UOL Notícias Internacional
 

11/03/2009

Nova rota da cocaína passa pela África

El País
Francesc Relea
Em Lisboa
Cartéis sul-americanos aproveitam os países destruídos pela Guerra


A África Ocidental se transformou em um dos principais centros de contrabando de cocaína. Cerca de 27% (40 toneladas) da cocaína que é consumida por ano na Europa chega da América do Sul através da nova rota africana, via Nigéria, Gana, Libéria, Serra Leoa, Guiné, Guiné-Bissau, Cabo Verde, Senegal, Mali e Mauritânia. No outro extremo do continente, a África Oriental é a principal rota da heroína asiática por meio da Etiópia e do Quênia. Esses são alguns dos dados do relatório anual da Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes (JIFE) da ONU, que foi apresentado recentemente em Bogotá.

O aumento da apreensão de carregamentos de cocaína demonstra que a via africana começa a substituir as tradicionais, da Colômbia à Galícia e a chamada rota dos veleiros, que passa pelas ilhas Açores, Madeira e Canárias. É a reação aos golpes policiais do fim dos anos 1990: os cartéis da droga dirigiram seu olhar para a África. É o cenário perfeito: pobreza, um litoral extenso e escassamente vigiado, países castigados por guerras intermináveis e o principal, governos frágeis, instituições inexistentes e juízes e policiais corruptíveis.

"Os cartéis da droga não só compram propriedades imobiliárias, bancos e empresas, também compram eleições, candidatos e partidos", afirma Antonio María Costa, diretor-executivo da Agência da ONU contra a Droga e o Crime.

Tomemos o caso de Guiné-Bissau, ex-colônia portuguesa e um dos dez países mais pobres do mundo. A exportação de castanha-de-caju é sua principal atividade comercial. Qualquer serviço prestado ao narcotráfico dá mais dinheiro. Esse pequeno país africano não tem prisão, e a polícia judicial, encarregada do combate às drogas, tem 60 agentes e um único veículo.

Carmelo Vásquez Guerra é um homem de sorte. Há três anos, a agência antidrogas dos EUA (DEA na sigla em inglês), a Interpol e a promotoria antidrogas do México seguem seus passos, mas até hoje não conseguiram caçá-lo. O nome desse cidadão de nacionalidade venezuelana, segundo o passaporte que utiliza, veio à luz em abril de 2006 quando um avião DC-9 com matrícula americana e procedente da Venezuela aterrissou no aeroporto de Ciudad del Carmen, no estado mexicano de Campeche. A aeronave levava um carregamento de 5,5 toneladas de cocaína. O destino final da droga era, com toda a certeza, os EUA. Vázquez era o piloto e segundo as autoridades mexicanas pertencia ao cartel de Sinaloa, assim como as seis pessoas detidas. Não se sabe como Vázquez conseguiu escapar.

Em 12 de julho do ano passado, do outro lado do Atlântico, um bimotor americano procedente da cidade venezuelana de Barcelona aterrissou com problemas mecânicos no aeroporto Osvaldo Vieira, na capital de Guiné-Bissau. A DEA, a Interpol e a polícia espanhola tinham informação fidedigna de que o avião transportava 500 quilos de cocaína para o mercado europeu. O exército cercou o avião e tomou controle de uma área do aeroporto, usurpando as competências da polícia judicial. "Os militares não tinham atribuições para agir daquela maneira, porque afinal se tratava de um avião civil. Começaram a descarregar o avião e não podiam fazer isso", explica em conversa telefônica Lucinda Barbosa, diretora-geral da polícia judicial.

Realizada sem testemunhas a descarga da mercadoria, os militares disseram que não era droga, mas medicamentos para as forças armadas. "Investigamos e comprovamos que aquela mercadoria era droga. Não há qualquer dúvida disso", afirma Barbosa. Os três tripulantes, todos venezuelanos, e dois controladores aéreos guineenses foram detidos pela polícia judicial, incluindo o piloto. Quem era? Carmelo Vázquez Guerra, o mesmo que dois anos antes comandava o DC-9 repleto de cocaína que aterrissou em Campeche e fugitivo da justiça mexicana.

A promotoria antidrogas do México emitiu através da Interpol uma ordem internacional de captura contra Carmelo Vázquez, que desapareceu novamente quando estava prestes a ser entregue a funcionários mexicanos que o esperavam em Lisboa. O caso foi arquivado em fevereiro por falta de provas, diante da surpresa da DEA, da Interpol da França e Portugal, da polícia judicial de Guiné-Bissau e de Portugal, além de outros organismos que acompanhavam de perto os acontecimentos. Isto ocorria no mesmo país cujo presidente, Nino Vieira, foi assassinado na segunda-feira por um grupo de militares leais ao chefe do exército, Batiste Tagme na Waje, morto em atentado horas antes.

O primeiro-ministro de Guiné-Bissau, Carlos Gomes Jr., tentava há poucas semanas explicar o inexplicável. "Nunca aceitaremos que nos classifiquem como um narco-estado", disse. Nos últimos tempos o Conselho de Segurança da ONU e o próprio secretário-geral, Ban Ki-moon, advertiram sobre a grave situação em Guiné-Bissau diante do crescente poder do narcotráfico e da fragilidade do estado.

Apesar de o preço da cocaína na Europa ter caído, segundo o Centro Europeu de Monitoração de Drogas e Dependência de Drogas, continua um pouco mais cara que nos EUA, cujo mercado está em declínio. "Chegará o momento em que essa rota será muito mais poderosa que o tráfico para os EUA, e é isso que queremos evitar", adverte o comissário Miguel Muñoz (ex-chefe da IV seção da Brigada Central de Entorpecentes), que estima em US$ 27 mil (21.300 euros) o quilo nos EUA, enquanto na Europa se pagam 27 mil euros pela mesma quantidade.

Diante da enorme capacidade do narcotráfico para estender seus tentáculos, a Europa começa a tomar medidas. Em novembro de 2007 nasceu o Centro de Análise e Operações Contra o Narcotráfico Marítimo (MAOC-N), com sede em Lisboa, formado por sete países membros da UE: Espanha, Portugal, Reino Unido, Irlanda, Holanda, França e Itália. Os EUA fazem parte como observadores. O objetivo é trocar informações. Desde sua criação foram apreendidas 59 toneladas de droga.

O MAOC-N se inspira, segundo seu diretor, o britânico Tim Manhaire, na americana Joint Interagency Task Force South (JIATF, ou Força-tarefa Conjunta Interagências Sul), com sede em Cayo Hueso, que reúne todas as agências de segurança dos EUA (DEA, CIA, FBI...), forças militares e de vigilância. Fazem parte da JIATF a maioria dos países da América Latina e do Caribe. Criada nos anos 1970, foi reativada depois dos atentados de 11 de Setembro com uma mobilização espetacular de meios e recursos para controlar toda a costa americana, dos EUA à Terra do Fogo. Mais modestamente, o MAOC-N pretende ser o guardião da costa atlântica européia, em uma espécie de frente comum contra o tráfico de drogas da América do Sul através da costa africana.

No concerto europeu a Espanha é pioneira na perseguição marítima de narcotraficantes, porque a legislação interna permite atuar em águas internacionais quando se trata de interceptar embarcações com carga suspeita. "Somos os únicos que nos molhamos, e estamos fazendo isso há 30 anos", diz um oficial do combate às drogas.

Embarcações com sete motores sincronizados de 350 cavalos de potência cada, que alcançam 50 nós, com combustível suficiente para percorrer 4 mil milhas náuticas em uma viagem de ida e volta e capazes de transportar até 3 mil quilos de cocaína. As lanchas da Alfândega não superam os 30 nós e não podem ir além de 200 milhas. É uma luta de Davi contra Golias. O controle por satélite é essencial para descobrir embarcações ilegais, mas nesse campo os EUA e o Reino Unido têm a palavra. "Apreender a droga não adianta nada se não forem feitas prisões", afirma um agente espanhol. Lamentavelmente, ainda há muitos Carmelos Vázquez que transitam à vontade entre a América e a África.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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