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05/03/2009

Iraniana queimada com ácido quer aplicar a lei do "olho-por-olho" a seu carrasco

El País
Ana Pantaleoni
Em Madri
Ela voltará a Teerã e queimará os olhos dele com ácido. A voz de Ameneh Bahrami não treme. Ela tira os óculos pretos e mostra seu rosto queimado. Essa mulher miúda está disposta a aplicar a lei de talião, a famosa "olho por olho, dente por dente", ao homem que a deixou cega por despeito em setembro de 2004. Ameneh, que então era uma jovem universitária que estudava engenharia eletrônica em Teerã, se recusou a casar com ele. "Ele me atirou um vidro de ácido sulfúrico no rosto. Me deixou cega e agora quero que fique cego", explicou na quarta-feira, sentada na clínica em Barcelona onde foi tratada.

"Não quero vingança. Quero que as outras pessoas como ele saibam que não podem fazer essas coisas. Agora ele quer morrer, não quer viver cego. É um selvagem, não tem educação, não entende nada. Nem ele nem sua família me pediram perdão. Penso que essa é uma boa lei para essa pessoa. Não quero que ninguém mais sofra como eu", afirma essa mulher de 30 anos. Parece duro, mas Ameneh não perde a compostura. Lembra as 17 operações que fez nestes quatro anos, 16 nos olhos e uma no rosto. "Tenho certeza do que vou fazer, não é brincadeira. As pessoas me dizem que estou errada e eu digo: 'Feche os olhos durante cinco minutos e então me entenderá'."

Em 26 de novembro passado, um tribunal iraniano condenou o homem que a deixou cega a perder a vista do mesmo modo. Se a condenação for executada, esse homem receberá 20 gotas de ácido. Ameneh se expressa com dificuldade em castelhano. "Me disseram que lhe darão anestesia. No meu país a lei é diferente: um homem é igual a duas mulheres. Me disseram que dois olhos meus são um dele. Mas eu disse ao juiz que com um olho se pode viver. Mandei uma carta lembrando que ele me queimou o rosto, a cabeça e as duas mãos. Não receberei o dinheiro que me oferece como indenização, mas receberei os dois olhos."

Segundo a legislação iraniana, Ameneh só poderia cegá-lo de um olho se não pagasse 20 mil euros para executar a sentença totalmente. Não pagará, mas alegou ao juiz que além de perder a visão está totalmente desfigurada.

A justiça iraniana, baseada na xariá ou lei islâmica, aplica a pena de talião nos casos de danos físicos intencionais e a pedido da vítima, que pode perdoar o castigo em troca de uma compensação monetária. Ameneh está à espera de uma carta do tribunal de seu país para viajar ao Irã e executar a sentença. Por estar totalmente cega, não poderá executá-la pessoalmente, mas afirma: "Haverá muita gente que queira fazê-lo por mim".

Ameneh vive desde abril de 2005 em um pequeno quarto no bairro de L'Eixample em Barcelona. A maioria das operações foi realizada no Instituto de Microcirurgia Ocular de Barcelona. Seu médico, Ramón Mendel, especialista em cirurgia plástica molecular, explica que Ameneh chegou à clínica particular enviada pela embaixada iraniana em Madri. Conseguiram salvar 40% da visão de um de seus olhos, mas uma infecção acabou deixando-a cega.

De que ela vive desde que deixou o Irã? "Tenho a residência espanhola. Recebo uma ajuda do governo espanhol de 400 euros e o resto são donativos, gente que conhece minha história pela Internet e me ajuda através de um número de conta bancária, depositando dinheiro." Nos dias em que se sente bem, Ameneh vai ao centro de serviços sociais encontrar seu assistente, aprender braile e também espanhol. Ameneh está muito animada com a operação no rosto que lhe farão no hospital Vall d'Hebron em Barcelona. "Não quero voltar a viver no Irã. Ali tenho medo de sair à rua. Perdi a confiança."

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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