UOL Notícias Internacional
 

19/03/2009

China e Índia disputam o Índico

El País
Andrea Rizzi Em Madri
Pequim organiza sua proteção com a estratégia do "colar de pérolas", formado pelo estabelecimento de bases, instalações comerciais e portos

Nos mapas eurocêntricos, o oceano Índico costuma chamar muito menos a atenção do que o Atlântico. O Pacífico, embora apareça entrecortado, sempre impressiona por sua imensidão. No entanto, o Índico é a massa de água sobre a qual as potências mundiais mais estão tentando projetar sua influência. A tomada de posições na região provoca atritos entre os principais atores, e um incidente naval protagonizado por um navio militar americano e cinco navios chineses evidenciou na semana passada que Pequim não está disposta a aceitar o "status quo" nas águas da Ásia Meridional.

Pelo Índico transitam 70% do tráfego mundial de petróleo. Todos os recursos do Oriente Médio e da África que alimentam o crescimento da Índia e da China passam por ali, assim como grande parte das exportações dos dois gigantes asiáticos. Conscientes da relevância estratégica da região e de suas rotas comerciais, Pequim e Nova Déli estão promovendo uma significativa potencialização de suas forças navais. A China, além disso, está há anos desenvolvendo sem clamores uma política que parece inspirada no histórico exemplo da República de Veneza, batizada como o "colar de pérolas": uma série de bases, instalações comerciais e portos situados no arco superior do Índico e concebidos para melhorar o controle das águas da região e a proteção do comércio. A Índia observa com receio o que alguns interpretam como um encurralamento.

Às inevitáveis fricções com o vizinho indiano, Pequim acrescentou a incomum diatribe com Washington. O incidente nas águas do mar do Sul da China foi qualificado pelo diretor da Inteligência Nacional dos EUA, Dennis Blair, como o choque bilateral "mais grave dos últimos oito anos". "A China parece estar adotando uma atitude mais agressiva, mais militar", disse Blair, ao comentar o episódio no Senado americano.

O assunto causou certo tumulto. Washington emitiu um protesto oficial diante da "agressão" sofrida por seu navio, uma embarcação de prospecção de submarinos que navegava a cerca de 75 milhas da importante base naval chinesa de Yulin, na ilha de Hainan. Pequim, que tem submarinos nucleares nessa base, rejeitou as acusações, alegando que negou passagem ao navio americano porque havia violado seu espaço marítimo; oficiais chineses chamaram os americanos de "vilões". Alguns dias depois, segundo publicou o jornal em inglês "China Daily", o presidente Hu Jintao chamou seus militares para "defender firmemente" os interesses nacionais. O jornal também repercutiu pouco depois a intenção da cúpula militar chinesa de dotar sua frota de porta-aviões, que atualmente não possui.

E no fim de semana passado os EUA enviaram um destróier à região para proteger o barco assediado. "A projeção da China no Índico é motivada pela imperiosa exigência de proteger e facilitar a importação dos recursos energéticos necessários para apoiar seu crescimento", afirma Robert Kaplan, pesquisador do Centro para uma Nova Segurança Americana, em uma conversa por telefone. "Este é um objetivo que a China perseguirá com todas as suas forças", acrescenta Kaplan, que está escrevendo um livro sobre o oceano Índico e acaba de publicar uma ampla análise sobre sua relevância na revista "Foreign Affairs".

Por isso Pequim, por um lado, não tolera mais certas manobras americanas em águas da Ásia Meridional e, por outro, concentra seu crescente esforço militar na armada. "Na próxima década, a frota militar chinesa terá mais navios que a americana. O Pentágono conservará a superioridade tecnológica, mas no mar os números são importantes", diz Kaplan. Nos últimos anos Pequim adquiriu, entre outros, oito submarinos de fabricação russa.

"É verdade que a China, como a Índia, vem investindo de maneira bastante maciça em forças navais", opina Jason Alderwick, especialista do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, em Londres. "Mas será preciso ver como a crise afetará essas ambições. Em todo caso, mesmo que a China conseguisse ter um porta-aviões nos próximos dez ou 15 anos e aumentar seu número de navios militares, não creio que possa anular a distância dos EUA. Estão a gerações de distância."

Se o orçamento militar chinês cresce continuamente a índices entre 15% e 18%, ainda mais ambicioso é o plano do "colar de pérolas". "A China avança nessa estratégia de maneira inexorável, metódica", diz Kaplan. Isso naturalmente implica um profundo trabalho diplomático de estreitamento de relações com os países da região, e um importante desembolso econômico para a construção de infra-estruturas como o porto de Guadar, no Paquistão. Situado a pequena distância do estratégico estreito de Ormuz, o gigantesco projeto se baseia em financiamento e engenharia chineses. Para contemplar a importância dessa pérola, o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, foi visitá-la quando se concluiu a primeira parte do projeto. As obras continuam.

Outras pérolas estão em fase de planejamento, construção ou acabadas em vários países da região, como Sri Lanka, Bangladesh e Mianmar (antiga Birmânia), cujas costas a China pretende interligar com sua província de Yunnan.

O esforço e o investimento indianos também são importantes. Nova Déli pretende acrescentar à sua frota três porta-aviões e três submarinos nucleares até 2015. Mas os EUA, com seus muitos aliados, continuam sendo o principal fator de segurança na região, embora Pequim não pareça disposta a permanecer em um papel secundário.

Mas, além de quem teve a razão jurídica, o incidente da semana passada é uma mensagem nova e clara. "Os americanos consideram sua conduta legítima, mas a China parece tê-lo vivido como um desafio a sua autoridade", diz Alderwick. Além dos fatos, "há uma lógica eminente por trás da política chinesa. Pequim precisa proteger linhas de abastecimento vitais. Creio que, fundamentalmente, o que estão fazendo é legítimo. Não é nada que os EUA não tenham feito a partir de 1946", conclui Alderwick.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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