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10/03/2009

Exércitos da América do Sul se unem para colaborar pela primeira vez

El País
Javier Lafuente
Em Madri
O novo organismo da Unasul, o Conselho de Defesa, é constituído no Chile


Março de 2008. O exército da Colômbia dá o golpe mais duro até então nas Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), ao matar seu número 2, Raúl Reyes. A operação, realizada em território equatoriano, provoca uma crise diplomática trilateral - Colômbia, Venezuela e Equador - devido à forma de proceder do exército de Álvaro Uribe. A alguns milhares de quilômetros ao sul, um grande estrategista geopolítico, Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil, toma nota do assunto. Pensa que do conflito poderá surgir uma iniciativa comum de defesa. Sabe que é o único que pode conseguir isso. Um ano depois nasce o Conselho de Defesa Sul-Americano.

O novo organismo militar, que será constituído nesta segunda e terça feiras em Santiago do Chile, é concebido como um mecanismo de integração, diálogo e cooperação em questões de defesa dos 12 países que compõem a União de Nações Sul-Americanas (Unasul). Será a primeira vez que os responsáveis políticos pelas forças armadas do Cone Sul se sentam para falar periodicamente. A presidência do organismo será temporária, assim como a da Unasul. Estão previstas uma reunião anual dos ministros da Defesa e duas de vice-ministros. "Até hoje sempre se negociou bilateralmente; o conselho abrangerá os assuntos de maneira multilateral", explica em conversa por telefone o ministro da Defesa do Chile, José Goñi.

A Unasul não pretende criar uma força armada de tipo clássico no estilo da Otan. Em uma parte da região onde os nacionalismos são tão fortes e os atritos de fronteira tão habituais, seria inviável. Mas ter superado esses inconvenientes é um dos motivos que causaram mais entusiasmo, segundo analistas militares que acompanharam de perto o processo de gestação do conselho.

Com essa iniciativa se pretende acabar com algo tão arriscado e complexo quanto as tentativas de conflito, minimizar qualquer fricção entre os países da América do Sul. Desde maio do ano passado, quando os 12 presidentes da Unasul deram ordem a seus ministros para criar o conselho, se realizaram quatro reuniões de caráter técnico.

Há quem considere que através desse organismo se pode chegar a perfilar uma política de defesa e segurança conjunta. Até conseguir isso será preciso seguir um mapa do caminho, um "plano de ação" segundo o ministro chileno, que será perfilado nestes dias em Santiago. Reforçar a cooperação militar, coordenar missões humanitárias e operações de paz e inclusive a futura criação de um Instituto de Defesa na América do Sul são alguns dos objetivos. A luta contra o narcotráfico não está nem estará na agenda, pelo menos em curto prazo. "Buscamos a convergência de interesses. Para alguns países é um tema policial e não militar; não queremos que haja ingerências na maneira de atuar", justifica Goñi.

Mesmo assim, será uma tarefa muito complexa. Analistas militares que assessoraram alguns dos países do novo organismo afirmam que foi um ano de intensas negociações, em que as chancelarias tiveram um papel chave. Nem todo mundo tinha a mesma visão de segurança e estratégia: por exemplo, a Venezuela conta com um perfil militar muito mais acentuado que o do Brasil, apesar de este possuir um dos exércitos mais poderosos da região.

Um dos assuntos que mais causaram polêmica foi a volta às águas latino-americanas, em julho do ano passado, da IV Frota dos EUA, depois de 58 anos de inatividade. A Venezuela o considera uma ameaça. Além de reconhecer certa preocupação - nenhum país aprovou os argumentos dos EUA -, ninguém quis se confrontar com o gigante americano.

Embora ainda seja cedo para ver se essa iniciativa estanca e cai no esquecimento, como tantas outras que surgiram na América Latina, a verdade é que o conselho ganhou um voto de confiança de muitos especialistas. A principal dúvida que causa é provar se é governável um organismo em que estejam envolvidos 12 exércitos. A percepção dos analistas é que se não forem gerados rapidamente projetos concretos poderá dar em nada. "É muito difícil operar, não há muita coordenação entre os países. Além disso, se alguém não tem instituições fortes em seu país é mais complicado tê-las na região", afirma Fabián Calle, pesquisador do Conselho Argentino para Relações Internacionais.

Com o tempo também se resolverá a dúvida de por que o Brasil decidiu promover um organismo que o obrigou a encabeçar uma grande campanha diplomática para conseguir em um ano o "sim" de países tão antagônicos quanto a Colômbia de Álvaro Uribe e a Bolívia de Evo Morales. No miolo do assunto está, segundo alguns analistas, conseguir seu tão desejado assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Mas além das hipóteses o que está claro é que o Conselho de Defesa Sul-americano é mais um golpe preciso do presidente que um dia disse: "A América do Sul tem capacidade para mover o tabuleiro político de todo o mundo em benefício de nossas nações".

91% a mais de gasto militar

Entre os objetivos, e ao mesmo tempo quebra-cabeça, que se impuseram os 12 governos do Conselho de Defesa Sul-Americano, está a criação de um método de medição do gasto militar comum. Entre 2003 e 2008, os gastos em defesa na América Latina e no Caribe aumentaram 91%, segundo o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos. Em 2008 foram gastos US$ 47,2 bilhões, contra US$ 24,7 bilhões em 2003.

Os países sul-americanos, os que mais reforçaram seu arsenal, negam que se trate de um aumento e o justificam como uma modernização de seu material. Embora isto seja em parte verdadeiro, não exclui que o aumento do gasto se realize pela percepção de que há riscos na região, seja por conflitos existentes ou pelas compras de armamentos dos países vizinhos.

Avaliar a capacidade de cada país é complicado, pois cada um tem sua metodologia e inclusive há gastos que não estão no orçamento. Ainda assim, há dois exemplos ilustrativos: em 2008 o exército colombiano gastou US$ 5,5 bilhões, 13,5% a mais que em 2007. As compras de material armamentista do governo venezuelano, da Rússia, Belarus, China e Espanha, já ultrapassaram os US$ 6,7 bilhões.

Argentina e Chile aplicam desde 2002 um método de medição padronizado. Mas, enquanto no primeiro a situação militar é precária, no Chile triunfa o duplo discurso das forças armadas: por um lado afirmam que as tensões vicinais são perigosas, portanto é preciso comprar armas; por outro, salientam que não há uma corrida armamentista, por isso as compras não estão bloqueadas.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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