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14/03/2009

Lula pode ser o melhor trunfo de Obama para iniciar uma nova política com a América Latina

El País
Francisco G. Basterra
A América Latina surge timidamente com um pequeno brilho no radar da presidência Obama. Ao mesmo tempo, os enviados dos grandes do mundo, seus ministros da Economia e os presidentes dos Bancos Centrais, estarão no sábado em Londres para preparar a importante reunião do G20 ampliado de 2 de abril próximo. Nessa data o presidente dos EUA estará em pessoa na Europa, o continente que suspira por ele.

Mas também neste sábado Obama recebe em Washington o primeiro presidente latino-americano desde que chegou à Casa Branca, há 52 dias. E o escolhido não é o México. O carismático presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, é o primeiro interlocutor do presidente da reforma dos EUA. O Brasil, por seu peso econômico - tem muito petróleo -, sua solidez institucional, sua capacidade de ser respeitado no hemisfério, pode ser o melhor trunfo de Obama para iniciar uma nova política de compromisso com a América Latina.

A mensagem que Lula leva à Casa Branca é tripla. Brasília não crê no modelo tradicional das relações entre o sul e o norte do continente, em que cada país constrói sua relação bilateral com Washington. Embora não seja partidário de que a América Latina jogue como um bloco único, que não é, está promovendo uma maior multilateralidade.

Em segundo lugar, Lula está convencido de que as melhores relações dos EUA com a América Latina passam por uma abertura com Cuba. Em consequência, a questão cubana não é um assunto que deve ser resolvido só entre Washington e Havana. É um assunto hemisférico que compete a toda a América Latina. A mensagem é clara: senhor Obama, vamos tirar Cuba do isolamento, ela deve voltar à OEA de onde foi expulsa, reintegrando-se à comunidade latino-americana. Mas o senhor tem de nos ajudar, atenuando ou suspendendo o embargo.

O presidente deu um passo insuficiente ao favorecer as viagens dos cubano-americanos a Cuba. Em meados de abril Obama irá à ilha de Trinidad (Caribe) para a Cúpula das Américas. Cuba não estará presente este ano, mas Washington vai aproveitar a oportunidade para apresentar sua política latino-americana, que, previsivelmente, passará em médio prazo por contatos diretos com o governo de Raúl Castro. Sem condições prévias, como pede Raúl?

Antes de voar para Washington, o presidente brasileiro declarou que "não podemos fazer política no século 21 baseando-nos no que ocorreu no século 20", em uma clara referência ao embargo. Obama não pensa de maneira muito diferente. Nos EUA calou a idéia de que o embargo, e não bloqueio, que só existiu durante a crise dos mísseis de 1962, decretado por Eisenhower em outubro de 1960, depois da nacionalização por Fidel sem qualquer indenização dos interesses econômicos americanos na ilha, é uma torpeza humanitária e estratégica que não serviu para promover a democracia.

Obama nem tinha nascido quando foi decidido. Em terceiro lugar, Lula, a pedido de Hugo Chávez, apresentará a Obama o desejo da Venezuela de se aproximar de Washington. É importante essa passagem de Lula por Washington, onde não esquecerá de advertir contra o protecionismo, porque o líder brasileiro se sentará com Obama em Londres na cúpula do G20, não só como representante do Brasil mas como porta-voz dos países emergentes em desenvolvimento.

Não está ruim esta primeira aparição da América Latina na política externa nascente de Obama, sobretudo levando-se em conta que está longe das prioridades do novo presidente. Barack tem bastante para responder à pergunta, já formulada por Vargas Llosa a Zavalita, sobre o Peru, em sua novela "Conversa na Catedral: Quando o capitalismo se f...?" E, sobretudo, tirar conclusões e agir com decisão e rapidez para deter a brutal recessão mundial. E fazê-lo concertadamente com a Europa, a quem Washington solicita mais madeira para queimar no resgate bancário. A Europa não vê as coisas tão claras e pensa em quem vai pagar a conta futura do acúmulo dos déficits públicos se continuar atirando dezenas de bilhões de euros em estímulos fiscais.

Também esta semana o Banco Mundial decretou estatisticamente que o mundo em 2009 entrou em sua primeira recessão planetária desde o final da Segunda Guerra Mundial. Me impressionou, por seu realismo, a afirmação do ministro holandês das Finanças, de que pela primeira vez desde 1945 temos uma geração que duvida seriamente se a próxima viverá melhor que ela. Imaginam Solbes dizendo algo semelhante? Apesar de a vice-presidente Fernández de la Vega ter metido o dedo no olho da equipe econômica de Zapatero: "Mas não percebem o que está acontecendo?"

Os sinos dobram por nós, por nosso sistema de vida, pela arquitetura mundial fabricada exclusivamente por e para o Ocidente. Esse sistema herdado do pós-guerra de 1945 está esgotado, e talvez uma das oportunidades derivadas da atual recessão/ depressão possa ser a reinvenção de outro, novo, não tributário do século passado, que desta vez deverá levar em conta os outros: Brasil, Índia, África do Sul... Instituições que reflitam a nova globalidade. Ao que se deveriam somar líderes globais, só me ocorre Obama, e um novo pensamento que entenda a possibilidade de que surjam cisnes negros.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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