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04/03/2009

Medvedev tenta enfrentar a crise enquanto estende a mão aos EUA no conflito afegão

El País
Pilar Bonet e Luis Prados Em Moscou
Dmitri Medvedev, o chefe do Kremlin desde maio passado, é um simpático advogado de 44 anos que responde às perguntas sem se alterar, quase imperturbável comparado com seus antecessores, o suscetível Vladimir Putin e, antes dele, o desmesurado Boris Ieltsin.

Sua presidência, herdada de Putin, seu protetor, não foi a passagem do inverno para a primavera. Sobre ela se fecha a tormenta financeira global, já transformada em crise econômica. O rublo desvalorizou 35% e a produção industrial caiu 16%. E em questão de meses poderá ser conturbada pela crise social que se gesta nas fábricas paralisadas e no aumento do desemprego.

Medvedev está em uma encruzilhada. A queda dos preços do gás e do petróleo ameaça o contrato social dos anos Putin, essa fórmula de sucesso que consiste em um Estado autoritário que, em troca de restaurar o orgulho nacional e aumentar o nível de vida dos cidadãos, restringia o exercício de seus direitos e liberdades.

O presidente russo se distancia do passado, de Gorbachev, mas sobretudo da desordem da era Ieltsin, e aposta em uma solução global para uma crise global. A obsessão pela segurança, o temor do isolamento e o papel central do Estado são tradições gravadas no DNA dos dirigentes russos, mas apesar disso Medvedev reconhece a fragilidade das instituições e parece sincero quando insiste na necessidade de cooperar com o resto do mundo diante de ameaças comuns. A visita à Espanha que ele realizou na segunda e terça-feiras, alentada por sua amizade com o rei Juan Carlos, faz parte desse esforço.

A entrevista a El País ocorre em Gorki 9, a casa de campo do presidente, a oeste de Moscou, construída na década de 1940 para os dirigentes comunistas e posteriormente ocupada por Ieltsin. A esta região de belos bosques nevados se chega depois de muitos engarrafamentos e de cruzar os bairros mais luxuosos das redondezas da capital. O ambiente é descontraído, tanto que Medvedev aceita comentar a metáfora que o apresenta como um jovem guerreiro que ainda precisa "matar um leão" para se transformar no grande chefe. Ele ri. "Não vou matar um leão porque lhe tenho o devido respeito, mas se falamos sobre as tarefas que temos de cumprir e você equipara essas grandes tarefas a matar um leão, então sim, trabalharei para conseguir o objetivo: matar o leão."

El País - O senhor acredita que a crise econômica global pode acabar desestabilizando a Rússia?
Dmitri Medvedev -
A crise sempre cria problemas para o homem comum e gera tensão na sociedade, mas não se pode dizer que vá mudar de forma radical a situação do país. Em primeiro lugar, a Rússia de hoje, seu sistema econômico e social, são muito diferentes da de 15 anos atrás. Então a Rússia era frágil e tinha perdido grande parte de seu potencial econômico. Nos últimos anos conseguiu mudar essa situação, e por isso a crise atual, na minha opinião, não desestabilizará substancialmente a sociedade. Mas precisamos vigiar a qualidade de vida do cidadão, não podemos permitir que o nível de vida no país baixe ao que havia nos anos 1990. Essa é a prioridade do Estado e do governo.

EP - Mas o senhor vai resolver a crise com mais democratização ou com menos? Apertará as porcas ou o contrário?
Medvedev -
Não tenho certeza de que a superação da crise esteja relacionada ao desenvolvimento da democracia. O problema está em outra parte, na falta de mecanismos econômicos normais que permitam superar a crise sem perdas. É claro que é melhor que o Estado tenha as instituições democráticas que lhe permitam tomar as decisões corretas. Lembremos o que aconteceu nos anos 30 nos EUA e em outros países, não creio que foram os melhores exemplos de democracia. Ao contrário, em vários casos os Estados foram obrigados a apertar as porcas para superar a crise. Não digo isso porque vamos fazer o mesmo na Rússia, mas porque me parece que a superação da crise e o desenvolvimento das instituições democráticas são coisas separadas.

EP - Há alguns que, amparando-se nas medidas anticrise, procuram ganhar dinheiro.
Medvedev -
Já falei sobre esse problema em três reuniões com a direção dos órgãos da ordem pública: os serviços de segurança, o Ministério do Interior e a promotoria, e lhes disse que os que tentam tirar partido da crise cometem um delito socialmente perigoso.

EP - Na comunidade internacional existe preocupação com a situação dos direitos humanos na Rússia. Concretamente, com os casos de jornalistas assassinados que não foram resolvidos, como o de Ana Politkovskaya.
Medvedev -
Em todo país é possível encontrar casos sobre os quais se podem fazer críticas mútuas sobre a observância dos direitos humanos básicos, no plano social, econômico... Não somos um país ideal. Creio que a Rússia nos últimos 17 anos percorreu um grande caminho. Que direitos humanos podia haver na União Soviética? E é preciso dizer que a Espanha se lembra bem de um período parecido, e isso foi há relativamente pouco tempo. Mas hoje a situação aqui é outra, porque nossa Constituição funciona e garante os direitos humanos e as liberdades cívicas básicas. Em alguns direitos elementares não se teve êxito, como por exemplo a defesa do cidadão diante da criminalidade e a defesa da propriedade. Em 2008 houve mais de 2 mil assassinatos que não foram esclarecidos. É uma estatística penosa. Portanto, o aperfeiçoamento das instituições da justiça é uma tarefa que o Estado não pode adiar.

EP - Por que o Kremlin tem tanto medo do povo? Por que a oposição radical recebe sempre uma negativa quando quer fazer uma manifestação na rua? Não falamos dos comunistas, que recebem autorização, mas de gente como Kasparov, os da Outra Rússia.
Medvedev -
Eu não acompanho as atividades da oposição radical no mesmo grau que certamente vocês seguem, mas do meu ponto de vista é um pequeno grupo de políticos radicais, empenhados em atrair o interesse para si mesmos. A julgar pelo que vejo, e vejo muito, porque entro nos sites da Internet com frequência, eles fazem o que querem, saem à rua e gritam que é preciso destituir o presidente e o governo. Ninguém cala suas bocas. Dizem tudo o que querem. Mas que não intervenham na Praça Vermelha. A Praça Vermelha não é lugar para eles.

EP - Mas foram detidos nos restaurantes e antes que pudessem intervir na rua.
Medvedev -
Se houver irregularidades é necessário esclarecê-las. Mas dizem o que querem e o dizem sem mordaças, com uma linguagem proletária direta.

EP - Em janeiro houve uma guerra do gás entre a Ucrânia e a Rússia, em que seu país perdeu dinheiro e reputação. O que fará na próxima crise com Kiev?
Medvedev -
Em primeiro lugar, não fechamos a torneira, mas a Ucrânia não assinou um acordo conosco e por isso não tínhamos uma base jurídica para fornecer o gás. Daí que se tomou essa decisão tão difícil para nós, uma decisão que não queríamos e que gostaríamos de evitar no futuro. O resultado foi a assinatura do acordo de 19 de janeiro, pelo qual o abastecimento de gás à Ucrânia é feito a preços de mercado e nossos sócios devem pagar no prazo. Se isto não for cumprido, a Ucrânia, segundo o acordo, deverá passar a pagar antecipadamente seu fornecimento. Não queremos que se repita a situação anterior, mas caso se neguem a pagar teremos de fazer algo. Expliquei à Comissão Europeia que se quisermos dar garantias a todos, incluindo os consumidores europeus, devemos ajudar a Ucrânia, que está à beira do colapso econômico. Se vemos que não são capazes de pagar, formemos um consórcio internacional para ajudar com dinheiro. Creio que essa seria uma saída para todos. Eu também propus uma nova versão da Carta Energética, que não esteja dirigida unilateralmente ao serviço dos consumidores, embora estes sejam a parte mais vulnerável. Às vezes é preciso pensar no produtor e nos países de trânsito. Ordenei a nosso governo e também a nossas principais companhias que preparem propostas sobre isso. Logo as entregarei a nossos parceiros.

EP - Quando a petroleira russa Lukoil mostrou interesse em comprar uma parte da Repsol, na Espanha foram evidentes as hesitações. Falta confiança nos parceiros russos?
Medvedev -
Estamos interessados em que haja investimentos espanhóis na Rússia e que as companhias russas vão ao mercado espanhol e invistam ali nos setores mais diversos. Quanto maior for o nível de investimentos, tanto maior será o nível de segurança na Europa, porque se os países estão vinculados por negócios comuns nunca haverá motivos para conflitos. Sobre a Lukoil e a Repsol, não vou entrar em detalhes porque se trata de duas companhias privadas. Pelo que sei, era um pacote pequeno, inferior inclusive ao chamado de controle, que não exercia uma influência substancial na tomada de decisões da companhia. Ouvi dizer que para alguns esse investimento agradava e que outros agiam de acordo com os estereótipos e a lógica de que "lá vêm os russos" e que era perigoso para a independência do Estado, etc. Creio que é uma lógica nociva ou idiota, chame-a como quiser, porque dividir os investidores em bons e maus, em corretos e incorretos é levantar um novo Muro de Berlim na economia.

EP - Os EUA perderam sua base de Manas no Quirguizistão, crucial para a Otan no Afeganistão. A Rússia pode e quer fazer algo para compensar essa perda?
Medvedev -
O fechamento dessa base é uma decisão soberana das autoridades do Quirguizistão. Ocorreu porque a decisão de abri-la havia sido para somente alguns anos, mas sua presença se prolongou durante oito, e sobre isso não haviam entrado em acordo com os EUA. Quanto ao Afeganistão, estamos interessados em ativar nosso trabalho na região, porque vemos as ameaças dos grupos radicais que existem no Afeganistão, Paquistão e outros países. Pelo que sei, o novo presidente dos EUA incluiu essa tarefa entre suas prioridades internacionais. Compartilhamos esse enfoque. Além disso, estamos dispostos a participar da estabilização do Afeganistão, recorrendo à autoridade de organizações internacionais como a Organização de Cooperação de Xangai (OCSh) [China, Cazaquistão, Quirguizistão, Rússia, Tadjiquistão e Uzbequistão). Todos estamos interessados em que no Afeganistão haja um estado democrático, civilizado e eficaz. Pensamos em realizar uma conferência sobre esse tema, provavelmente este ano.

EP - Convidarão a Otan?
Medvedev -
A OCSh bem poderia fazê-lo. Seus membros são países fronteiriços com o Afeganistão, os que mais sofrem com o extremismo que existe lá. Toda essa corrente obscura de narcóticos e terroristas nos afeta. Por isso vamos discutir na conferência esses temas, mas em vista de que a operação se realiza no Afeganistão creio que deve haver representantes seus.

EP - Por último, o senhor não acha que o novo processo contra o multimilionário Mikhail Khodorkovski, agora acusado de roubar bilhões de euros, aumentará a desconfiança em relação à Rússia?
Medvedev -
O tribunal mostrou sua intransigência e independência no caso de Politkovskaya quando, apesar de eu crer que o assunto não era tão simples, pronunciou um veredicto absolutório ao afirmar que as provas eram insuficientes. Por isso é preciso esperar e ver como se desenrola esse julgamento. Não tem sentido comentar o julgamento antes que tenha começado. A consistência das acusações é responsabilidade da promotoria; se acreditam ter suficientes, que as apresentem. E veremos o que acontece no julgamento.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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