UOL Notícias Internacional
 

19/03/2009

Circo antirracista

El País
Lluís Bassets
O racismo, a xenofobia, a discriminação racial e a intolerância costumam pegar com mais força na época das vacas magras. Por isso é um amargo sarcasmo observar como o combate a essas pragas se transforma em instrumento dos mais baixos interesses políticos por parte de alguns países que utilizam essas bandeiras antirracistas para cobrir as vergonhas de seus regimes despóticos e transferir para outros as responsabilidades de seus tropeços e desmandos. Já vimos isso em muitas ocasiões, mas hoje estamos novamente embarcados em mais um grande circo internacional no qual serão discutidos esses temas, para terminar, com toda probabilidade, em uma briga propagandística que em nada aliviará a discriminação e a exclusão que sofrem centenas de milhões de pessoas no mundo e servirá, em todo caso, para debilitar os esforços para encaminhar novamente a paz no Oriente Médio.

De 20 a 24 de abril se realizará em Genebra uma Conferência Internacional contra o Racismo, a Xenofobia e a Intolerância, organizada pela ONU e destinada a revisar as conclusões de outra reunião, que se realizou em Durban (África do Sul) em 2001. Se conferências anteriores desse tipo, como as de 1978 e 1983, se concentraram na condenação do desaparecido regime racista da África do Sul e seu sistema de "apartheid", em Durban foi Israel o país que se transformou no alvo de quase todos os ataques e debates, ao ponto de que o fórum paralelo de organizações não-governamentais transformou o acontecimento em ocasião para identificar o sionismo com o racismo.

As condenações e reparações pela escravidão sofrida pelos povos da África também foram então objeto de acirrados debates, nos quais representantes de regimes despóticos africanos puderam apontar o dedo aos países democráticos ocidentais como culpados por esse passado mais que centenário. A nova reunião acrescentou um tema a essa agenda de agravos frequentemente unidirecionais contra os países europeus, EUA e Israel: a Conferência Islâmica está tentando conseguir algum tipo de resolução de condenação "da difamação contra todas as religiões e em particular o islã e os muçulmanos".

Deve-se salientar o esforço da diplomacia da ONU para tirar das resoluções finais dessas conferências as expressões mais ofensivas ao senso comum e inclusive à proporção e à equidade. Boa parte das mais inflamadas denúncias costumam vir de ditaduras inapresentáveis, que são tratadas com compreensão e benevolência por muitos membros da ONU. Mas o efeito público dessas conferências, organizadas por iniciativa da Assembleia Geral da ONU, e com visível destaque de representantes de países tão pouco exemplares como Cuba, Líbia ou Irã, não pode ser mais nefasto.

De seu comportamento tão pouco edificante os neoconservadores que cercavam Bush puderam deduzir sua generalizada aversão a tudo o que saísse da ONU e sua declarada vontade de transformá-la em uma instituição irrelevante. Israel e EUA abandonaram a reunião de Durban em 2001, para não ser cúmplices daquela tumultuada manipulação do antirracismo. Agora o novo governo de Barack Obama também declarou sua intenção de não participar da reunião em Genebra, depois de um primeiro teste em que Washington pôde comprovar a inconveniência política de sua participação.

É um triste paradoxo que os EUA, país com uma longa e profunda história de racismo nas costas, não jogue um papel de destaque no ano em que pode exibir precisamente seu novo presidente, saído de sua comunidade secularmente discriminada. Provavelmente é o que exige sua política para o Oriente Médio, que não o impedirá em troca de participar da reunião da Aliança de Civilizações com Erdogan e Zapatero em Istambul no início de abril, porque além disso lhe serve de contra-exemplo: atuando sobre o mesmo registro de problemas, quer estender pontes onde os outros cavam trincheiras.

Atrás dos EUA e Israel, já declararam sua ausência Canadá, Austrália e Itália. A atitude do governo de Berlusconi é especialmente curiosa, pois contrasta com um empenho para estar que manifestou um Estado tão amigo e tão romano quanto o Vaticano: provavelmente porque lhe interessa contar no debate sobre a luta contra a difamação das religiões promovida no mundo islâmico.

A UE em seu conjunto também está tentada pelo abstencionismo em Genebra. E já que nem os EUA nem a UE puderam evitar o sequestro da conferência antirracista por regimes pouco recomendáveis, mais preocupados e ativos deveriam estar pela formação em Israel de um governo que não aceita a fórmula, aprovada inclusive por Bush, de dois Estados convivendo em paz e segurança e pela chegada de um político partidário da limpeza étnica, como Avigdor Lieberman, ao ministério das Relações Exteriores israelense, questão que por si só constitui um obstáculo a qualquer interlocução séria e dá uma boa ração de carniça à fera.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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