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28/03/2009

O "single" volta a ser um simples solteirão

El País
Amanda Mars
A opção por viver só que prolifera em tempos de bonança vive horas sombrias na Espanha. O desemprego e as dificuldades lhe tiraram todo o encanto

Sua comida estraga na geladeira. Não tem parceira, vive em uma cidade e tem um trabalho que lhe permite se autossustentar. Os americanos, que rebatizam tudo, disseram há cinco anos que não era um solteirão, mas um "single", que os homens eram metrossexuais e as mulheres "freemales" (livres ou sem homens). Disseram que você era o menino bonito do departamento de marketing de qualquer multinacional, porque gastava 40% a mais que um membro de qualquer família. Que é hedonista, porque como não tem ninguém que dependa de você viaja várias vezes por ano e costuma jantar fora toda semana. Que há 18 anos seu grupo representava 13% da população espanhola e hoje já são 22%, até 3,5 milhões de domicílios. Que você ia comer o mundo.

Mas a crise não perdoa, e ser single hoje na Espanha é mais difícil. Os sozinhos - ou "ímpares", como se costuma traduzir na Espanha - não sofrem a crise mais que os outros. Mas a sofrem. Há 155.700 lares formados por uma só pessoa que está desempregada, 74% a mais que um ano atrás. O número dos que procuram companheiros para dividir apartamento, segundo alguns portais da internet, quase duplicou. O crescimento de domicílios unipessoais, depois de um aumento trepidante, está sendo freado. E as separações, essa fábrica de singles que trabalhou a pleno vapor com o divórcio expresso, agora baixou o ritmo, devido ao fim desse efeito e também à crise econômica. Sim, seu consumo é o que melhor aguentou o ritmo no ano passado.

"É que o fenômeno do single foi algo econômico na Espanha. Vivemos dez anos de quase pleno emprego, em que as pessoas puderam empreender projetos individuais e os levaram a sua máxima expressão social. Depois de ter sido estigmatizado, houve certa glorificação do solteiro, a imagem de que tinha o mundo a seus pés", reflete o professor de marketing do IESE José Luis Nueno, especialista em análise de consumo.

Patricia F. recusa o rótulo que as consultoras de consumo decidiram lhe colocar. Embora por suas condições de vida seja uma single típica. Solteira, com 40 anos e 12 de experiência no setor, a empresa de informática em que trabalhava deu uma sacudida em sua equipe e em janeiro passado decidiu dispensá-la. Patricia ganhava € 3 mil brutos por mês e podia morar sozinha em um apartamento alugado em Barcelona. "Porque com o desemprego não tenho nem para a metade dos meus gastos. Cortei tudo: saía para jantar fora no mínimo duas vezes por semana e agora só saio se for a uma festa em casa de amigos. Não sou de comprar muita roupa, mas quando gostava de algo não precisava pensar. Em momentos assim você trabalha para si mesma, vive como lhe apetece, mas agora não", resume essa diplomada em filosofia e sociologia, dentro de sua nova economia de guerra.

Em vez de morar sozinha, passou a buscar um companheiro de apartamento para ajudar a pagar os € 600 de aluguel. "Mas isso também não é tão fácil como antes, porque agora há muita gente alugando quartos vagos para pagar a hipoteca, e os preços baixam", afirma.

Idealista.com, um dos portais da internet com mais usuários em busca de moradias, confirma isso com números: sua oferta de apartamentos compartilhados em Madri na semana passada era de 2.245 anúncios, contra os 1.799 de apenas seis meses atrás. O mesmo acontece na capital catalã: dos 367 apartamentos divididos no mês de setembro para os 675 da semana passada. E os preços, como suspeitava Patricia, caem ligeiramente: de € 370 em média para € 360 na sua cidade, Barcelona, e de € 360 para € 350 em Madri. São os locais da Espanha com maior oferta de apartamentos divididos, embora no total do país também aumente a oferta e os preços se moderam: de € 330 para € 320 em média, segundo o Idealista.com.

Meetic, uma plataforma da internet que põe solteiros em contato e se transformou em um suculento negócio de € 133 milhões no ano passado, sentiu medo em janeiro. As assinaturas, depois de aumentos trepidantes, baixam pela primeira vez. "Tememos que isso fosse uma tendência e baixamos o preço de € 30 para € 20, mas nos enganamos. O preço não é um problema", aponta José María Ruano. Em fevereiro as assinaturas voltaram a subir e Meetic deixou de novo o preço em € 30 mensais.

Carmen Gómez, diretora do Painel de Consumo da consultora Nielsen Espanha, põe a visão em longo prazo. "É verdade que os singles não são os reis do mambo, e que agora já se fala menos neles, mas em longo prazo são um público muito importante. Entre 1991 e 2005 passaram de 13% para 21% dos domicílios e gastam muito mais per capita". Claro que a aceleração do citado período diminuiu e desde 2005 cresceu apenas 1 ponto, para 22%. "Mas não está mal, é um ponto inteiro", insiste Gómez.

Além de econômico, o fenômeno dos singles foi demográfico, alentado pelo "baby boom" (nascidos durante a explosão demográfica de 1960 a 1975). Daí a explosão de novos produtos (miniembalagens para pessoas que vivem sozinhas) ou empresas (agências de viagens especializadas) a que deu lugar.

O setor dos sozinhos também é o único cujo consumo cresceu no ano passado, segundo os dados da TNS Worldpanel. Suas compras em alimentação, bebidas ou drogaria subiram 2,3%, quando as dos demais grupos formados por casais com filhos ou pessoas sós com descendentes baixaram.

Mas quando uma residência formada por uma só pessoa entra em crise a estrutura cambaleia. Uma opção é voltar para o lar paterno. E não é uma decisão fácil. Rosa Alonso acaba de passar por isso poucos meses depois de estrear sua condição de solteira. Dentro do microcosmos dos singles, ela, com 23 anos, pertence a um setor mais jovem. Morava em um apartamento alugado com seu namorado, colega de trabalho em uma das firmas intermediárias de hipotecas que surgiram como cogumelos com o boom do mercado da construção, até que quebrou há alguns meses. Em fevereiro passado, a empresa, caída em desgraça, fechou e deixou os dois sem trabalho. Acaba de voltar para a casa dos pais. "Não me sinto muito single agora, é claro."

"Isso é algo que ocorre nas recessões, costuma servir para a coesão familiar. Porque no final, em momentos assim, é a família que ajuda, essa é a rede em países como a Espanha. As outras redes sociais são mais para bater papo", indica Nueno.

É que em outros países a cultura do indivíduo, do jovem que busca a própria vida, está mais consolidada. Em 2007, o maior peso dos lares unipessoais, cerca de 40%, se encontrava na Suécia, Noruega e Dinamarca, seguidos de Alemanha e França. Fora da Europa, o Japão é o país com maior proporção de lares single, 29%, segundo a agência Euromonitor.

Mas essa agência consultora de Chicago, a que mais se aprofundou sobre o fenômeno, acende luzes de alarme por esse grupo humano. Em seu último relatório, de julho de 2008, já mergulhado no desastre econômico, a firma de estudos de mercado alerta que a atual seca de crédito "torna cada vez mais difícil" para os solteiros conseguir dinheiro emprestado para ter acesso a sua primeira moradia. Por essas perspectivas, sobretudo no Reino Unido e nos EUA, o horizonte de crescimento que esperavam sofrerá uma "pequena mudança".

À nova situação mundial se acrescenta a dificuldade substancial da natureza do só: "Os custos de vida, como alimentação ou manutenção da casa, são mais altos por cabeça para as pessoas que vivem sós".

"E também pagamos mais impostos que ninguém, porque nada nos alivia", queixa-se Patricia. Ser um single protótipo exige que as coisas vão bem. Martín Vivancos, professor da escola de administração EADA, vai à essência básica: "Podemos dizer que hoje são duas classes de singles: o que não foi afetado pela crise e o que foi, e este vê seu nível de consumo afetado". É um dos motivos pelos quais o turismo de fim de semana, os restaurantes e casas noturnas, os lugares de lazer habituais de grupos de solteiros, veem suas receitas emagrecer.

Como no caso de Patricia e suas festas caseiras com amigos. Segundo Vivancos, "há uma propensão para isso. Cada vez o lar aparece mais como centro de lazer, com DVD, consoles de jogos... É algo muito comum em outros países europeus, mas na Espanha não era tanto". "E o grande perigo disso", acrescenta, "é que as pessoas descubram que passam muito bem em casa. É interessante e ameaçador ao mesmo tempo para o consumo".

Os restaurantes viram seus ingressos cair em geral. José Luis Guerra, presidente da Federação Espanhola de Hotelaria, explica que "não se pode distinguir entre todos esses solteiros e o público em geral, mas a queda foi generalizada. Este ano o gasto está caindo entre 9% e 10% ao mês". Não diminuem as visitas aos restaurantes, mas sim o gasto: de dois pratos se passa a um para a dividir e da sobremesa ao café, diretamente.

Mas as atividades de grupo continuam e os diversos portais da internet ou agências de viagens que aparecem quando se põe a palavra "single" na internet continuam, embora sem esconder o fantasma da recessão econômica. No Singlesbcn se habilitou uma seção de plano anticrise com descontos para os associados, e tem uma bolsa de empregos. Por trás de tudo está Gary Walker, que minimiza a crise.

"Sempre tentamos ajudar as pessoas que estão conosco, muitos há bastante tempo. Aqui é um bom lugar para que os profissionais se conheçam. Se um dos solteiros tem uma empresa e outro busca trabalho, aqui podem se conhecer." Walker reconhece que alguns não passam por bons momentos, e muita gente deixa de pagar o aluguel. Mas isso "também acontecia antes".

Vicente Pizcueta, que é porta-voz da Empresários pela Qualidade do Lazer Noturno, admite que a frequência das saídas noturnas baixou de seis por mês para uma, e que as vendas de entradas e bebidas, quando se fala do mundo da noite, baixam 10%, além de que a diversão está migrando para as residências. Mas ele coloca tudo em uma tendência que percebe desde a última década, não vinculada à crise.

Pizcueta explica que trabalhou muitos anos no setor de casas noturnas para dar uma versão muito diferente de José Luis Nueno e sua teoria econômica dos solteiros. "Vamos ver: o que é single? É uma pessoa que busca uma segunda juventude com maior poder aquisitivo. E o que aconteceu na Espanha é que deixou de ser malvisto para estar na moda. Mas são só pessoas que buscam conhecer outras pessoas, por isso continuarão saindo à noite, por menos que possam", aponta Pizcueta. A mesma coisa pensa o dono do bar Minusa em Barcelona. "Estão faltando mais casais do que os solteiros; estes saem sempre, por força. O resto é preciso estimular com preços mais baixos."

Pizcueta sentencia: "Alguns sairão menos, mas para outros as noites não podem acabar. Com ou sem crise, o single é alguém que sai para buscar contato com o sexo oposto". Ou com o próprio.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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