UOL Notícias Internacional
 

07/03/2009

Ao expulsar ONGs, Sudão deixa um milhão de refugiados sem ajuda

El País
Oriol Güell Em Madri
O presidente do Sudão, Omar al Bashir, tomou como refém mais de um milhão de refugiados em Darfur em seu choque com a Justiça internacional. À ordem de detenção ditada pelo Tribunal Penal na última quarta-feira e que o acusa de crimes de guerra e contra a humanidade, Al Bashir respondeu na quinta com a expulsão de equipes de 13 ONGs que ajudam os desabrigados em Darfur. A medida, segundo a ONU, deixa mais de um milhão de pessoas sem ajuda alimentar e assistência médica e interrompe os projetos de saneamento e infraestrutura básica iniciados nos últimos dois anos.

"Com esta expulsão, Darfur se encaminha para uma nova catástrofe", resume Marta Cañas, responsável no local pelos programas da Médicos Sem Fronteiras. "A situação tinha piorado nas últimas semanas com um surto de meningite e novas ondas de desalojados. Em muitas áreas se estava chegando ao limite. Agora, com a ordem de parar de trabalhar, centenas de milhares de pessoas ficam em uma situação de absoluto desamparo: sem comida, sem meios para conseguir água e sem as mínimas necessidades supridas."

As mensagens de outras organizações expulsas soam igualmente angustiantes. "Se sairmos do país, mais de 450 mil pessoas ficarão sem assistência humanitária urgente e serão obrigadas a passar sem nenhum recurso de água e alimentos", afirma um porta-voz da Acción contra el Hambre, enquanto a Save the Children indica que "a vida de centenas de milhares de crianças está em risco". Francisco Yermo, de Oxfam, alerta que "o risco agora é que também se perca todo o trabalho já feito, pois o governo do Sudão está confiscando equipamentos de informática e outros bens das organizações expulsas".

O desconcerto imperava na sexta-feira entre as ONGs envolvidas, já que a decisão de Cartum não afeta todas por igual nem se estende a todas as suas equipes mobilizadas em Darfur. A Médicos Sem Fronteiras, por exemplo, recebeu ordem de tirar do país suas equipes procedentes da Holanda (que assistem 200 mil pessoas nos campos de Kalma, Muhajariya e Feina) e da França (que atendem 170 mil refugiados em Niertiti e Zalingei), mas Cartum nada disse para outras equipes espanholas, belgas e suíças que também trabalham em Darfur.

Essa ação do regime alimenta a impressão de que Cartum está "fazendo a pior das chantagens: pôr centenas de milhares de pessoas sobre a mesa diante da comunidade internacional para tentar que seja cancelada a ordem contra Al Bashir", afirma um responsável humanitário que pede o anonimato diante da situação delicada em campo.

A situação é especialmente grave em um dos maiores acampamentos de Darfur, Kalma, onde vivem mais de 90 mil refugiados, e na localidade vizinha de Niertiti. "O surto de meningite se ampliou. Tínhamos feito um plano para vacinar com urgência 121 mil pessoas. Todo o trabalho foi interrompido agora e a população ficará exposta à doença", explica Cañas.

O segundo maior foco de instabilidade nas últimas semanas foram os confrontos mantidos em Darfur sul por facções rebeldes com as tropas do governo, o que provocou novas ondas de desabrigados (entre 20 mil e 50 mil pessoas, conforme a fonte) que chegaram aos já saturados campos de Darfur Norte, como o de Shangil Tobai.

A expulsão de ONGs não afeta o sul do Sudão - sob controle do governo autônomo surgido depois da dura guerra civil que opôs o norte muçulmano ao sul cristão -, onde as organizações continuam trabalhando sem problemas. Mas põe em risco outras delicadas áreas do país: as províncias chamadas de "transição" entre o norte e o sul (Abyei, Kordofan Sur e Nilo Azul), segundo o International Crisis Group. "Os acordos de paz traçaram uma fronteira instável, com comunidades distantes de sua populações afins. A tensão foi contida até agora graças aos investimentos e aos programas de assistência. Ao expulsar ONGs também nesta área, Cartum está disparando o risco de desestabilização", afirma Nick Grono.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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