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02/03/2009

Deus mora no cérebro

El País
Javier Sampedro
O Deus de Abraão era justo, absoluto, incorruptível, transcendente, onisciente, onipotente, onipresente e benevolente. O cristianismo antigo se centrou na fusão de três pessoas numa só entidade divina.
Segundo o sistema de negação de Maimônides, só podemos discutir o que Deus não é. O Todo dos herméticos é mais complicado que a soma de tudo o que existe, e o Buda colocou ênfase na liberação do sofrimento na terra. Vista assim, a religião têm pouco de universal.

Mas as experiências têm trazido à tona um pano de fundo mais simples.
Por exemplo, os psicólogos contam a grupos de voluntários uma história em que Deus atende a cinco problemas de uma só vez. Os que acreditam em qualquer religião monoteísta aceitam a narração com naturalidade, já que Deus tem poderes cognitivos de sobra para isso. Mas se pedem para eles lembrarem a história pouco tempo depois, quase todos contam que Deus atendeu os cinco problemas um por um: seu subconsciente humanizou o Deus onipotente da doutrina.

A pesquisa recente em psicologia cognitiva, neurobiologia e antropologia cultural revela que a maioria dos fiéis, seja qual for o culto, têm interiorizado um modelo extremamente antropocêntrico de Deus. Não só possui uma figura humana, mas também utiliza os mesmos processos de percepção, raciocínio e motivação que as pessoas. As crenças explícitas sobre a divindade são muito distintas entre religiões, mas os pressupostos implícitos são quase idênticos na maioria das pessoas.

A característica central de qualquer religião é um núcleo de crenças sobre agentes não físicos. Este tipo de "conceitos sobrenaturais" - que também aparecem na fantasia, nos sonhos e superstições - está muito condicionado por nosso conhecimento do mundo real. Um espírito é um tipo de pessoa, mas que atravessa paredes. Deus compartilha essas limitações dentro da cabeça dos crédulos.

Mas em geral, as crenças subconscientes dos religiosos de qualquer credo são extraordinariamente parecidas: os agentes sobrenaturais exercem uma vigilância permanente do comportamento moral das pessoas, com acesso instantâneo a seus pensamentos e desejos mais íntimos. Os crédulos de qualquer culto também abrigam crenças sobre a existência e as propriedades desses agentes sobrenaturais, e costumam guardar símbolos ou amuletos que os representam, e celebrar rituais em seu nome. Cada grupo social costuma atribuir a esses agentes seu sistema moral, e sua própria coesão social.

Os cientistas cognitivos reuniram muitas evidências de que esse tipo de religião natural está enraizada em qualidades humanas universais - como a capacidade para simular relações com personagens fictícios - que não são específicas da experiência religiosa, mas sim uma conseqüência de ter o cérebro mais desenvolvido, e as estruturas sociais mais complexas e estáveis, que não evoluíram em nenhuma outra espécie animal do planeta.

"O pensamento e o comportamento religioso podem ser considerados parte das capacidades humanas naturais, como a música, os sistemas políticos, as relações familiares ou as alianças étnicas", diz Pascal Boyer, da Universidade de Washington em Saint Louis. Boyer publicou no ano passado dois trabalhos de referência sobre a evolução cognitiva da religião (Nature 455:1038; Annual Review of Anthropology 37:111 ).

O filósofo Daniel Dennett sustenta que os cérebros animais evoluíram em três etapas. O comportamento das "criaturas darwinianas" é determinado geneticamente. As "criaturas skinnerianas" (definidas pelo psicólogo behaviorista B. F. Skinner) dispõem de uma variedade de comportamentos, mas os demonstram aleatoriamente. Os humanos são "criaturas popperianas" (a partir do filósofo da ciência Karl Popper).
Uma criatura popperiana faz o mesmo que uma criatura skinneriana, mas só dentro de sua própria cabeça, como uma série de simulações mentais.

O engenheiro da Universidade de Michigan John Holland, pai dos algoritmos genéticos, assegura que "a verdadeira essência de uma vantagem competitiva, seja no xadrez ou na atividade econômica, é a descoberta e a execução de jogadas em um cenário fictício". E entre as principais jogadas que temos que simular, desde a mais tenra idade, estão as situações sociais fictícias.

"Todas as crianças estabelecem relações sociais importantes e duradouras com personagens de ficção, amigos imaginários, familiares desaparecidos, heróis invisíveis, namorados imaginados...", diz Boyer.
A prática constante com esse tipo de "agentes não físicos", de fato, pode explicar parte da extraordinária destreza social de nossa espécie, muito superior à dos demais primatas. E a partir daí, o cientista de Washington só vê um pequeno passo até outros "agentes não físicos" como espíritos, deuses e demônios, "intangíveis, mas envolvidos socialmente".

Os agentes sobrenaturais são com frequência a fonte da moral das pessoas religiosas, e também seus vigilantes oniscientes, ou seja, basta pensar em algo pecaminoso para que eles saibam. Esta é outra das crenças mais comuns entre os fiéis de qualquer religião.

A psicologia experimental indica, entretanto, que as crianças compreendem os imperativos morais básicos, como os relacionados ao comportamento justo e ao dano aos seus semelhantes, desde a idade pré-escolar. Isso acontece antes que possam compreender esses conceitos abstratos e com independência do entorno religioso em que os dados são obtidos. A neurobiologia, por outro lado, revelou ligações muito relevantes entre os juízos morais e algumas das emoções humanas mais básicas e universais.

Um dos nós centrais da rede emocional do cérebro é o córtex pré-frontal ventromedial (VMPC). Os pacientes que têm essa área do córtex destruída mostram uma diminuição geral em sua capacidade de resposta emocional e uma significativa redução das emoções sociais - como a compaixão, a vergonha e a culpa que estão estreitamente relacionadas com os valores morais.

O VMPC é muito conhecido pelos neurologistas desde 13 de setembro de 1848, quando uma explosão acidental lançou uma barra de ferro de um metro de comprimento e seis quilos de peso exatamente contra essa região do cérebro de Phineas Gage, o supervisor de um grupo de trabalhadores ferroviários. Sobreviveu, sem danos na capacidade da linguagem e outras funções intelectuais. Mas como um amigo disse pouco tempo depois: "este homem não é mais Phineas Gage".

Todos os graves defeitos que esses pacientes mostram se referem à resposta aos estímulos emocionais ou à regulação dos próprios sentimentos. Suas capacidades de inteligência geral, de raciocínio lógico e de conhecimento das normas sociais e morais permanecem intactas.

Segundo o neurologista Antonio Damasio, vencedor do prêmio Príncipe de Asturias, muitas reações morais de aversão são uma combinação da rejeição visceral a certos atos (matar alguém, por exemplo) e da compaixão instintiva por outro ser humano. Damasio acredita que as emoções não só se associam aos juízos morais, mas que são cruciais para elaborá-los.

"Ainda que os crédulos costumem atribuir sua moralidade a um agente sobrenatural", diz Boyer, "os modelos cognitivos indicam totalmente o
contrário: que nossos sentimentos morais são recrutados para dar verossimilhança às noções morais da religião".

Os ritos religiosos também parecem muito diferentes entre as culturas, mas todos pertencem a uma classe de "comportamentos rituais"
constantes na espécie humana. Os ritos se baseiam sempre em alguma sequência de atos arbitrária, obrigatória, executada numa ordem rígida, desligada de um objetivo prático óbvio e repetida muitas vezes. Também implicam com frequência o uso de números, cores chamativas e símbolos de pureza, ordem ou simetria.

Novamente, esses comportamentos rituais são um tema comum no desenvolvimento infantil: por exemplo, quando uma criança só pode andar pela calçada pisando nas lajotas vermelhas, ou tem que subir o primeiro degrau da entrada antes que a porta da rua se feche. As crianças costumam associar esses rituais a algumas vagas noções de purificação e proteção do perigo. Quando esses sistemas são exagerados, ocorre o transtorno obsessivo-compulsivo.

"Sabemos que o cérebro humano tem redes de segurança e precaução dedicadas a prevenir perigos como a predação", disse Boyer. "As crenças religiosas sobre a pureza, sujeira e o perigo oculto dos demônios à espreita estimulam os mesmos sistemas, e fazem com que as precauções rituais se tornem intuitivamente atrativas".

A crítica científica da religião tem se centrado até agora em argumentos racionais.

O astrofísico Carl Sagan, por exemplo, escreveu: "Como é que nenhuma religião olhou para a ciência e concluiu: 'Isso é melhor do que o que temos! O universo é muito maior, mais sutil e elegante do que disseram nossos profetas'?"

"Há quem tenha um conceito tão amplo de Deus que não há como evitar que o acabe encontrando em qualquer parte", afirma Steven Weinberg, físico teórico e prêmio Nobel. "Se quiser acreditar que Deus é energia, poderá encontrá-lo num monte de carbono".

Tradução: Eloise De Vylder Descobertas da neurociência explicam porque o homem se refugia nas religiões

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