UOL Notícias Internacional
 

08/03/2009

A vida secreta das princesas do harém

El País
M. Antonia Sánchez-Vallejo Em Madri
Dividir o marido com outras esposas não é empecilho para ser primeira-dama, pelo menos nas pequenas monarquias do golfo Pérsico. Mulheres como a rainha Mozah de Catar ou a princesa Haya de Dubai atravessam o espelho do harém como faces visíveis dos emirados onde seus maridos reinam e governam. Ao estilo das primeiras-damas ocidentais, se exibem em público, marcam estilo e se reúnem entre elas.

É o clube das primeiras-damas do Golfo, um fenômeno interessante em meio ao conservadorismo feudal da região, e no qual alguns querem ver um gesto de abertura e outros, mais uma questão de estilismo, como se as realezas locais não pudessem se subtrair ao magnetismo da glamourosa rainha Rania da Jordânia.

Mas ao lado de Mozah ou Haya, enésimas esposas dos governantes de Catar ou Dubai - se desconhece o número exato de coesposas de cada um deles -, há outras primeiras-damas que se dobram à tradição da região: a do ostracismo da vida pública, que as condena a não ter direito à existência. O perfil velado da rainha Sabika bint Ibrahim de Bahrein ou a invisibilidade da rainha Fatima bint Mubarak, viúva do emir de Abu Dabi, são dois exemplos do lado escuro.

Apesar de a última ostentar o título oficial de Mãe da Nação, ninguém consegue vê-la: é proibido fotografá-la ou filmá-la, e não tem biografia oficial. Não se sabe onde nasceu, que idade tem ou quantos filhos deu ao emir. Consta apenas uma coisa: que apesar de não ser a rainha-mãe - o atual governante, Khalifa Bin Zayed al Nahyan, é filho de outra mulher de seu marido - sua influência sobre o país supera muitas vezes a dele.

Uma cortesã de origem estrangeira que frequenta o palácio dá poucas informações sobre a rainha Fatima, sob um anonimato obrigatório. "Não foi a primeira mulher do emir, mas sim a favorita. Este se ligou a ela quando a descobriu em uma viagem pelo país, em uma tribo do deserto. Tinha 13 anos e era analfabeta. A rainha aprendeu a ler e escrever depois de casada. Desde então apoia iniciativas educacionais. E o fato de compartilhar o marido com outras mulheres a faz ver o harém com desagrado: não gosta que seus filhos tenham várias mulheres", confessa essa moradora de Abu Dabi. Impossível verificar a informação: falar da xequesa é tabu.

Na ampla área que vai da abaya (túnica negra tradicional) aos modelos de Versace que a rainha Mozah veste em suas aparições públicas no Ocidente, essas mulheres também superam o abismo entre as tribos do deserto e a galáxia global. Se a rainha de Abu Dabi não tem rosto, Mozah - idade indefinida, formada em sociologia, notório lifting facial - e Haya - 35 anos, amazona olímpica, formada em Oxford - possuem página na web, ou como se queira chamar esse incensário virtual que informa sobre suas múltiplas atividades sociais.

Mozah, a única mulher pública do xeque Hamad Bin Khalifa al Thani, é enviada especial da Unesco para a educação básica e superior e desde 2005 membro do grupo de alto nível da Aliança de Civilizações. Mas seu forte é o âmbito educacional. Em 2003 promoveu a constituição de um fundo internacional para a educação superior no Iraque, e em seu país é madrinha da Cidade da Educação, um megacampus situado nas redondezas de Doha, com faculdades das melhores universidades americanas, como Carnegie Mellon ou Georgetown. A xequesa recebeu doutorado honoris causa de todas elas. E a revista "Forbes" a incluiu em 2007 na lista das cem mulheres mais influentes do mundo.

O casamento do xeque Mohamed Bin Rashid al Maktoum com a meio-irmã do rei Abdallah da Jordânia, Haya, fez Dubai ganhar peso político e multiplicou a atração do emirado. Haya, 25 anos mais moça que o marido, é a mãe de seu décimo nono filho. Embaixadora da boa vontade do Programa Mundial de Alimentos da ONU e presidente da Federação Hípica Internacional, Haya, que na juventude frequentou os hipódromos espanhóis, é um valor agregado por sua proximidade do rei hachemita.

"Todas essas primeiras-damas constituem um importante trunfo na hora de vender o Golfo para os investidores estrangeiros, mas não é só uma questão cosmética. E embora a primeira-dama do Catar seja a mais exibicionista, por assim dizer, a mais aficionada às câmeras, por trás dessa projeção midiática, inédita na região, está uma realidade inapelável, a de que esses países estão diminuindo a diferença de gênero", diz Mohamed Youssef, consultor internacional baseado em Abu Dabi.

Assim, entre os vetores de negócios dos pequenos estados do Golfo não só figuram o petróleo ou os arranha-céus impossíveis, mas também o glamour. É aí que entram em jogo essas mulheres, autênticas imagens de marca na hora de atrair investimentos, cosmopolitismo e eventos sociais. Ou seja, negócios.

Mas imagem nem sempre é tudo. Em novembro passado, o hotel Emirates Palace de Abu Dabi, um sete-estrelas colossal, abrigou a segunda cúpula da Organização de Mulheres Árabes, sob o patrocínio da xequesa Fatima bint Mubarak. Entre jantares de gala e beija-mãos só para mulheres - os homens foram hospedados em edifícios separados -, as sessões de trabalho eram transmitidas por circuito fechado de televisão. Participaram do encontro as mais destacadas mulheres da região: a esposa de Mohamed VI do Marrocos, a síria Asma al Assad e a rainha da Jordânia, entre outras. Raina, de saia azul, saltos agulha e cintura de vespa, reinava como top model entre um enxame de fotógrafos e câmeras... até que chegou a xequesa Fatima. Toda de preto. Plano fixo castigado, de cara para a parede. A rainha miúda, morena, vestida de preto da cabeça aos pés e com uma boqueira de couro repuxada sobre a mandíbula - um sinal de submissão em algumas tribos do deserto -, conseguiu eclipsar a rainha de copas.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves


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