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02/04/2009

Irã dá sinais de superar 30 anos de rivalidades com os EUA

El País
Ángeles Espinosa Em Teerã
Teerã recolhe a luva lançada por Obama para superar as diferenças depois de 30 anos de rivalidade. O Irã está disposto a ajudar na reconstrução do Afeganistão

O esperado encontro entre Irã e EUA em Haia na terça-feira (dia 31) constitui um gesto além do diplomático. Depois de 30 anos de rivalidade paranoica, a república islâmica parece indicar que recolhe a luva atirada pelo presidente Barack Obama para "superar as velhas diferenças". A conversa entre o vice-ministro das Relações Exteriores iraniano, Mohamed Medhi Akhunzadeh, e o representante especial americano para o Afeganistão e o Paquistão, Richard Holbrooke, talvez não tenha sido "de peso", mas rompeu um tabu.

É o que prova o interesse da secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, ao anunciar que Holbrooke "havia mantido um intercâmbio breve e cordial com o chefe da delegação iraniana". Altos funcionários dos dois países já tinham se encontrado pessoalmente antes. A coincidência em Sharm el Sheik (Egito), em maio de 2007, entre Condoleezza Rice e o chefe da diplomacia iraniana, Manuchehr Mottaki, provocou grande expectativa. Mas a troca de cortesias não foi além.

Hoje o clima é diferente. O enviado iraniano expressou em Haia (Holanda) a disposição de seu país a participar dos planos para o combate ao tráfico de drogas e a ajudar na reconstrução do Afeganistão, dois aspectos em que os interesses de Teerã e Washington coincidem. Não obstante, Akhunzadeh também reiterou as críticas à presença de tropas estrangeiras.

Na realidade, não é tanto o Irã como os EUA que mudaram de atitude ao reconhecer, finalmente, que os vizinhos do Afeganistão têm de participar da estabilização desse país. Se se deixar de lado a retórica bombástica do atual presidente iraniano, Mahmud Ahmadinejad, que tanto dano causou à imagem exterior de seu país, a república islâmica manteve uma atitude construtiva em relação ao problema afegão.

Na semana passada causou expectativa o anúncio de que um diplomata iraniano tinha visitado o quartel-general da Otan pela primeira vez desde a revolução islâmica de 1979. Tratou-se de um contato informal sobre o país asiático. No entanto, já em outubro de 2004 este jornal informou sobre a cooperação que o Irã havia prestado a esse organismo, permitindo a aterrissagem de um de seus aviões com material eleitoral para os refugiados afegãos.

Como lembrou na terça-feira o vice-ministro Akhunzadeh, o Irã recebeu 3 milhões de afegãos durante a guerra civil, dos quais cerca de um milhão ainda não voltaram para seu país.

Além de sua rivalidade ideológica com os taleban, o Irã sempre manteve laços com as comunidades xiitas e de língua iraniana no Afeganistão. Devido a esses vínculos, Teerã fez parte desde o início do grupo de trabalho para o Afeganistão que a ONU estabeleceu em 2000. Um ano depois, após os atentados de 11 de Setembro, quando os EUA buscaram apoio internacional para sua operação contra a Al Qaeda, diplomatas iranianos e americanos se reuniram discretamente em Genebra. O governo de Mohamed Khatami deu sua aprovação tácita à intervenção, ofereceu facilidades para o sobrevoo de seu espaço aéreo e inclusive garantiu que permitiria operações de resgate se algum dos aviões caísse em seu território.

A indignação dos iranianos foi maiúscula em janeiro de 2002, quando George W. Bush os incluiu em seu infame "Eixo do Mal". Semelhante falta de tato deu asas aos setores mais conservadores do regime. Exibiram uma longa história de ingerências americanas desde o apoio ao golpe de Estado de 1953. O governo de Washington não era de confiança. Conservadores e reformistas concordaram e o receio durou até hoje.

Talvez por isso ninguém quis se entusiasmar muito com as boas palavras de Obama. Quando o "líder supremo" lhe respondeu que esperava fatos concretos, refletia um sentimento generalizado, além das simpatias que cada iraniano tem por seu sistema de governo. Pela mesma razão, viajou para Haia um vice-ministro em vez de Mottaki, como seria de esperar. Foi uma demonstração de prudência. Ninguém no Irã, e muito menos Ahmadinejad, que em junho próximo enfrentará eleições presidenciais, quer voltar a correr riscos com os EUA.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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