira com os EUA, e nem mesmo depois do enterro se sabe se foram executados por ser escravos da lei ou de um bando rival. Quase todos levam para o túmulo a mesma suspeita que os acompanhou em vida. Na quarta-feira, enquanto apareciam as mensagens pedindo a demissão e tachando de corrupto o major Orduña, outro chefe policial da cidade foi assassinado, junto com seus dois guarda-costas, em uma avenida movimentada em plena luz do dia, da maneira tradicional. Um grupo de bandidos descarregou sobre eles mais de cem tiros que atravessaram os vidros e a carroceria do veículo oficial. Depois foram embora. Nem o exército nem a polícia federal - que patrulha a cidade dia e noite - sabem quem foram nem por que fizeram isso. Por ser honestos? Ou corruptos?

Até pouco mais de um ano atrás, o cargo de policial no México tinha suas vantagens. Ganhava-se muito pouco - em média 6 mil pesos por mês (cerca de € 300), a metade do necessário para viver modestamente neste país -, mas ninguém se queixava. "Não é preciso dizer de onde saía a diferença", sorria nesta sexta-feira um especialista em segurança.

Os chefes do narcotráfico tinham em sua folha de pagamento seções inteiras da polícia local, e onde a longa mão do crime organizado não alcançava lá estavam - e continuam estando - os cidadãos, acostumados há décadas a pagar a mordida correspondente para que o guincho não leve o carro.

A própria peculiaridade do sistema nacional de segurança - no México há mais de 1.600 corpos de polícia diferentes, descoordenados, sujeitos ao capricho político ou pessoal da autoridade que os comanda - torna seu controle quase impossível. Não são raros os casos em que efetivos do exército ou da polícia federal tiveram de enfrentar a tiros patrulhas da polícia local que tentavam evitar a detenção de um chefe da droga.

O governo de Felipe Calderón - que empreendeu a guerra ao narcotráfico quase sem ter policiais formados ou confiáveis - está tentando corrigir essa situação. O trabalho é árduo. Estão submetendo os policiais, tanto veteranos enquanto os novatos, a exames de confiança - incluindo o detector de mentiras -, e os resultados não podem ser mais desanimadores. Quem não consome drogas admite que alguma vez recebeu do narcotráfico ou é um contumaz arrecadador de propinas. Os policiais mexicanos enfrentam pela primeira vez um dilema até agora inexistente: escolher entre a lei e o crime, abandonar o multiemprego.

E, como música de fundo, a guerra que não para. Segundo contagens jornalísticas, no sábado foi superada a barreira das mil execuções. Mil mortos em apenas 51 dias. A média é espantosa: 19 homicídios diários. O governo tenta vender seus êxitos. No próprio sábado foi detido um chefe do cartel dos Beltrán Leyva, um indivíduo do qual se desconhece o nome verdadeiro, mas que responde pelo luminoso apelido de Tony la Mentira, parente direto de outro chefe de bandidos conhecido por La Barbie. A atualidade no México continua parecendo muito um filme. De terror.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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