UOL Notícias Internacional
 

13/03/2009

Enfraquecido, Calderón se apoia na guerra ao narcotráfico no México

El País
Pablo Ordaz No México
Seu país horroriza o mundo com os crimes brutais do narcotráfico, seu partido despenca nas pesquisas, caem o PIB, a moeda nacional e as receitas do petróleo, sua equipe de governo lhe causa frequentes dores de cabeça e o todo-poderoso vizinho do norte já colocou no México a placa de "Estado falido", mas, apesar de tudo isso e muito mais, quando os pesquisadores - um autêntico exército neste país - perguntam aos cidadãos sobre Felipe Calderón, a resposta majoritária continua sendo de apoio e respeito. O presidente do México, que chegou ao poder em julho de 2006 por uma vantagem estreita e polêmica, está conseguindo que sua única carta, seu único discurso, o da guerra frontal ao narcotráfico, seja um encantamento suficiente para mantê-lo de pé no meio do temporal.

Objetivamente, o panorama para Calderón não poderia ser pior. Os dois grandes problemas que seu governo enfrenta - a grave situação de insegurança e a aterrissagem em solo nacional da crise econômica mundial - estão agora em seu apogeu. Nos primeiros 51 dias de 2009 já ocorreram mil assassinatos, enquanto no ano passado foram necessários 113 dias para chegar a esse número. No terreno econômico, o que Calderón e sua equipe previram como "um espirro" já está se transformando em autêntica pneumonia. Meio milhão de trabalhadores já perderam o emprego e se prevê mais um número igual até o verão. A situação é dramática se se levar em conta que o México tem 43 milhões de pobres (40% da população) e que um grande número de famílias sobrevive graças às remessas dos imigrantes - com papéis ou sem - que trabalham nos EUA e cujos empregos também tremem com a crise.

Toda essa situação endemoniada seria ainda mais difícil de manipular para o governo do direitista Partido de Ação Nacional (PAN) se também tivesse de enfrentar uma campanha eleitoral. E é exatamente o que acontece. No próximo dia 5 de julho haverá eleições. Os mexicanos irão às urnas para renovar a Câmara federal e eleger alguns governadores e prefeitos. As pesquisas dizem que o PAN perderá terreno a favor do Partido Revolucionário Institucional (PRI), que começa a se recuperar depois de perder sua hegemonia de 70 anos, em 2000.

Pelo contrário, a esquerda mexicana ainda não conseguiu superar o revés que sofreu em 2006. Seu candidato, Andrés Manuel López Obrador, chegou a estar durante a campanha 15 pontos à frente de Calderón, mas na noite eleitoral perdeu pela exígua diferença de 250 mil votos em uma jornada na qual votaram 30 milhões de pessoas. A disputa entre o PAN e o PRI será - já é - intensa, e isso começa a provocar uma situação muito curiosa, aparentemente contraditória.

Por um lado, o governo de Calderón está muito preocupado com a imagem negativa do México no mundo. Mas por outro seu partido, o PAN, está consciente de que se tem alguma possibilidade de competir com o PRI é falando sobre "a guerra de Calderón". Há algumas horas, um importante dirigente do PAN confiou em voz baixa: "Eleitoralmente, falar da luta contra o narcotráfico nos beneficia, porque estamos atacando um problema - o do imenso poder do narcotráfico - que havia aumentado à sombra do PRI. E falar da situação econômica, que a cada semana vai piorar ostensivamente, beneficia o PRI. Eles sabem disso e querem que tiremos do debate eleitoral a questão da segurança. Mas é nosso grande trunfo. Assim como eles não admitiriam deixar de falar no desastre econômico. De que falaríamos então? Com o que faríamos campanha?"

O governo está, portanto, imerso nessa grande contradição. Não lhe interessa que se fale do narcotráfico da porta para fora, mas sim no pátio nacional. A divulgação internacional das barbaridades diárias, cada vez mais truculentas, cometidas pelos cartéis do narcotráfico em sua luta pelo controle das praças já começa a ter um efeito negativo. Os EUA, por exemplo, deram instruções a seus cidadãos para que evitem viajar ao México na medida do possível e que, enquanto a situação não melhorar, escolham outros países como destino de férias. Há algumas semanas a secretária das Relações Exteriores, Patricia Espinosa, fez uma tentativa inútil de conter o fluxo inevitável de informação. Chamou os correspondentes estrangeiros para desmentir o que o exército americano havia sugerido alguns dias antes. "O México não é um Estado falido", disse a chanceler, embora em seguida tenha admitido que a situação de violência está descontrolada em seis dos 32 Estados - Baja California, Chihuahua, Sinaloa, Durango, Michoacán e Guerrero. As declarações caíram muito mal para os governadores desses Estados e no entorno do presidente.

Como se Espinosa não tivesse colocado lenha suficiente em uma fogueira que não se desejava avivar, o secretário da Economia, Gerardo Ruiz Mateos, surpreendeu em Paris com declarações que geraram grande polêmica. Disse que caso não se tivesse empreendido a luta contra o crime organizado o próximo presidente do México seria "um narcotraficante". As intervenções infelizes desses secretários - às quais se somou dias depois a demissão de Luis Téllez, secretário das Telecomunicações e Transportes, que foi gravado por uma amante despeitada dizendo inconveniências - aumentaram a imagem de solidão do presidente Calderón. Até seus colaboradores reconhecem que desde a morte trágica do anterior secretário de Governo, Juan Camilo Mouriño, seu amigo íntimo e seu delfim político, Felipe Calderón mudou sua forma de viver a presidência. Agora o faz encerrado em si mesmo e em seu único discurso: "São os narcotraficantes ou nós, não há volta atrás". Todos os dias o presidente diz a mesma frase, aqui ou acolá. É seu encantamento.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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