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10/03/2009

Irã aproxima-se da bomba atômica

El País
Andrea Rizzi Em Madri
O Irã avança a passos firmes na trilha tecnológica que lhe permitiria, caso deseje, possuir uma arma nuclear. A aproximação é evidente. Em fevereiro, Teerã colocou com sucesso um satélite em órbita - demonstrando suas conquistas na tecnologia de mísseis - e se situou muito perto do limiar de urânio de baixo enriquecimento necessário para fabricar uma bomba. Muito perto. Mais do que se previa. Tanto que alguns especialistas acreditam que já o está alcançando.

"Creio que já chegou", opina o físico David Albright, presidente do Instituto para Ciência e Segurança Internacionais, referindo-se ao fatídico limiar a partir do qual basta refinar o material armazenado para conseguir os 25 quilos de urânio altamente enriquecido necessários para fabricar uma bomba. Um processo que o Irã, com as centrífugas de sua usina de Natanz, a 300 quilômetros ao sul de Teerã, "poderia completar em um período entre seis meses e um ano", diz Albright por telefone, dos EUA.

Nem todos os especialistas concordam com ele. "Acreditamos que precisem acumular mais, porque os dados demonstram que seu processo ainda é bastante ineficiente", comenta Ivan Oelrich, da Federação de Cientistas Americanos, também nos EUA. Mas até os que discordam situam os iranianos a poucos meses de distância do limiar.

A publicação dos dados da última inspeção da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) em Natanz, em 19 de fevereiro, causou uma polêmica à qual se acrescentou como um trovão, há uma semana, a opinião manifestada pelo almirante Mike Mullen, chefe do estado-maior dos EUA: "Francamente, creio que já chegaram lá", disse.

O alarme disparou de tal maneira que o chefe do Pentágono, Robert Gates, apareceu horas depois para tranquilizar os ânimos: "Não alcançaram o limiar, não estão perto de ter uma arma nuclear. Há tempo", sentenciou.

O tempo que realmente resta é um assunto sobretudo político. Mas, se o Irã quisesse dar o salto militar, a que distância tecnológica se encontra da bomba?

A resposta depende de três fatores: a capacidade de enriquecer urânio ao nível atual, ainda baixo e compatível com fins civis, até o necessário para uma arma; a capacidade de desenhar a ogiva nuclear; e possuir um instrumento de transporte eficaz, como um míssil. No domingo Teerã testou com êxito um novo míssil ar-mar com alcance de 110 quilômetros e pesando 500 quilos.

Luta pela sucessão de
El Baradei na AIEA

A Agência Internacional de Energia Atômica - órgão da ONU que, entre outras coisas, vigia o programa nuclear iraniano - deverá eleger por voto secreto seu novo diretor no próximo dia 26. Depois de três mandatos consecutivos à frente da instituição, o egípcio Mohamed El Baradei deixará em novembro o cargo que ocupou em 1997. Sua gestão foi reconhecida com o Prêmio Nobel da Paz de 2005. Votarão os 35 países que formam o Conselho de Governo da AIEA.

Segundo a agência de notícias Reuters, os países desenvolvidos apoiam a candidatura do japonês Yukiya Amano, considerado um homem que despolitizaria a organização. Alguns membros criticaram a gestão do atual diretor exatamente devido à politização. El Baradei teve duros conflitos com o governo Bush.

Os países em desenvolvimento, por sua vez, apoiam a candidatura do sul-africano Abdul Samad Minty. Por enquanto, nenhum dos dois parece contar com a necessária maioria de dois terços dos sócios. Se a votação do dia 26 não resolver a situação, a competição seria aberta a novos candidatos para um mandato de quatro anos.



A vertente nuclear é a mais clara. "Já fizeram a parte mais difícil", observa, em Londres, Ben Rhode, analista do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos. "Têm a tecnologia praticamente dominada", concorda Peter Crail, da Associação de Controle de Armamentos, em conversa telefônica, de Washington. As 4 mil centrífugas ativas em Natanz já produzem urânio de baixo enriquecimento em um ritmo de quase 2 quilos por dia. Supostamente já acumularam 1.010 quilos de hexafluoreto de urânio, 30% a mais do que o Irã havia reconhecido inicialmente.

"Em uma usina oculta que tivesse um bom número de centrífugas, poderiam elevar o enriquecimento desse urânio ao grau necessário para uma bomba em dois ou três meses", indica Albright.

Capacidade técnica, naturalmente, não significa a vontade de fazê-lo. Teerã afirma que seu programa nuclear é exclusivamente voltado para uso civil e não há provas que o desmintam. Em todo caso, inclusive com tecnologia nuclear e vontade, os obstáculos continuariam sendo altos. "Os iranianos não poderiam completar o processo em Natanz nem tirar o urânio de lá para acabá-lo em outro lugar, sem que a AIEA detectasse em um prazo de um ou dois meses", comenta Crail.

Uma usina de enriquecimento não é difícil de esconder, mas "é duvidoso que pudessem ter urânio suficiente para alimentar uma de tamanho considerável", acrescenta Rhode. O Irã não pode adquirir urânio livremente. Para se ter uma idéia, os 1.010 quilos acumulados em Natanz são mais ou menos suficientes para uma bomba, mas uma quantidade insignificante para um reator de produção de energia. A central de Busher, no sul do Irã - que deverá entrar em operação no verão - necessita de 37 mil quilos por ano e será alimentada com material russo.

Quanto aos mísseis, a colocação em órbita em 3 de fevereiro passado do satélite Safir evidenciou os avanços de Teerã. "Estão fazendo progressos", concordam os especialistas contatados para esta reportagem. "O problema deles é fabricar uma ogiva nuclear suficientemente pequena e leve para que possa ser levada pelo Shahab 3", diz Albright.

O Shahab é a jóia da coroa. Tem alcance até Israel, mas consegue levar pouco peso. A capacidade para um míssil com ogiva nuclear tem de ser de 500 quilos, segundo o Missile Technology Control Regime, e é duvidoso que o Shahab a tenha.

A ogiva nuclear é o aspecto mais misterioso das capacidades iranianas, segundo especialistas. "Os serviços de espionagem dos EUA acreditam que o Irã parou seu programa em 2003. Por quê? Temia represálias? Havia avançado o suficiente?", pergunta-se Rhode. "Sabemos que o Irã recebeu documentação sobre uma bomba chinesa, um modelo dos anos 1960. A China entregou material ao Paquistão, e dali vazou para o Irã. Mas não sabemos que partido Teerã tirou desse material."

"Construir uma bomba nuclear simples não é muito complicado. Outra coisa é uma de implosão, ou outras mais sofisticadas. Mas isso também não lhes interessa", comenta Oelrich. "O Irã avança para a linha vermelha. O mais provável é que se aproxime dela o máximo possível sem cruzá-la, de modo que se as coisas ficarem feias possa dar o salto rapidamente. Em um ano estarão em uma posição que lhes permitirá obter rapidamente uma arma, se quiserem", conclui.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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