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03/03/2009

Peru confia nas mulheres contra a corrupção no trânsito

El País
Jaime Cordero Em Lima
No caótico mundo do tráfego em Lima, frases como "Vamos acertar isso de outro jeito" e "Podemos facilitar a coisa" não estão em nenhum regulamento mas são mais conhecidas pelos motoristas que a maior parte das regras de circulação. Fazem parte da linguagem da "coima" (caixinha), o suborno miúdo que permite evitar as multas de trânsito. Inclusive infrações muito graves, como dirigir embriagado ou sem carteira de motorista, costumam ser negociáveis por alguns sóis. E se o infrator não propõe o suborno o próprio agente costuma fazê-lo, em uma exposição prévia do alto custo da multa em dinheiro e do tempo perdido.

Para combater esse problema, o alto comando policial decidiu que a partir de agora a gestão do tráfego na cidade de Lima ficará a cargo de agentes mulheres. Elas são consideradas incorruptíveis. "Acho muito bom, na rua há muitos policiais corruptos", comenta o motorista de um dos mais de 120 mil táxis - muitos deles informais - que congestionam a cidade. "Que as mulheres cuidem do trânsito e os homens saiam para patrulhar, que há muita criminalidade."

O general Arturo Dávila, chefe da direção territorial de Lima, confirmou a medida, que na prática implica que 500 policiais homens serão transferidos para outros serviços nas delegacias e substituídos por senhoras, que em muitos casos já têm experiência em tráfego e foram destacadas para outras áreas como parte de um plano de "distritalização" imposto pelo comando anterior. A polícia de tráfego será formada por 2.074 agentes, na imensa maioria mulheres. Sua tarefa, titânica sem dúvida, será dirigir a circulação em uma metrópole de cerca de 8 milhões de habitantes com um tráfego endemoniado, uma descomunal frota de táxis e um serviço de transporte público baseado em veículos pequenos, deficiente, desordenada e com motoristas pouco educados, que desconhecem e violam as regras de trânsito mais elementares de maneira sistemática.

Os homens só apoiarão as mulheres nos setores considerados críticos ou de alta periculosidade. "Esta é uma política ditada pelo comando institucional e o Ministério do Interior", afirma o general Dávila. Desde que assumiu o cargo, há menos de duas semanas, a nova ministra, Mercedes Cabanillas, anunciou que o combate à corrupção na polícia será uma de suas prioridades. E a caixinha é a principal responsável pela imagem negativa que a polícia tem diante dos cidadãos.

Uma pesquisa recente da firma Ipsos Apoyo, publicada pelo jornal "El Comercio", revela que 31% dos peruanos consideram a corrupção policial o principal problema que o Ministério do Interior precisa combater, acima do crime comum e dos bandos. Mas por algum motivo a mancha corrupta faz discriminações de gênero. Diante de uma mulher policial, os infratores não encontram forma de propor o suborno. E elas, diferentemente de seus colegas homens, jamais o propõem. "As agentes femininas impõem muito mais respeito aos motoristas, têm mais personalidade e são mais rígidas no cumprimento do regulamento de trânsito", reconhece José Luis Díaz León, presidente da Associação de Empresas de Transporte Urbano do Peru, que também aplaude a decisão, mas salienta que "é uma medida isolada que por si só não bastará para controlar o tráfego".

Em todo caso, não é a primeira vez que se tenta algo parecido. As mulheres têm anos de experiência dirigindo o trânsito e em 1999 já se tentou encarregá-las da tarefa de maneira quase exclusiva. A percepção geral na época foi uma redução das propinas, mas também aumentaram significativamente as agressões dos motoristas, que em alguns casos chegam a atropelá-las com seus veículos. "As agressões, sobretudo por parte dos motoristas do serviço público, são um risco, e também é verdade que estamos mandando as mulheres policiais a alguns lugares onde há altos níveis de poluição", admite León. Alguns agentes homens continuarão nas ruas, mas só para evitar as agressões e como apoio às agentes femininas. Agora são as mulheres que mandam.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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