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07/03/2009

Uma compilação de poemas revela as angústias de Vinicius de Moraes

El País
Francho Barón No Rio de Janeiro
Vinicius de Moraes (Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes, nascido no Rio de Janeiro em outubro de 1913, morto em julho de 1980) ainda usava calças curtas quando percorria os corredores do Colégio Santo Inácio com versos de sua autoria escondidos nos bolsos do uniforme. Vários elementos reforçam a pouco conhecida tese de que Vinicius de Moraes foi na realidade uma pessoa profundamente atormentada, ciclotímica e de complexas dúvidas existenciais, diante da imagem que existe de sua pessoa há décadas: a de "showman" falante, piadista e propenso à bebida, às mulheres bonitas e à noite.

A editora brasileira Companhia das Letras publicou recentemente uma nova seleção de poemas deste que foi amigo íntimo do compositor Antônio Carlos Jobim, que vem aprofundar a teoria de que Vinicius de Moraes, além de um ícone da Bossa Nova, foi um homem eternamente angustiado. "Poemas Esparsos" inclui alguns versos inéditos, anotações e textos explicativos de grandes figuras da cultura brasileira, como os poetas Ferreira Gullar e Carlos Drummond de Andrade, ou o compositor e músico Caetano Veloso.

O coordenador do volume, o também poeta Eucanaã Ferraz, inicia o epílogo da seguinte maneira: "Os dramas de Vinicius de Moraes nunca foram os próprios da poética. Desde 'O Caminho para a Distância', seu primeiro livro (...), os problemas de expressão de uma inquietação existencial estiveram em primeiro plano e ali permaneceram instalados, ineludíveis como um destino".

Efetivamente, nos dois primeiros poemários assinados por Vinicius, "O Caminho para a Distância" (1933) e "Forma e Exegese" (1935), uma atmosfera de culpa e desassossego se apodera dos versos. Segundo explica o crítico literário José Castello em um extraordinário ensaio publicado em janeiro passado na revista cultural brasileira "Bravo!", a mulher surge nesse período do poeta incipiente como uma figura inocente e intangível, enquanto o homem ganha a categoria de ser inferior e sujo, indigno do amor e da companhia feminina.

Nos dois volumes, catalogados por Castello como "poesia metafísica", a masculinidade se apresenta como "um lastro que move os homens por impulsos carnais e arroubos de violência". Vinicius, ao que parece, sentia repugnância de sua própria condição masculina, mas nem por isso renunciou a ela.

No Brasil, Vinicius é conhecido carinhosamente como "o poetinha", um diminutivo que vem enfatizar sua faceta mais primaveril ou, ainda mais preocupante, que com não pouca condescendência rebaixa seu porte e solvência como intelectual a uma categoria inferior. "Vinicius rompeu com a imagem dos grandes poetas e narradores de sua época. Enquanto Guimarães Rosa ou Clarice Lispector eram figuras consagradas da literatura brasileira, Vinícius entrava cada vez mais no folclore do Rio de Janeiro, o que prejudicou profundamente sua imagem de grande intelectual", comenta José Castello, autor da mais completa biografia de Vinicius, "O Poeta da Paixão".

Vinicius de Moraes conduziu sua intensa produção literária e jornalística simultaneamente com uma acidentada carreira diplomática que o levaria a Los Angeles, Paris e Montevidéu. Nunca suportou a rigidez do protocolo próprio das embaixadas e consulados. Contam que quando não estava com humor para vestir terno e gravata e ir trabalhar, o autor da letra de "Garota de Ipanema" despachava e recebia visitas de cueca em suas dependências na residência oficial. Em Paris, as mesas do Le Bar Anglais faziam às vezes de escritório em horários de trabalho, e foi ali que continuou sua descida aos infernos do uísque e dos romances fugazes (foi nesse lugar que cultivou a infidelidade à sua terceira esposa, Lila Bôscoli, com Marlene Dietrich, ninguém menos).

Em um intervalo de 41 anos, desde seu primeiro casamento até 1980, quando morreu, Vinicius viveu uma série de nove uniões, algumas mais tempestuosas que outras, sem contar os inúmeros casos paralelos com que ele tentava camuflar sua eterna insatisfação emocional. "O amor sereno significava a morte para ele. Se não vivesse em uma permanente euforia amorosa, entrava em depressão. Sofria do que os psicólogos atuais chamam de bipolaridade", explica Castello.

Ele saboreou o mel do êxito e da fama no Brasil e no resto do mundo, mas nunca obteve o respeito dos círculos intelectuais de sua época. Segundo Caetano Veloso, o próprio Vinicius lhe deu a chave em uma conversa privada em sua casa no bairro carioca do Jardim Botânico: "Eu prefiro a musiquinha, as mulheres bonitas... dessa maneira a poesia flui. Não quero aquilo (o trabalho disciplinado e meticuloso do poeta sério e comprometido)".

Essa é exatamente a imagem que ficou do grande Vinicius de Moraes no imaginário popular: a de um homem ébrio, com um copo de uísque na mão, cercado de amigos e mulheres bonitas, cantarolando canções que exaltavam a felicidade e a leveza dos verões eternos do Rio de Janeiro.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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