UOL Notícias Internacional
 

05/04/2009

Hollywood se atreve com a crise e cria diversos títulos

El País
Toni García
Em Barcelona
Os estúdios põem fim a sua tradicional indiferença aos desastres financeiros e preparam vários títulos sobre o tema.

O rolo compressor de Hollywood se pôs definitivamente em ação para colocar seu espelho mágico (e incômodo) diante da crise econômica.

Tradicionalmente avessa a se atrever com os vaivéns monetários e os desastres financeiros que mais uma vez ganharam destaque no mundo, os grandes estúdios decidiram mudar de rumo.

Desta vez sim, Hollywood se atreve com a crise. É o que demonstra uma série de títulos.

A relação entre cinema e crise sempre foi de uma estranha indiferença. Talvez porque em Los Angeles, entre as paredes dos grandes estúdios, nomes como Chase Manhattan Bank, Merrill Lynch, Deutsche Bank e semelhantes têm tanto peso quanto qualquer de suas grandes estrelas:

Hollywood vive e se desenvolve nas tripas das grandes entidades financeiras e já se sabe disso, não convém incomodar o caseiro.

Colin Schindler, autor do livro "Hollywood in Crisis: Cinema and American Society, 1929-1939" [Hollywood em crise: cinema e sociedade americana], afirma que o cinema posterior à quebra de 1929 ignorou completamente as causas do naufrágio financeiro e o tratou como um tema puramente conjuntural, o que provocou diferentes efeitos nos grandes estúdios de Hollywood: a MGM deu rédeas soltas a seu propalado "star system"; a Universal surpreendeu com seu cinema de monstros e a Warner Bros se decidiu pelo gênero gângster.

"Aumentou a admiração pelos gângsteres que levavam fortunas das fortalezas do poder usando metralhadoras", explica Schindler. "Pelo menos eles faziam algo mais que se preocupar com como pagar as faturas, como encontrar trabalho ou como continuar pagando a hipoteca", explicou o autor.

A onda de filmes que agora se aproxima parece partilhar o assunto que mais preocupa o cidadão comum. E se é verdade que não há muitos projetos neste momento sobre um sujeito como Bernard Madoff (o maior estelionatário da história, atualmente preso), um dos maiores centros de interesse é demonstrado pela luz verde que recebeu a sequência de "Wall Street".

O roteiro está sendo escrito pelo ex-corretor da Bolsa Allan Loeb, que substituiu Stephen Schiff, autor da primeira versão de "Wall Street - Poder e Cobiça", no original "Money Never Sleeps", ou "O dinheiro nunca dorme", uma das frases mais famosas de Gordon Gekko.

Nos inevitáveis vazamentos do esboço inicial do roteiro, Gekko acaba de sair da prisão, dedica-se a ler livros para crianças no Harlem... e faz negócios com oligarcas russos, xeques árabes e especuladores de grande tonelagem. "Eu adoraria reviver Gekko", declarou Michael Douglas recentemente. "Não posso nem imaginar o que ele poderia fazer em um panorama como o que temos de hoje."

A sequência de "Wall Street" é só um exemplo, mas Hollywood - provavelmente pela primeira vez em sua história - vai se dedicar à crise, e o fará mais na linha crítica de "Glengarry Glenn Ross" ("Sucesso a Qualquer Preço", o magnífico filme de David Mamet) [*Nota: direção de James Foley com roteiro de David Mamet], que na versão vaudevillesca de "Homem Rico, Homem Pobre".

Mas que ninguém espere um novo "Clube da Luta" (filme na época qualificado de "subversivo" em Hollywood e que hoje está batendo recordes de aluguel de DVDs nos EUA): o que se aproxima é cinema de camisa e gravata, incomodando o justo e tentando levar o tema à rua. "A ninguém interessa os peixes gordos, mas o que acontece com os de baixo", declarou recentemente um executivo da indústria a "The Hollywood Reporter".

O primeiro projeto sobre a crise ainda não tem título, mas sim elenco: Ben Affleck, Tommy Lee Jones e Kevin Costner, e é promovido como "a primeira grande produção sobre a quebra do sistema financeiro". À frente do projeto está John Wells, produtor executivo de "Os Homens do Presidente".

Na mesma linha, Baz Luhrmann (diretor de "Austrália" e "Moulin Rouge") prepara "Gatsby", que o realizador define como "um retrato perfeito do que está acontecendo". "Você não pode dizer às pessoas que se olhem no espelho e digam: 'Oh, estive embriagado de dinheiro esse tempo todo'. Ninguém irá ver isso", explica.

Também estão sendo preparados filmes como "Mininum Wage" [Salário mínimo], do diretor Mark Water, que conta a história de um executivo obrigado a viver entre os pobres que ele mesmo criou, ou "Monopoly", adaptação do legendário jogo Banco Imobiliário, dirigido por Ridley Scott.

Michael Moore, é claro, é outro interessado em fazer lenha da árvore caída, e já fez um apelo através de seu site na web para que "corajosos que trabalharam em Wall Street ou no mundo das finanças deem um passo à frente e contem o que sabem".

Finalmente, Michael Winterbottom aguarda a estreia, depois de sua passagem pelo Festival de Berlim, de seu último filme, "The Shock Doctrine" [Doutrina do choque], documentário que adapta o livro de Naomi Klein sobre o efeito das teorias do célebre Milton Friedman e dos Chicago Boys na política econômica mundial ao longo das últimas décadas.

Em 24 de abril também estréia "Trama Internacional", um filme sobre um banco diabólico (e fictício) que tenta cometer um golpe gigantesco, com Clive Owen e Naomi Watts no elenco.

Mas apesar do que parece ser uma virada na política hollywoodiana - geralmente baseada em uma observação dos ensinamentos dos macacos de Confúcio -, não devemos ter ilusões demais em curto prazo:

"Passamos décadas presos ao estilo de vida dos ricos e famosos, e isso não vai se transformar de repente em fascínio pelo estilo de vida dos vagabundos e indigentes", comenta Robert Thompson, da Universidade de Siracusa. "A coisa vai demorar." Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    10h00

    -0,16
    3,151
    Outras moedas
  • Bovespa

    10h03

    -0,28
    65.096,83
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host