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18/03/2009

Ataque a ex-vice-presidente da Bolívia desperta preocupação em ano eleitoral

El País
Maite Rico Em Madri
Quando a multidão invadiu sua casa, Lidia Katari e seus filhos se refugiaram em um quarto no andar superior. De repente tudo se encheu de fumaça. "Eu disse: se não sairmos seremos queimados. Ao sair, nos deram chicotadas, pauladas e pedradas." O pecado de Lidia, que teve de ser hospitalizada, foi ser a esposa de Víctor Hugo Cárdenas, ex-vice-presidente da Bolívia. E o pecado de Cárdenas, um aimara, intelectual respeitado e pioneiro na luta pelos direitos indígenas, foi ter "traído sua raça" e ter pedido a rejeição da Constituição promovida pelo presidente Evo Morales, aprovada em referendo em janeiro.

A casa, saqueada há dez dias, continua em poder dos agricultores, que aplicaram a Cárdenas a "justiça comunitária" e o expulsaram do povoado de Sankajahuira, a 90 km de La Paz. O pedagogo indica com nomes e sobrenomes dirigentes do Movimento Ao Socialismo (MAS), partido no governo, que utilizam organizações sociais afins como grupos de choque e disfarçaram uma represália política sob a acusação nebulosa de "descumprimento de usos e costumes" indígenas.

O ataque disparou os alarmes na comunidade internacional, preocupada com uma série de incidentes contra os opositores bolivianos em um ano eleitoral - haverá eleições presidenciais em dezembro próximo - e em um momento em que o governo se viu sacudido por um grave escândalo de corrupção na companhia de petróleo estatal YPFB.

O escritório da ONU na Bolívia exigiu a condenação dos responsáveis pelo ataque a Cárdenas. A França definiu o ex-vice-presidente como "um grande amigo" e expressou sua "comoção" pelo ocorrido. Cerca de 20 embaixadores se reuniram na última quinta-feira (dia 12) com o presidente do Senado, o conservador Óscar Ortíz, para receber informações em primeira mão. "Vivemos em um clima de assédio", afirma Ortíz por telefone. "Além de Cárdenas, a deputada Marlene Paredes foi expulsa a golpes de sua comunidade na região de Los Yungas depois de romper com o MAS. Vários legisladores que investigam os escândalos de corrupção do governo foram ameaçados ou sofreram represálias, como Luis Vázquez e Walter Guiteras, do Podemos, ou Arturo Murillo, da Unidad Nacional."

E alguns dirigentes sociais do MAS, acrescentou o presidente do Senado, avisaram que invadirão outras casas, entre elas a do escritor e jornalista Carlos Mesa, que presidiu a Bolívia entre 2003 e 2005, e cujo ânimo conciliador não conseguiu aplacar os protestos liderados por Morales. "Começamos a viver a estratégia do medo e uma infração muito perigosa de direitos e garantias civis", afirma Mesa. "Evo Morales está destruindo o estado de direito."

Carlos Mesa e Víctor Hugo Cárdenas têm algo em comum, além de ter sido governantes da Bolívia. Os dois "estão pensando" em apresentar sua candidatura nas eleições de dezembro. "O governo tenta dissuadir a concorrência eleitoral", diz o senador Ortíz.

A resposta ambivalente do governo e as agressões aguçam a preocupação. "Ao mesmo tempo que os líderes bolivianos se distanciam da turba e criticam a violência, suas declarações públicas sugerem que os ataques podem ter sido justificados", afirma José Miguel Vivanco, da Human Rights Watch.

A primeira reação oficial foi culpar Cárdenas e acusá-lo de vitimismo. "Ele terá de se perguntar que mal terá feito a seus vizinhos para que o repudiem", disse o vice-presidente Álvaro Garcia Linera. E Evo Morales sugeriu que o ex-vice-presidente resolva "seus problemas com a comunidade" e o acusou de ter mudado de sobrenome. Cárdenas lembrou que seu pai teve de esconder seu sobrenome, Choquehuanca, nos anos 1940, para poder estudar topografia. Mas se há alguém com uma trajetória comprometida com os direitos indígenas, concordam todos os analistas, é Víctor Hugo Cárdenas, promotor do sindicato de agricultores, da educação bilíngue, da Lei de Participação Popular, que concedeu autonomia aos municípios, e da devolução das terras comunitárias de origem. E, ao contrário de Evo, lembram, Cárdenas fala aimara e quíchua.

"Cárdenas é o símbolo da inclusão indígena, e por isso Sánchez de Lozada o incorporou como vice-presidente ao seu primeiro governo (1993-1997)", afirma o jornalista Juan Carlos Rocha. "Tem um discurso integrador, nas antípodas do confronto indigenista que agrada muito às classes médias mestiças e é visto com simpatia em Santa Cruz e nas regiões autonomistas." Por isso se perfila como um sério adversário para Evo Morales.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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