UOL Notícias Internacional
 

20/03/2009

Caos transforma Somália em um Estado inexistente

El País
Ramón Lobo Em Madri
Osama bin Laden não gosta do novo presidente da Somália, o xeque Sharif Sheikh Ahmed, um islâmico moderado que desde janeiro conta com o apoio dos EUA e da Etiópia, apesar de ter sido combatido em 2006 quando dirigia a União de Tribunais Islâmicos (UTI). Bin Laden pede em uma fita gravada que ele seja derrubado "por colaborar com o infiel", isto é, a ONU, que tenta reconstruir um Estado inexistente desde 1991. Do caos surgem os piratas que atacam barcos em águas internacionais e os grupos ligados à Al Qaeda, como o Al Shabab, milícia que domina a zona meridional do país e o sul de Mogadíscio.

Abdurashid Abdulle/AFP - 19.mar.2009 
Militante islâmico guarda posição em Mogadíscio, capital da Somália

Washington demorou dois anos e uma mudança na Casa Branca (Barack Obama) para entender os matizes, que a única forma de combater os radicais são os próprios islâmicos; hoje distingue entre bons e maus. A reação de Bin Laden demonstra que a aposta é séria. Funcionou no Iraque (quando os EUA compactuaram com a rebelião sunita), pode funcionar na Somália e no Afeganistão: olhos que saibam quem é o inimigo.

Fracassada a opção dos chamados senhores da guerra laicos apoiados pela Etiópia, a aposta é no xeque Sharif Sheikh Ahmed. Em sua ascensão cuidaram-se dos detalhes: coincidiu com a saída do último soldado etíope, com o Al Shabab arrebatando sua grande arma propagandística, a luta contra o invasor. Agora o novo presidente se dispõe a dar um segundo golpe: introduzir a xariá (lei islâmica), mas em uma versão moderada que permita o cinema e não obrigue as mulheres a cobrir-se totalmente. Na última vez em que a UTI introduziu a xariá foi a desculpa para que se ativasse a máquina de guerra que os expulsou do poder em dezembro de 2006.

Em um território onde não existe Estado desde a derrubada de Siad Barre, em 1991, ninguém se ocupa de contar os mortos. São dezenas de milhares nos últimos 18 anos. A UTI foi a resposta à ausência de lei. A religião se transformou em um sinal de identidade que apagou o labirinto de clãs, subclãs e sub-subclãs que destruiu o país. O êxito em 2005 dos sete primeiros tribunais baseados na xariá (o atual presidente foi responsável por Jowhar) os ajudou a se ampliar, coligar-se e criar uma poderosa milícia própria. Embora os tribunais tenham levado em junho de 2006 a paz a Mogadíscio, onde as pessoas voltaram a passear, a Casa Branca não interrompeu a pressão e o setor mais radical tomou o controle do movimento.

Encorajados pelos sucessos contra os laicos, cometeram erros garrafais: o principal, atacar em dezembro de 2006 as tropas etíopes que protegiam o governo provisório (senhores da guerra), dando a desculpa para invadir. Houve outras decisões que irritaram a população: proibição do cinema, o kat (droga local) e sobretudo a das transmissões de partidas de futebol quando começava a Copa da Alemanha. Houve distúrbios; pelo futebol, não pela falta de Estado.

A missão do xeque Sharif Sheikh Ahmed, um poliglota educado na Líbia, parece titânica, pois quase não tem poder real. Ao norte estão a Somalilândia, que atua como um Estado quase independente (foi colônia britânica, diferentemente do resto, que foi da Itália) e a Puntlândia, uma autonomia da qual atuam muitos piratas. O sul e a metade da capital estão nas mãos do setor radical da UTI, chamado Asmara pelo apoio da Eritréia e do Al Shabab.

O xeque Ahmed vai necessitar de um pouco mais que leis; precisa de muito dinheiro para pacificar suas zonas de influência e demonstrar capacidade de governo para atrair apoios. Sem soldados etíopes, o novo presidente conta com o apoio das tropas da União Africana em uma missão aprovada pela ONU. São a única expressão de autoridade que não respeitam os radicais: em fevereiro morreram 11 burundineses em um ataque do Al Shabab.

A Somália não é sequer um Estado falido; é um Estado inexistente. A comunidade internacional se preocupa com os piratas que capturam seus barcos (a conseqüência do caos), mas ninguém se interessa pelas causas: a miséria e a corrupção, que são os motores da guerra.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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