UOL Notícias Internacional
 

31/03/2009

Lugo enfrenta dificuldade em realizar as prometidas reformas no Paraguai

El País
Soledad Gallego-Díaz Em Assunção (Paraguai)
O governo paraguaio quer que todas as crianças que vão à escola recebam pelo menos um copo de leite. "Assim, pelo menos, não dormem nas carteiras", afirmam os professores. Nem sempre é possível e nem sempre as crianças vão à escola, mas as autoridades do governo de Fernando Lugo estão aplicando todo o seu esforço nisso. O proeminente senador Alfredo Luis Jaeggli, 62 anos, do Partido Liberal, o segundo maior do Paraguai, proprietário de terras e empresário, está aborrecido e se opõe radicalmente.

"Eu vivi isso no Colégio Internacional, onde estudei quando criança", explicou em uma carta dirigida esta semana ao jornal "ABC" de Assunção. "Eu, rico, que comia bem e ia para o colégio de carro com chofer, tinha de tomar o maldito copo de alumínio cheio de leite sem açúcar... Talvez isso tenha contribuído para que eu seja liberal e odeie essa prática obrigatória." Jaeggli protesta contra "essas idéias keynesianas de que o Estado deve intervir e dar de presente o que não é seu". Quando se dá um copo de leite às crianças, "isso não torna os pais irresponsáveis? Não serão essas medidas as que propiciam que haja milhares de crianças pedindo esmola nos semáforos?", pergunta-se.

Poucos dias antes de Lugo tomar posse, em agosto passado, Jaeggli e dois amigos seus venderam ao Ministério de Obras Públicas uma fazenda pela qual concordaram em receber 980 mil euros. O senador Jaeggli afirma que essa terra é dele, mas não tem o título original de propriedade. Investigações jornalísticas demonstraram que havia ocorrido falsificação de instrumentos públicos, suborno de advogados e diligências judiciais irregulares. O novo governo chegou a tempo, por minutos, de cancelar o cheque emitido pelo Banco Nacional.

O caso de Jaeggli é representativo do estado em que ficou o Paraguai depois de mais de 60 anos de domínio do Partido Colorado. A queda do general Alfredo Stroessner (1989), derrubado do poder por outro general, do qual se disse que era um dos principais narcotraficantes do país (o Paraguai é o maior exportador de maconha do mundo), não mudou em nada a cultura de corrupção que arrasa a sociedade paraguaia, nem a extrema pobreza de sua população. A única possibilidade real de mudança veio há sete meses com a vitória do até então bispo Fernando Lugo, à frente de uma aliança complexa que, no entanto, não lhe deu a maioria no Parlamento.

Lugo e sua pequena equipe de homens e mulheres honestos, mas em muitos casos inexperientes, enfrentam provavelmente a tarefa mais difícil que possa existir neste momento na América Latina: moldar um Estado que está completamente organizado em torno da corrupção e fazê-lo sem ter maioria parlamentar nem condições de mudar um poder Judiciário que está permeado de cima a baixo pela venalidade.

Por enquanto Lugo se beneficia de uma oposição fragmentada, mas conforme passam os meses corre maior risco de ser submetido a um julgamento político, uma fórmula contemplada na Constituição e graças à qual dois terços do Senado podem expulsar um presidente eleito democraticamente nas urnas. Sua principal defesa é o compromisso internacional com seu governo e sua altíssima popularidade, mas os que o rodeiam creem que Lugo deveria imprimir mais velocidade às reformas e ajudar a criar seu próprio partido, com o qual tentaria conseguir apoio no Parlamento.

"O presidente não vai fazer isso. Não vai criar um partido. Mas nós deveríamos defender a ideia", raciocina o historiador Miguel López Perito, secretário-geral da Presidência e braço-direito de Lugo. O ministro, que acaba de sofrer uma pneumonia e que trabalha 18 horas por dia, reconhece que as mudanças são muito mais custosas e lentas do que a população esperava, mas queixa-se da pouca difusão na mídia que têm os êxitos que estão conseguindo: "Não se fala que, pela primeira vez na história deste país, contra vento e maré, os paraguaios têm direito a receber atendimento de saúde gratuito; nem que, também pela primeira vez, se dá atenção aos indígenas, até agora totalmente ignorados; nem de que levamos água para o Chaco, uma região onde os agricultores não podiam nem beber".

O compromisso de Lugo é diminuir em 50% a pobreza absoluta de que sofrem 35% da população. A seca veio piorar as coisas em um país onde o Partido Colorado se apropriou de forma corrupta, entre 1954 e 1989, de quase 8 milhões de hectares, parte dos quais foi parar nas mãos de agricultores brasileiros (os "brasiguaios", como são conhecidos hoje) que plantaram soja (um cultivo mecanizado que não dá emprego) e derrubaram florestas para abrir pastos.

"Precisamos de subsídios alimentícios durante seis meses para os agricultores mais pobres que perderam as colheitas e estão agonizando em dívidas", reclama o dirigente rural Eladio Flecha, diante das portas do Palácio do Congresso. Flecha acompanha milhares de agricultores pobres que foram à capital pedir socorro, e mostra-se crítico com Lugo. "O presidente precisa se decidir. Não o deixam fazer nada. Tem de se apoiar em nós e lançar a reforma agrária." Os agricultores passeiam pela praça com garrotes que se transformaram em símbolo de sua luta. Alguns são simples pedaços de madeira, outros foram talhados primorosamente por seus donos, inclusive para terem a aparência de cassetete policial. "Temos de empurrar o presidente", insiste Flecha.

"É verdade que precisamos nos apressar", admite o ministro do Interior, Rafael Fillizzola, um professor de direito político de 41 anos que se encarregou de uma das pastas mais complexas. Fillizzola compartilha a ideia de que a chave do futuro está na capacidade do governo para enfrentar a pobreza e a insegurança. "A população vai notar logo que a pobreza diminuiu e que o Estado a protege." Mas Fillizzola não é ingênuo: fez 338 mudanças na Polícia Nacional e ainda assim sabe que está salpicada de corrupção.

"Eu era deputado e sabia como eram as coisas, mas quando cheguei aqui fiquei assombrado. Com o dinheiro que desapareceu os policiais não só teriam carros de patrulha, que não têm, como helicópteros." Ele ainda consegue rir um pouco. Em Ciudad del Este, na fronteira tríplice, com mais de 60 nacionalidades e a fama de ser um fabuloso bazar de contrabando e tráfico de armas, "vieram um dia protestar contra a corrupção de alguns policiais. Os que protestavam eram contrabandistas de carros roubados... as coisas estão assim por aqui".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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