UOL Notícias Internacional
 

12/03/2009

Dissidentes mantêm retórica do IRA na Irlanda do Norte

El País
Patxo Unzueta
As siglas mudam, mas a retórica permanece: o IRA-Autêntico e o IRA da Continuidade, os grupos hostis ao processo de paz que assumiram os três assassinatos dos últimos dias na Irlanda do Norte, os justificaram pela permanência da "ocupação britânica". Os dois empregados de uma pizzaria que ficaram feridos quando entregavam o pedido no quartel atacado no sábado são qualificados de "colaboracionistas", sem importar que um deles fosse um imigrante polonês.

O adjetivo "colaboracionista" foi utilizado pela ETA quando causou vítimas entre pessoal civil que trabalhava em instalações oficiais. Em um panfleto que deixaram no lugar depois de atentar contra um quartel de montanha em Belágua, Navarra (Espanha), em 2004, ordenavam que "eletricistas, padeiros, cozinheiros..." cortassem toda a "relação com essas forças ocupantes" e andassem "longe dos caminhos que frequentam".

Quanto à ocupação britânica, dos 30 mil soldados que havia na Irlanda do Norte há uma década, restam somente 5 mil, e seria nenhum se não fosse pela ameaça latente desses pequenos grupos que buscam pretextos para continuar na dissidência. Os atentados destes dias buscam sem dúvida criar uma dinâmica de tensão que dê vida às forças que compartilham o governo consociado (com participação garantida de representantes das duas comunidades) da Irlanda do Norte. Governo no qual se discute hoje, com fortes discrepâncias, a proposta a ser apresentada a Londres para a transferência das competências de segurança e justiça.

O IRA Autêntico rompeu com o núcleo da organização terrorista pouco antes da assinatura dos Acordos da Sexta-feira Santa de 1998, que serviram de marco para o fim compactuado da violência. Depois de vários atentados sem vítimas, o grupo dissidente provocou pouco depois a chacina de Omagh: 29 mortos, entre eles um estudante e uma monitora espanhóis.

Aquele massacre obrigou o IRA a responsabilizar-se em certa medida por evitar que grupos dissidentes continuassem atuando. Pouco depois era detido o líder da cisão, Michael McKevitt, que seria condenado a 20 anos de prisão. E embora conste que houve alguma tentativa fracassada, até sábado passado não tinham conseguido assassinar.

Depois desse atentado ocorreu algo sem precedentes. Gerry Adams, em nome do Sinn Fein, publicou um comunicado em que expressava seu apoio à polícia na perseguição dos autores do crime. O fez com uma linguagem um tanto rebuscada e só depois de criticar o chefe da polícia da Irlanda do Norte por ter anunciado sua intenção de pedir a incorporação de uma unidade de inteligência exatamente para o controle dos grupos dissidentes do IRA. Mas o fez, e na terça-feira repetiu em termos mais claros seu número 2 e vice-primeiro-ministro principal da Irlanda do Norte e antigo chefe do IRA, Martin McGuinness.

Acabar com velhos tabus em relação à atuação policial e judicial em um estado de direito é um capítulo pendente dos republicanos defensores dos "meios pacíficos e democráticos" (Adams). Talvez um efeito imprevisto desses atentados, voltados contra o processo de paz e seus artífices tanto quanto contra os britânicos, seja contribuir para superar esse preconceito.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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