UOL Notícias Internacional
 

29/03/2009

Atentados de 11 de março mudam cultura do luto na Espanha

El País
M. Antonia Sánchez-Vallejo
A sociedade espanhola pede cada vez mais ajuda para enfrentar a perda de seres queridos. O tabu da morte se reforçou

Em pouco tempo a Espanha encerrou em um caixão a morte e quase tudo o que a cerca. Em vez dos tradicionais velórios em casa, hoje se realizam cerimônias rápidas em casas fúnebres instaladas nas redondezas das cidades. Em vez daqueles campos-santos de estátuas magníficas se impõe o modelo anglo-saxão de cemitério-jardim com lápides quase invisíveis. O luto de décadas passadas foi substituído por uma normalização forçada que pretende solucionar a dor em tempo recorde. Em vez da admissão paulatina da perda, que segundo os especialistas dura entre 12 e 18 meses - nunca menos de seis -, recorre-se aos ansiolíticos ou à ajuda médica, quando somente 2% dos lutos derivam em psicopatologia.

O trauma coletivo do atentado de 11 de março de 2004 em Madri trouxe à luz a necessidade de reconstruir a cultura e a vivência da morte, uma realidade hoje invisível que a Espanha das carpideiras e das almas benditas havia forjado com esmero. O atentado islâmico revelou o primeiro sinal dessa transformação cultural: afetados ou cidadãos comovidos pediram ajuda psicológica para enfrentar a crueza do momento. Foi a eclosão dos grupos de intervenção ou acompanhamento no luto, que desde então se multiplicaram por dez.
  • Christophe Simon/AFP - 11.mar.2005

    Espanhóis acendem velas em homenagem a vítimas dos atentados de 11 de março de 2004, em Madri, Espanha



A organização Alaia, que conforta pessoas em luto e ajuda os doentes terminais a morrer bem, é um deles. Com 50 voluntários e uma população potencial de 600 beneficiários na Comunidade de Madri, constatou um aumento dos pedidos de ajuda tanto no 11-M como depois do acidente aéreo da Spanair, em agosto passado. "No 11-M muitos psicólogos nos chamaram para que lhes déssemos formação para enfrentar o luto. Demos vários seminários para esses profissionais", indica Dulce Camacho, fundadora da associação. "Notamos outro aumento de ligações depois do acidente aéreo de Barajas. A sociedade atual não deixa lugar para a dor, o sofrimento. A exigência social é que um mês depois da morte de um ser querido já devemos estar bem, mas não é assim. É preciso reconhecer o luto, vivê-lo e expressá-lo."

A Alaia oferece "um espaço para veicular o luto" em grupos de atendimento individualizado, incluindo um específico para crianças, "que antes beijavam o avô antes de fechar o caixão e hoje são completamente excluídas do processo", aponta Camacho. Porque a morte "continua sendo negada, continua sendo o último tabu". Antes, ela lembra, o costume de usar roupas pretas "era uma forma de veicular e informar o luto. Hoje, pelo contrário, fazemos como se não houvesse nada".

Maite Martín-Aragón, professora de psicologia clínica na Universidade Miguel Hernández (UMH), de Elche, prestou atendimento de urgência aos familiares das vítimas do 11-M. Cinco anos depois, dirige um grupo de intervenção em luto na UMH. Ao contrário do que se possa supor, as pautas que utiliza são as mesmas que pôs em prática no pavilhão 6 da Ifema. "O primeiro a fazer é uma análise do entorno e das circunstâncias familiares e avaliar a possível reação destes. Depois, aspectos mais concretos, como o recurso a medicação ou, se houver crianças, como lhes contar - essa é a principal preocupação de muitas famílias."

As diferenças culturais influem muito na hora de manifestar a dor, mas só na aparência; no mais fundo do ser humano, "qualquer reação é normal, tudo deve ser permitido". Por isso a ventilação emocional, como os psicólogos denominam "o espaço onde a pessoa possa expressar o que sente sem ser julgada e sem que outras pessoas 'sintam por ela'", seja o passo anterior a um processo estruturado de rituais que encerram a perda e permitem a posterior recomposição pessoal. Quer dizer, voltar a juntar os pedaços de uma realidade rompida.

Mas, assim como os quase 700 necrotérios que existem na Espanha - o país europeu com maior número dessas instalações -, "os rituais também não estão integrados na vida cotidiana, o que piora a adaptação à nova situação". Os rituais têm uma importância capital no processo, também em torno do 11-M. "Inclusive a manifestação que houve no dia seguinte foi importante pelo reconhecimento social que representou. Os rituais dão coesão social e segurança", indica a psicóloga.

O velório tradicional, com roupas pretas, trânsito de pessoas e xícaras de café - e uma marcante participação feminina - é, ou foi, o primeiro deles. O segundo é o ofício, religioso ou não, que despede o defunto. "Os rituais laicos já têm seu espaço na Espanha", indica Martín-Aragón. Cerca de 20% das honras fúnebres nas grandes cidades são laicas; na Europa a porcentagem supera 40%. Mas a oferta de casas fúnebres é extensa: pode haver hindus, muçulmanas ou judias. A declamação de poemas ou uma peça musical, qualquer forma de camuflar a dor.

As comemorações oficiais do 11-M também não se livram de uma certa dissimulação, embora por razões políticas. O antropólogo da Universidade de Burgos Ignacio Fernández de Mata compara a vivência dos atentados em Madri com outro drama semelhante, o das Torres Gêmeas em Nova York, em 11 de setembro de 2001. "Nos EUA há maior unidade em torno das vítimas. Foi um drama nacional indubitável e continua tendo essa dimensão. O elemento sentimental é o que recebe mais atenção; o apoio às famílias e o respeito à memória dos mortos também", indica.

Na Espanha, porém, a desunião mostrada no último dia 11 pelos dois principais partidos "foi um triste espetáculo. Não se pode romper o apoio social, porque isso desvaloriza a dor das vítimas. Se o que predomina em uma ocasião assim é salientar a rejeição às decisões de um partido, estamos fazendo um desfavor aos prejudicados. Passamos nas pontas dos pés pelo quinto aniversário do 11-M", salienta o antropólogo.

Se falamos de lutos coletivos, no reverso da Lei da Memória Histórica também aparece a experiência do luto. Como coordenador de exumações de valas comuns da Guerra Civil em Aranda de Duero (Burgos), Fernández de Mata contribui para "fechar o círculo", quer dizer, permitir que "um luto inconcluso, perpetuado durante décadas, possa ser encerrado". Fernández de Mata considera a existência de restos humanos em valas "um problema de ordem histórica, mas também e sobretudo humano e emocional. Os mortos em nossa época têm seu lugar, e esse lugar é o cemitério, sejam ou não crentes".

"Está como um cachorro, como um animal jogado por aí", é uma das frases recorrentes que Fernández de Mata escuta de familiares de fuzilados. "Eles sentem que têm uma dívida, uma carga moral; crêem que devem solucionar uma morte ruim; o que procuram é culminar um rito cujo adiamento os deixou intranquilos". Ele dá como exemplo a frase de uma mulher de 90 anos, com dois irmãos enterrados em lugar profano e cujos restos puderam finalmente ser encontrados: "Essa foi uma morte que durou tanto..."

Os ritos também se aprendem. Como qualquer outra construção cultural, dependerão das convenções da época e do ensino recebido, mas nas aulas a morte brilha pela ausência: as crianças não recebem qualquer informação. "A morte satura todo o currículo de qualquer nível educacional. Por exemplo, a história é uma ciência baseada no passado e na morte. A biologia rodeia a morte e a literatura a inclui de forma diferente. Mas os projetos educacionais não a aplicam, nem os currículos oficiais europeus a incluem expressamente", diz Agustín de la Herrán, professor de teoria da educação na Universidade Autônoma de Madri e promotor de uma "pedagogia da morte". "Em educação a morte continua sendo um tabu, formalmente semelhante ao que foi o sexo um dia. A causa mais provável é, por um lado, que a formação pedagógica de nosso professorado é superficial; de outro, a presença excessiva do confessional ou religioso nos centros de ensino", explica De la Herrán.

A exclusão das crianças dos cortejos fúnebres e do processo de luto, inédita em outras latitudes, provoca choques quando veem frente a frente com a morte, a de algum familiar ou inclusive de alguns mascote. Mas quando a morte ocorre maciçamente, como no 11-M, o choque é de difícil digestão. De la Herrán considera fundamental falar claramente: "O que uma criança não entenderia jamais é que à dor da perda acrescentássemos a dor de uma mentira 'para o seu bem'".

Mar Cortina, presidente da Associação Espanhola de Tanatologia, lembra a experiência improvisada que depois do 11-M foi instrumentalizada no Colégio Oficial de Psicólogos de Madri e na prefeitura de Leganés: documentos de urgência com pautas de atuação em colégios e institutos, um guia de orientação para professores e outro para as famílias.

O 11-M, de novo, serviu de parteira. O confronto com a morte, inopinada e bestial, deixou a descoberto as carências da sociedade espanhola na hora de doer-se e condoer-se. Porque, como diz Cortina, a mensagem social vigente "tem a ver com o bem-estar e os imperativos da juventude, da facilidade e do egoísmo. Se lhe dizem que é preciso ser jovem a vida inteira para que continue consumindo, onde encaixar a morte?"

Mas Cortina não é pessimista, nem na admissão de sua mortalidade ("viver conscientemente a finitude da vida não amarga a existência, ao contrário") nem na irreversibilidade desse silêncio construído para encobrir a morte: "O tabu da morte é bastante recente. E ultimamente se nota um interesse crescente por superá-lo". Porque, como se costuma dizer, para tudo há solução, menos para a morte.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    17h00

    -0,22
    3,175
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h23

    1,12
    65.403,25
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host