UOL Notícias Internacional
 

03/03/2009

Presidente da Argentina afia suas armas no conflito com o campo

El País
Soledad Gallego-Díaz Em Buenos Aires
O complexo conflito com o campo e as críticas à oposição, mais que medidas concretas, marcaram no domingo o tradicional discurso da presidente argentina, Cristina Fernández de Kirchner, na abertura das sessões do Congresso depois das férias. Ao contrário do esperado, a presidente não se referiu à criação de uma empresa oficial para regulamentar a comercialização de cereais (especialmente soja), ideia que tinha levantado a imediata oposição das poderosas associações rurais, mas deixou essa possibilidade no ar: o governo enviará ao Parlamento "todos os instrumentos que considere necessários para preservar a atividade econômica e o trabalho", disse.

APERTO DE MÃOS

Um aperto de mãos forçado e silencioso. Esse foi o momento mais esperado do domingo no ato de abertura das sessões do Congresso. O protocolo exigia que o vice-presidente do governo e presidente do Senado, Julio Cobos, recebesse à porta do palácio legislativo a presidente da República, Cristina Fernández de Kirchner, e eles se deram as mãos. Os dois cumpriram estritamente sua obrigação, mas sem tentar sequer ocultar com um sorriso ou um gesto mínimo a tensão do momento.

Cristina e o vice-presidente do país não se falam há quase sete meses, em uma das crises institucionais mais inéditas e espantosas da história argentina. Em 17 de julho de 2008, Cobos fez a presidente perder uma das votações mais importantes da legislatura, a que deu a vitória às associações agrícolas contrárias aos Kirchner. Seu famoso e hesitante "não posso votar a favor", pronunciado a altas horas da madrugada em um Congresso febril, com dezenas de milhares de argentinos colados aos televisores, o tornou muito popular.



O comparecimento de Cristina Kirchner no Congresso havia despertado uma grande expectativa, não só porque representava seu primeiro encontro obrigatório com o vice-presidente Julio Cobos, com quem não ela fala há sete meses, mas porque o encontro ocorria no meio de um novo conflito com o campo e se esperava que a presidente fizesse algum anúncio importante que indicasse suas cartas: negociação ou nova "guerra".

Além disso, esperava-se conhecer a reação presidencial ao abandono de alguns deputados e senadores de sua bancada, que reduziu sua maioria a níveis muito mais precários que alguns meses atrás. Como é habitual na Argentina, algumas centenas de piqueteiros e sindicalistas próximos do governo se reuniram horas antes diante do Congresso com bandeiras e cartazes para animar a chegada da presidente.

O discurso de Cristina Kirchner foi caracterizado pelo contrário do esperado: praticamente não houve propostas concretas, em qualquer sentido. A presidente falou durante uma hora e 15 minutos sem ler e quase sem utilizar anotações, demonstrando mais uma vez suas qualidades de concentração e memória, mas não apresentou um programa legislativo para os próximos meses, além das polêmicas medidas já conhecidas. Exceto o anúncio de uma nova lei de radiodifusão, não houve qualquer nova iniciativa e os deputados saíram do Congresso sem ter a menor ideia de quais serão os próximos movimentos da Casa Rosada.

O tom do discurso foi pausado, mas não ocultou a profunda irritação que continua sentindo a presidente (e, sem dúvida, seu marido e antecessor, Néstor Kirchner) por sua derrota parlamentar de julho passado nas mãos da oposição e do agrupamento agrícola. Cristina se esforçou para fazer chegar à opinião pública o que considera a irracionalidade das associações rurais: "Se a lei que recusaram em julho estivesse em vigor hoje, as retenções [os impostos que pagam] seriam menores". A presidente se empenhou para denunciar a falta de solidariedade dos grandes produtores agrícolas, que acusou indiretamente de especular com cereais: "Quem pode hoje não comercializar sua produção e subsistir? Se vê que para alguns está tudo bem", salientou.

Segundo o governo, os produtores guardam milhares de toneladas de soja nos chamados silos-bolsas à espera de que baixem as retenções, enquanto as entidades agrárias garantem que as exportações caíram por culpa da seca e da insegurança sobre a política do governo, e que não existem esses estoques tão elevados. A oposição em seu conjunto apóia os agricultores.

As críticas presidenciais também foram, quase por igual, aos meios de comunicação, que acusou de manipular a informação, e à oposição, a qual censurou por não reconhecer os avanços do país. "A participação dos trabalhadores no PIB passou de 34% em 2003 para 43,6% em 2008", "o desemprego caiu de 25% em 2003 para 7,4% em 2008". "Temos seis anos de crescimento econômico, o ciclo mais importante de nossos 200 anos como nação", destacou Cristina, mas reconheceu que se aproximam tempos difíceis para a Argentina.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    15h59

    -0,59
    3,138
    Outras moedas
  • Bovespa

    16h05

    0,16
    65.379,80
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host