UOL Notícias Internacional
 

11/03/2009

Ditadores não jogam pôquer

El País
Ramón Lobo
Em Madri
O presidente do Sudão se considerava imune como Milosevic na Sérvia

Nem sempre é fácil distinguir um ditador. Às vezes, como no caso de Sadam Hussein, é confundido durante muito tempo com um amigo, um aliado útil que realiza trabalhos sujos (contra o Irã do aiatolá Khomeini). Franklin D. Roosevelt, por sua vez, nunca os confundia, mas os classificava em categorias. É dele a célebre frase sobre o ditador nicaraguense Tacho Somoza: "Sim, é um filho da p..., mas é o nosso filho da p...", que depois Henry Kissinger copiou ao se referir ao segundo Somoza, também ditador. Com Slobodan Milosevic - o precedente legal imediato do sudanês Omar al Bashir - se repetiram os problemas de adjetivação. Apesar de o sérvio ter sido um dos promotores dos crimes cometidos na Bósnia-Herzegovina (1992-1995), a comunidade internacional o premiou com um assento de honra entre os pais da paz.

Junto da virtude - os ditadores sabem se camuflar muito bem -, o defeito: são péssimos jogadores de pôquer, não sabem parar. Com Hussein aconteceu isso no Kuwait; com Milosevic em Kosovo, onde continuou apostando até perder tudo: prestígio, a vida e um lugar decente na sombra da história.

Vinte anos depois de tê-lo na passarela, uma parte da comunidade internacional (a decisão de processá-lo nem sequer foi unânime) ainda não esclareceu qual é sua opinião sobre o general Omar al Bashir, golpista em 1989 e presidente autocrático do Sudão desde 1993. O Tribunal Penal Internacional (TPI, reconhecido por 108 países, mas não pelos EUA, a China, Rússia e Israel, entre outros) ordenou na quarta-feira sua detenção. Ele é acusado de crimes contra a humanidade na região de Darfur: 300 mil mortos e 3 milhões de desalojados. A resposta de Al Bashir - expulsar 13 ONGs estrangeiras em represália - põe em risco a vida de centenas de milhares de seus compatriotas e demonstra sua predisposição a continuar acumulando acusações penais.

Nascido em 1944 no seio de uma família de criadores de gado no vale do Nilo, ao norte de Cartum, Al Bashir governa com punho de ferro desde 1989 o maior país da África. Apesar de ser considerado um homem sem carisma, de educação limitada e pouco dado a discursos elaborados, é intuitivo e astuto: sabe inclinar-se com o vento. Chegou ao poder à frente de uma junta militar que dissolveu quatro anos depois para ficar com o trono. Nos primeiros dez anos jogou a cartada islâmica, promovido pelo ideólogo do movimento no Sudão, Hasan al Turabi, um intelectual educado na Sorbonne, o que preocupou seus vizinhos e os EUA. O Sudão se transformou em um santuário de radicais. Também o favoreceu o fato de Osama bin Laden escolher o Sudão como base antes que Al Bashir o convidasse a sair.

Aviões americanos bombardearam em 1998 o que a CIA havia indicado como um centro camuflado de elaboração de armas químicas, que afinal era uma fábrica de leite em pó. Washington tentou desgastar o regime de Cartum através da guerra civil que este mantinha desde 1983 com o sul cristão e animista, fornecendo armas e munições via Uganda ao Exército de Libertação do Povo do Sudão. A guerra terminou em 2004 com um acordo de paz. Ficaram para trás 2 milhões de mortos e 4 milhões de desabrigados.

Talvez tenha sido aquele bombardeio cirúrgico ou o temor de perder o poder caso realizasse eleições o que o fez ver a luz. Em 1999, Al Bashir dissolveu a Frente Islâmica, declarou estado de emergência e colocou na prisão seu mentor Al Turabi (hoje em detenção domiciliar). Graças a essa mudança, o presidente sudanês estava preparado para escolher o lado certo depois dos atentados de 11 de Setembro e aparecer no pelotão de frente dos combatentes contra o terrorismo fundamentalista.

Isto lhe trouxe alguns benefícios, pois conseguiu desorientar a UE e os EUA: será ditador ou um amigo potencialmente útil? Apesar de Darfur, alguns países parecem se manter em um estado de confusão depois que o TPI emitiu a ordem de captura. Mas, como Sadam Hussein e Slobodan Milosevic, Omar al Bashir, o pára-quedista que lutou ao lado do Egito contra Israel na guerra de Yon Kipur em 1973, é um mau apostador nos jogos de cartas.

Encorajado por sua sorte depois da guerra norte-sul, aproveitou um ataque contra seus soldados em fevereiro de 2003 para ordenar uma ofensiva em Darfur. O objetivo era liquidar dois grupos guerrilheiros potencialmente perigosos: o Movimento de Justiça e Igualdade e o Movimento de Libertação do Sudão. Serviu-se da milícia paramilitar dos janjaweed (da tribo abbala, que são árabes criadores de camelos e cujo nome significa "cavaleiros armados"), a qual equipou e dirigiu sem recato. A coordenação entre o exército e os cavaleiros está demonstrada, segundo o TPI.

Darfur é uma guerra pela terra entre árabes e negros fur (que dão nome a Darfur), masalits e zagawas, todos agricultores não-baggara (beduínos nômades). A seca no norte fez que os pecuaristas árabes invadissem as plantações do sul e surgisse o confronto e a manipulação interessada. A pressão internacional forçou um acordo em 2007 para a mobilização de uma força de paz de 26 mil soldados. Al Bashir, hábil, regateou: não aos capacetes azuis da ONU, sim às tropas africanas. Resultado: foram mobilizados só 9 mil.

Nos sete meses que durou a instrução do promotor do TPI Luis Moreno Ocampo, o regime afrouxou ou endureceu a pressão sobre as ONGs (o Sudão é hoje a maior operação humanitária), segundo as notícias procedentes de Haia. Seu objetivo agora é bloquear o acesso à ajuda humanitária de milhões de pessoas, para conseguir a retirada das acusações. Ninguém na África quer sua captura, pois são vários os presidentes com crimes nas costas. Para os EUA também é um problema: precisam escolher entre os interesses petroleiros e os direitos humanos. A recente visita de Hillary Clinton à China, grande aliada do Sudão, dá pistas de que a defesa dos valores começa a encontrar matizes. A esperança de Al Bashir é convencer a comunidade internacional de que é o "nosso" filho da p... .

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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