UOL Notícias Internacional
 

25/03/2009

O narcotráfico se instala em Guiné-Bissau

El País
Francesc Relea
Depois do assassinato do chefe do exército, militares leais a ele mataram o presidente. Um dos dez países mais pobres do planeta se vê nas mãos de traficantes que enviam droga para a Europa

Carmelita Pires, responsável pelo plano de combate ao narcotráfico em Guiné-Bissau, adverte há tempo que o narcotráfico tenta comprar o poder político em seu país. "O Estado não vive do dinheiro da droga, mas há gente importante que vive da droga", explica, em conversa por telefone de Bissau. Pires foi ameaçada de morte devido a seu pulso firme contra o narcotráfico. Diversos observadores chamam Guiné-Bissau de "narcoestado", transformada pela força dos fatos em uma plataforma para o recebimento e armazenamento de droga que vem da América e sua posterior distribuição na Europa, como advertiu a própria ONU.

As palavras da responsável pelo plano de combate ao narcotráfico ganham toda a sua importância depois do trauma vivido pelo país africano há três semanas, quando foram assassinados sucessivamente o chefe do Estado-Maior do exército, Batiste Tagmé na Waié, e o presidente da República, Nino Vieira, em um aparente acerto de contas não alheio aos interesses do tráfico de drogas. Depois da morte do chefe do exército, militares leais a este mataram o presidente Vieira.

Antes de seu cargo atual, Carmelita Pires foi ministra da Justiça. Toda essa trajetória a fez viver na primeira fila os golpes do poder obscuro que açoita seu país. Por exemplo, quando era ministra teve um papel destacado na investigação sobre o caso de dois aviões que aterrissaram em Bissau em julho de 2008 com uma carga de 500 kg de cocaína. Os dois tripulantes da nave que transportava a droga, mexicanos com passaportes venezuelanos, e três guineenses foram detidos. Depois de intensas pressões o caso foi arquivado judicialmente por falta de provas, quando as autoridades mexicanas já tinham solicitado a extradição do piloto, Carmelo Vázquez Guerra, ligado ao cartel de Sinaloa e envolvido em um caso anterior de transporte de cocaína no México. O juiz guineense decretou a liberdade de Vázquez Guerra alegando que havia expirado o prazo de detenção provisória. E o suspeito, naturalmente, desapareceu. Nada se pode averiguar sobre a rede de cúmplices que ele tivesse em Guiné-Bissau, onde a presença de colombianos é mais que ostensiva.

"Eu sempre disse que não pode haver estrangeiros sem conexões locais", salienta a ex-ministra Carmelita Pires. As autoridades da Guiné pediram o apoio da Interpol, da agência antidrogas americana (DEA) e do FBI. Em vista do arquivamento do caso não se pode dizer que o pedido de apoio lançado por Bissau tenha servido para muita coisa.

"Senti uma grande frustração quando os detidos foram libertados", lembra Pires. Essa mulher corajosa não atira a toalha: suas suspeitas, assim como seus temores, são hoje mais sérios que nunca, mas ela não deixa o país. "Estou aqui e daqui não vou sair. Minha segurança é muito precária. Aqui não sabemos quem é quem. E não sabemos o que pode acontecer. Nem qual é a força dos cartéis."

Guiné-Bissau precisa com extrema urgência de uma reforma profunda das forças armadas como primeiro passo para conseguir uma governabilidade mínima. O consenso nesse ponto é unânime na ONU e também entre os vizinhos desse pequeno e tumultuado país da África Ocidental, onde três chefes do Estado-Maior foram assassinados sem que a justiça pudesse esclarecer nenhum dos crimes.

Informações obtidas em Bissau indicam que o sofisticado artefato ativado por controle remoto utilizado no atentado contra Tagmé não faz parte dos arsenais militares guineenses. Fabricada na Tailândia, a bomba só está ao alcance de uma organização com certo poder: um cartel da droga, por exemplo. Antes de sua morte, o general Tagmé havia descoberto 200 kg de cocaína escondidos em um hangar do Estado-Maior, segundo revela um oficial guineense sob a exigência de anonimato. O general ordenou imediatamente abrir uma investigação, que até agora não deu nenhum resultado.

Esquecido entre os dez países mais pobres do planeta, com 1,5 milhão de habitantes, Guiné-Bissau tem um Estado frágil e incapaz, que não pode exercer sua autoridade nem defender as dezenas de ilhas que formam o arquipélago de Bijagos, por onde entra impunemente a cocaína transportada por mar desde o continente americano. Dali a droga segue seu curso para a Europa por terra, mar ou ar, segundo o caso.

As mortes do presidente e do chefe do exército de Guiné-Bissau também semearam o alarme entre os países vizinhos da costa ocidental africana. O Senegal propôs uma conferência internacional sobre a situação guineense; o primeiro-ministro de Cabo Verde, José Maria Neves, disse que Guiné-Bissau se encontra diante de sua última oportunidade de sobreviver como Estado viável; e escutam-se novamente vozes que o descrevem como primeiro narcoestado da África. Luiz Amado, ministro das Relações Exteriores de Portugal - a antiga metrópole -, salienta que as forças armadas de Guiné-Bissau devem encontrar uma via de reforma e de estabilidade, que permita pôr fim a dez anos de "sobressaltos".

O país não conseguiu se recuperar das feridas da última guerra civil de 1998, e a situação econômica é pior do que antes da explosão daquela luta. É o que reconhece o embaixador de Guiné-Bissau em Lisboa, Apolinário Mendes Carvalho, ao fim de uma reunião da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) para tratar da crise guineense. O problema das forças armadas é endêmico. Para começar, ninguém sabe com certeza o número de membros da milícia: oficialmente são 4 mil homens, mas algumas fontes falam em 10 mil. "Seria preciso demitir a metade, no mínimo", afirma o embaixador. Mas sem dinheiro para pagar aposentadorias um corte drástico nas fileiras militares seria pior remédio que a doença. Onde iriam parar os militares treinados no uso das armas? "A fragilidade do Estado abriu a porta para o narcotráfico", reconhece o embaixador Mendes Carvalho.

Sem ajuda internacional não é possível pensar em uma reforma militar nesse país. Mas esta não chega. Guiné-Bissau recebeu ajuda para a realização de eleições - as últimas custaram € 4 milhões -, mas não para as três grandes prioridades do país: reforma das forças armadas e do aparelho de segurança, redução da pobreza e combate ao narcotráfico. "Muitos prometeram, mas quase nada chegou. A cooperação espanhola foi uma honrosa exceção", acrescenta o embaixador. E em breve deveriam se realizar novas eleições para a presidência de Guiné-Bissau.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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