UOL Notícias Internacional
 

27/03/2009

Colonos se fortalecem no exército israelense

El País
Juan Miguel Muñoz Em Jerusalém
A extrema-direita religiosa que considera a Cisjordânia e Gaza terras bíblicas concedidas por Deus aos judeus consolida seu poder nas forças armadas

Era uma centena de soldados. Deixaram a sala no instante em que uma jovem colega de armas subiu ao palco. A Halaja, a lei judia, proíbe escutar o canto de uma mulher. Aconteceu no início de março. Na próxima semana será inaugurada em uma base militar do deserto de Negev um hotel para oficiais casados, suas famílias crentes e rabinos. A penetração da extrema-direita religiosa - alimento dos colonos, que consideram a Cisjordânia e Gaza terra outorgada por Deus aos judeus - e a influência dos rabinos sionistas no exército israelense são incontíveis. Imbuídos de uma ideologia messiânica, se fortalecem ao compasso da crescente evasão ao serviço militar e da necessidade de recrutar jovens motivados.

É uma tendência que terá consequências na hipotética suposição de que se chegue a um acordo de paz com os palestinos. Quem evacuaria os colonos da Cisjordânia? Já surgiram surtos de desobediência. Em um desalojamento em Hebron em agosto de 2007, 12 dos 40 militares que deveriam participar se negaram a cumprir as ordens. Na evacuação de colonos de uma casa nessa cidade em dezembro, foi a polícia de fronteiras quem se encarregou da operação.

Os asquenazes clássicos - judeus procedentes da Europa - formaram a espinha dorsal do Tsahal (exército israelense) durante 30 anos. Quase não se viam quepás nas cabeças dos uniformizados. Mas o Estado fundado sobre bases socialistas deixou lugar para o liberalismo, e a mudança no exército se acomodou à transformação social. Nem mesmo os especialistas podem dar números precisos sobre a composição do exército. São dados secretos. Mas basta observar qualquer grupo de soldados que pululam pelas ruas para comprovar que os crentes abundam. Nas unidades de combate, com presença permanente na Cisjordânia ocupada, são cada dia mais poderosos.

Yagil Levy, professor de ciências políticas na Universidade Aberta de Israel, afirma: "Pelo menos 10% dos soldados dessas unidades procedem das mechinot (academias militares com 50% de graduados crentes) e das hesder yeshivas", as 45 escolas que combinam os estudos talmúdicos com o serviço militar. "Há muito mais religiosos além desses 10%, mas estes são os mais organizados e mantêm vínculos com os rabinos que puseram seus pés no exército, o que fomenta uma colisão entre a hierarquia religiosa e a militar." "Houve planos para dispersá-los, mas os rabinos se opuseram", acrescenta. "Ameaçaram transformar esses soldados em ultra-ortodoxos", um setor isento do serviço militar se demonstrar que estuda em uma escola religiosa, embora também existam unidades especiais para eles.

Pela primeira vez o rabino-chefe do exército, Avichai Rontzki, é um colono. "O exército nunca bloqueou os religiosos, mas até os anos 1980 os rabinos acreditavam que nas unidades de combate, que podem passar três semanas na Cisjordânia ou no Golã, os jovens crentes podiam ser expostos a experiências seculares", acrescenta Levy. "Esta não era a atmosfera adequada para um fiel praticante." Hoje é diferente.

Antes da guerra de Yom Kipur em 1973, a evacuação dos territórios ocupados não estava na agenda. Hoje tem uma missão ideológica: proteger Eretz Israel. Na Cisjordânia os colonos formam as unidades de reservistas que protegem os assentamentos, e são um bom número entre os soldados regulares da brigada Kfir, mobilizada nesse território. A distinção entre colonos e militares se esfuma. São em grande parte os encarregados das contínuas batidas na Cisjordânia, acompanhadas muitas vezes de violência gratuita contra os palestinos. Mas são imprescindíveis, dado a crescente recusa dos jovens de classe média-alta que cresceu até 5%: alegam doenças psicológicas.

"O Estado-maior não faz quase nada. Cada vez se veem mais comandantes de batalhão e de brigada que são religiosos", afirma o professor. Motivação é a palavra-chave. "O chefe do Estado-maior, Gaby Ashkenazi, entende muito bem que sem a grande motivação dos soldados religiosos podemos fechar a barraca", explica Levy.

Do governo, o bombardeio sobre os perigos que se fecham sobre Israel é cotidiano. Analistas e ex-políticos discordam. "As pessoas se sentem mais seguras, a sensação de ameaça diminui e a necessidade de sacrifício decai", afirma Levy. "Esses processos provocam um declínio da motivação e ao mesmo tempo há mais motivação entre outros grupos: beduínos e drusos, ultra-ortodoxos e mulheres, que têm mais opções de ingressar em unidades de combate. Não é que o exército tenha se tornado mais liberal, é que nos anos 90 perceberam que precisavam delas." Mas ninguém ganha em fervor patriótico dos colonos uniformizados.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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