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25/02/2009

Perversões de espião dos EUA na Argélia prejudicam a imagem do país no mundo árabe

El País
Ignacio Cembrero
Quando ela estava sentada no sofá de sua sala, Andrew Warren, 42 anos, diretor do escritório da CIA em Argel, perguntou a V2 se permitia que tirasse uma foto dela com seu celular. Depois lhe serviu um vermute com sabor de maçã e pouco depois foi preparar outro na cozinha, mas desta vez ela o seguiu. Warren pôs em suas mãos uma bandeja de biscoitos salgados e pediu que a levasse para a sala enquanto ele acabava de preparar sua bebida.

V2, o nome que os investigadores dão à vítima, tinha feito amizade com Warren meses antes no Cairo, cidade onde reside com seu marido, um espanhol. Por isso possui nacionalidade espanhola, além da argelina. O americano foi o chefe da CIA no Egito até setembro de 2007, quando foi transferido para Argel. Antes havia trabalhado no Kuwait e em Washington, onde esteve no serviço de escuta da Agência Nacional de Segurança.

Formou-se nas Universidades de Indiana e de Norfolk, estudando história do Oriente Médio e a língua árabe. É afro-americano e afirmava ter-se convertido ao islamismo. Às sextas-feiras ia às mesquitas mais radicais e sondava o ambiente, discutindo com os fiéis, segundo a imprensa argelina. Quando lhe perguntavam de onde era, dava o nome de algum país subsaariano. É "uma pessoa incrível", declarou William Alexander, um ex-professor, ao semanário "Newsweek".

Depois de beber o segundo martíni, V2 se sentiu enjoada e precisou vomitar. Depois, lembra-se de que estava caída no chão do banheiro e a seu lado estava seu anfitrião, tentando tirar suas calças. Não podia resistir fisicamente às tentativas de Warren, mas era capaz de falar e lhe pediu que saísse dali. Ele continuou a despi-la, enquanto afirmava que ela se sentiria melhor depois de tomar um banho.

A mulher lembra que mais tarde estava na cama de Warren e que ele acabou de despi-la. "Ninguém pode ficar com roupa entre lençóis tão caros", alegou o agente. V2 estava às vezes consciente e paralisada dos músculos e outras, inconsciente. Guarda imagens do homem nu, de joelhos e excitado, e outras de quando ele a penetrou.

V2 não lembra como saiu naquele 17 de fevereiro de 2008 da residência do espião, no bairro central de Chemin d'Hydra, mas dois dias depois lhe enviou um e-mail acusando-o de ter abusado dela. "Sinto muito", ele respondeu laconicamente. A mulher contou o que aconteceu a seu marido e consultou um psicólogo, mas não se decidiu a denunciá-lo até sete meses depois, em sua viagem seguinte a Argel.

Thomas Daughton, o número 2 da embaixada dos EUA em Argel, recebeu o testemunho de V2. Não deve tê-lo surpreendido muito. Três meses antes, outra mulher, desta vez uma germano-argelina, se apresentara na embaixada para denunciar Warren. Daughton transmitiu o relato de V2 ao responsável pelo Serviço de Segurança Diplomática (DSS na sigla em inglês), que abriu uma investigação.

Scott Banker coordenou as pesquisas do DSS, que envolveram viagens de seus agentes à Alemanha e ao Egito para entrevistar em profundidade as vítimas, interrogatórios de Warren em Washington - ele foi afastado do posto e repatriado para Langley em outubro passado -, a revista de sua residência em Argel e a apreensão de seu celular, seu computador pessoal e dos discos rígidos em seu poder. Tudo foi feito com mandado judicial.

Os depoimentos de V2 aos pesquisadores do DSS incluídos nesta reportagem foram extraídos de um texto que Scott Banker enviou no final de 2008 ao tribunal do distrito de Colúmbia. Nele, inclui as provas que apontam que o chefe da CIA em Argel cometeu "graves abusos sexuais" em território sob jurisdição dos EUA - a residência goza de imunidade diplomática -, mas o agente alega que as relações que manteve foram consentidas. Um promotor federal coordena a investigação e ainda não apresentou denúncias.

Entre o material apreendido encontram-se diversas fotos das duas denunciantes, assim como de outras mulheres, uma verdadeira farmacopéia e um livro sobre agressões sexuais. Scott oferece de passagem, no documento enviado ao juiz, uma aula magistral sobre a utilização de drogas para acalmar mulheres que resistem a manter relações e sobre a permanência no computador de arquivos que teoricamente foram apagados, mas podem ser recuperados.

Warren já registrou sua admiração pelas mulheres argelinas em um romance de espionagem, "The People of the Veil" [As pessoas de véus], que publicou em 2002, quando ainda não tinha se instalado em Argel. Nele, um diplomata dos EUA, com o qual o autor deveria se identificar, e Mariam, sua noiva argelina, lutam para salvar os residentes americanos durante uma revolução islâmica -- a guerra civil que a Argélia viveu nos anos 1990 e que deixou quase 200 mil mortos.

Toda a investigação do Departamento de Estado teria permanecido em segredo se não fosse porque a rede de televisão ABC a revelou em 29 de janeiro. Sua divulgação teve efeitos devastadores para a reputação dos EUA no mundo árabe, quando parecia que o novo presidente, Barack Obama, poderia endireitá-la. "Essa conduta sexual inadequada terá um impacto desastroso para a imagem da América", prevê o jornal argelino "El Watan".

O fluxo de comentários nos fóruns da Internet e nos títulos de alguns jornais dão razão a essa previsão. "Diplomacia do seqüestro, das violações, do terror e da espionagem", intitulou o diário "Echourouk", o de maior circulação. "A violação de mulheres honradas não difere em nada da violação de um país", acrescentava, resumindo um sentimento disseminado entre os argelinos.

A revelação da ABC também colocou em apuros o governo argelino. Por trás de uma retórica impregnada de nacionalismo e de defesa do Terceiro Mundo, ele desenvolve uma estreita cooperação com Washington para lutar, entre outras coisas, contra o terrorismo islâmico. O jornalista Robert Kaplan contou em 2007 em seu livro "Hog Pilots, Blue Waters Grunts" [Porco pilota, Águas Azuis grunhe] como as forças especiais americanas treinavam as argelinas perto de Tamanrraset, no deserto. Desde então surgiram outros depoimentos.

Na coalizão de partidos que apóia a reeleição do presidente Abdelaziz Bouteflika, que em 9 de abril conseguirá seu terceiro mandato, não houve vozes críticas, mas os islâmicos moderados do Ennahda se apressaram a exigir o fechamento do escritório da CIA porque "põe em grande perigo os interesses supremos da Argélia".

O maior ataque contra Bouteflika partiu do ramo local da Al Qaeda, cujo líder, Abdelmalek Droukdel, se explicou com um comunicado publicado em sites radicais. "Este escândalo não demonstra que Bouteflika é como Hamid Karzai no Afeganistão e Nouri al Maliki no Iraque?", perguntou. "Querida nação: o que mais devem fazer esses dirigentes para que vocês falem com uma só voz e digam: 'Basta!'?" Os "crimes" de Warren e o "silêncio" oficial argelino legitimam, segundo ele, a violência "contra os apóstatas".

As autoridades argelinas não disseram basta, mas insistiram que é "um caso muito grave que não pode ser ignorado", segundo repetiu na quarta-feira Abdallah Baali, o embaixador da Argélia nos EUA. Este não rompeu relações com a embaixada americana, mas, desde que o escândalo veio à público, reduziu seus contatos com os diplomatas americanos até que "passe a tormenta", previu um deles. O esfriamento não irá muito longe. Os EUA são o maior comprador dos hidrocarbonetos argelinos.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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