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02/04/2009

Raúl Alfonsín: um presidente democrata que colocou a ditadura no banco dos réus

El País
Soledad Gallego-Díaz Em Buenos Aires
Raúl Alfonsín foi o presidente que sentou no banco dos réus os 15 chefes militares que protagonizaram a feroz ditadura argentina, acusada de 30 mil assassinatos e desaparecimentos, e que conseguiu que fossem condenados à prisão perpétua. Só por isso, por ajudar um país a recuperar sua dignidade coletiva, mereceria passar para a história e receber a homenagem de seus concidadãos. Mas além disso Alfonsín foi um democrata convicto, um homem que buscava o diálogo e o consenso, algo hoje extremamente incomum na Argentina e na América Latina, e que acreditava no processo de integração latino-americana, que promoveu com todas as suas forças.
  • 12.jun.1989 - Reuters

    Alfonsín governou a Argentina entre 1983 e 1989. Ele conduziu o processo de redemocratização após sete anos de ditadura militar e foi o primeiro presidente democraticamente eleito



Por fim, mas não menos importante, Alfonsín é o único presidente da democracia argentina que não teve que ir aos tribunais por acusações de corrupção e do qual ninguém jamais pôs em dúvida a honradez e a honestidade pessoal.

Três fatos definem a personalidade e a trajetória desse advogado e político radical que ganhou as eleições em 1983, quando tinha 56 anos, e que teve de cuidar de um país arrasado econômica e moralmente. Em plena ditadura militar, Alfonsín ajudou a fundar a Assembleia Permanente em Defesa dos Direitos Humanos e cuidou de inúmeros casos de desaparecidos. Foi também um dos pouquíssimos políticos argentinos que em 1982, em meio à euforia geral pela "recuperação" das ilhas Malvinas, se negou a participar de um ato "patriótico" organizado pelos militares nas ilhas. Para ele, aquela guerra foi "uma aventura demente".

Recém-eleito presidente da República (foram as primeiras eleições realizadas depois da morte do general Perón, em 1974, e dos quase oito anos de ditadura), Alfonsín implementou uma Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas, presidida pelo escritor Ernesto Sábato, que elaborou o impressionante relatório "Nunca Mais". Graças àquele trabalho, o presidente argentino, em um fato inédito não só na América Latina mas também no resto do mundo, acusou formalmente 15 altos comandantes das forças armadas pelos crimes cometidos.

Os integrantes da Junta Militar receberam a pena de prisão perpétua. Foi a primeira vez que os responsáveis por um golpe militar não foram tranquilamente para suas casas desfrutar de suas aposentadorias e rapinas. A operação de limpeza das terríveis forças armadas não pôde prosseguir em outros níveis, porque, submetido a uma intensa pressão e a duas rebeliões (os caras-pintadas), Alfonsín se viu obrigado a ditar a muito criticada Lei de Ponto Final e de Obediência Devida, que deixou na rua dezenas de oficiais de menor patente, igualmente assassinos.

Seus maiores erros, porém, ocorreram na área econômica, onde não soube enfrentar uma dura crise, que se somou ao lastimável estado da indústria que havia herdado da ditadura. Oprimido por uma espiral de hiperinflação, pelo permanente assédio dos peronistas e dos sindicatos, que levaram à rua os cidadãos e organizaram oito greves gerais (quando não tinham convocado nenhuma durante a ditadura), Alfonsín entregou o poder cinco meses antes de terminar seu mandato, para o peronista Carlos Menem. Pela primeira vez a Argentina foi cenário de uma transferência democrática e legal do poder.

"Votei nele, depois o critiquei e hoje me arrependo." A frase, de algumas das centenas de pessoas que ligaram para as rádios argentinas para expressar sua homenagem a Alfonsín, reflete bem o sentimento de muitos argentinos nesta quarta-feira (dia 1º). Apesar de todos os erros, o ex-presidente é na memória dos argentinos o símbolo da democracia e da honestidade política.

"Não se ressaltou suficientemente que Raúl Alfonsín, o político mais importante da democracia argentina, foi um homem de consenso, que estimava acima de tudo a defesa da democracia e do diálogo", explica Joaquín Morales Solá, um dos comentaristas políticos mais famosos e apreciados do país. Morales lembra a frase de Alfonsín "A política, quando não é diálogo, termina sendo violência" como definidora de sua personalidade. "Sua morte talvez sirva para lembrar que uma sociedade não pode viver permanentemente na tensão e no confronto, como ocorre agora", afirma Morales Solá.

Alfonsín foi efetivamente um homem de diálogo e de paz (promoveu o decisivo tratado com o Chile sobre o canal de Beagle) e um decidido partidário da unificação latino-americana (foi um dos criadores do Mercosul). "A democracia é um projeto de longo prazo", ele dizia. "Não importa como a história me julgará. O que importa é que eu tenha ajudado a salvaguardar a democracia." Foi essa a sua obsessão.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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