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08/04/2009

Dentro da seita do ódio

El País
José María Irujo
A seita Takfir Wal Hijra, a mais radical e extrema do jihadismo, criou raízes em Melilla [cidade autônoma espanhola na costa nordeste do Marrocos]. Fátima, 18 anos, revela a "El País" como foi capturada por seus dirigentes e o ódio que lhe inculcaram. Agora os acusa de ordenar o assassinato de seu namorado

Durante um ano, os olhos negros de Fátima Mohand Abdelkader não cruzaram com os de nenhum homem que não fosse seu pai ou o dirigente da seita Takfir Wal Hijra (Anátema e Exílio), que a capturou e aliciou no bairro muçulmano de La Cañada, o mais deprimido e abandonado de Melilla. Depois de deixar os estudos, rezava em casas abandonadas, afastada dos olhares mundanos, vestia-se de preto, cobria os cabelos e pensava em adotar a pudica "burca" que seu mestre sempre lhe oferecia. Suas amigas já tinham feito isso.

Fátima, que tinha então 16 anos, engoliu a isca. Fugiu de seu namorado e sua família e se entregou ao serviço da seita mais clandestina e radical do jihadismo, que odeia os muçulmanos que não pensam como eles, que permite roubar os infiéis e disfarçar-se para não despertar a suspeita dos serviços de inteligência. Um restrito e perigoso clube do ódio que conta com acólitos em La Cañada e no bairro vizinho marroquino de Farhana, a pequena distância do muro que separa a Espanha do Marrocos.

Salam Mohand Mohamed, namorado de Fátima e ex-membro da seita, foi o único capaz de tirá-la das garras dos takfiris, a corrente a que pertenciam Mohamed Atta, o chefe dos terroristas suicidas do 11 de Setembro, e vários dos autores da chacina de 11 de Março em Madri. "Escolha. Ou eles ou eu", disse-lhe o rapaz no último verão. Fátima deixou o grupo e a partir de então sua vida foi um inferno. "Recebi todo tipo de ameaças e pressões para que deixasse meu namorado e voltasse", confessa agora.

Em 8 de julho passado, seu namorado Salam foi sequestrado e torturado em Farhana, um dia antes da partida marcada pelos dois para Barcelona. Lá eles iniciariam uma nova vida, longe dos olhares inquisidores dos membros da seita, que os chamavam de "musrikin", os que atribuem divindade a outros além de Deus.

O cadáver de Salam, 21 anos, foi encontrado seminu e com as mãos e os pés amarrados em um bosque em Buyafar (Cabo Chico), em território marroquino. Seu rosto e seus órgãos genitais estavam queimados com fogo, segundo a autópsia do IML de Melilla. Ao lado dele estava o corpo de Rachid Chaib, um rapaz do mesmo bairro em Melilla, que o acompanhara. Tinha lesões semelhantes e um tiro na cabeça. Fátima acusa os membros da seita e revela a "El País" os detalhes da doutrinação a que foi submetida pelos radicais islâmicos.

O primeiro contato de Fátima com a seita que a isolou do mundo ocorreu em La Cañada, seu próprio bairro, o lugar escolhido pelos grupos salafistas e takfiris para captar seus seguidores. Nesse bairro muçulmano erguem-se centenas de moradias ilegais e acumulam-se recordes de desemprego e fracasso escolar. Alguns jovens vivem de pequenos furtos e do tráfico de haxixe. "Eu me juntava com as meninas maiores do bairro. Usava minissaia e camiseta de manga curta, mas começaram a me advertir para que me cobrisse quando fosse vê-las. Me diziam: 'Você é uma menina! Se quiser vir conosco, cubra-se'. Eu as escutei porque eram minhas amigas do colégio. Elas usavam chilaba [túnica] e hijab [véu]".

Nesse verão Fátima foi convidada para ir com suas amigas a uma casa abandonada. Anunciaram que um ilustrado ia lhes falar sobre o islã. "O irmão de uma das meninas dirigia a reunião. No início falam de algo bonito e bom, falam de Deus, do que esperam de você, do que podem lhe dar. Eu tinha só 16 anos e tudo aquilo me agradou."

As reuniões tornaram-se periódicas e as regras ficaram claras desde o primeiro dia: "Ele fazia perguntas para nós e não podíamos perguntar sobre nada mundano, só sobre dúvidas relacionadas ao islã. Ali me leram as normas básicas da seita: não podia comer carne que não fosse sacrificada por eles; era proibido escutar música, ir ao cinema ou ver televisão; não era permitido falar ou olhar nos olhos de uma pessoa do sexo oposto, exceto seu pai, seu irmão ou seu marido. Seus olhos não deviam se cruzar nunca com os olhos de um homem. Você tinha de baixar a vista e olhar para o solo; tinha de se vestir de preto ou de cores escuras, cobrir a face e usar luvas até os cotovelos. As mulheres dos membros da seita usavam burca e nos animavam a usá-la."

Fátima aposentou em um armário suas camisetas e minissaias rasgadas. "Comecei a me vestir de preto, mas não cobria o rosto nem as mãos. Algumas cumpriam tudo e outras não. Então éramos seis garotas, eu a menor. Sentia-me bem, pensava que seguia a verdade, que fazia algo bom. Deixei os estudos, embora tivesse vontade de terminar o colegial, mas eles não aceitavam que eu estudasse. Isso representava misturar-se com muita gente e eles não gostavam."

Seus pais e o namorado Salam logo descobriram que Fátima tinha caído nas garras dos takfiris, que perambulavam pelas ruas inclinadas de La Cañada, no coração de Melilla, uma cidade com 71 mil habitantes, a metade dos quais é muçulmana. A garota se negava a sentar-se para comer na mesma mesa, escondia o rosto e se trancava em seu quarto. Rezava cinco vezes por dia sobre um pequeno tapete e não lhes dirigia palavra. Salam tinha pertencido à seita e conhecia o interesse de seus dirigentes por Fátima. "A queriam porque é uma jovem muito inteligente e pensaram que seria ideal para captar mais gente", confessa um jovem do bairro que pede para que se omita seu nome.

"Rompi a relação com meu namorado por causa dessa gente. Era incompatível estar com eles e ter um namorado. Diziam-me: 'Se quiser ficar conosco, tem de se afastar de tudo'. Ninguém é muçulmano exceto eles. O mundo se divide em crentes e descrentes, não há judeus nem cristãos. Quem não pertence à seita é um cachorro. Quando alguém que não era do grupo passava diante de nós, eles diziam: 'Vejam, são piores que cães'. No início me impressionava, depois pensava como eles", reconhece.

Os takfiris de Melilla e da cidade marroquina vizinha de Farhana vestem roupas ocidentais, não usam barbas longas e calçam tênis. A clandestinidade é a principal obsessão dessa seita estabelecida em Melilla pela mão de um radical marroquino que apareceu em La Cañada como que caído do céu - um sujeito que desapareceu da mesma forma que chegou. Todos os imames das mesquitas locais são marroquinos, mas os takfiris fogem das mesquitas como da peste. "Dizem que estão cheias de maus muçulmanos e vigiadas pela polícia. Odeiam os imames e os chamam de corruptos", afirma Mohamed, um jovem do bairro.

Fátima também não pisava nas mesquitas de La Cañada. As meninas rezavam na casa abandonada e os rapazes no morro durante a noite e sem testemunhas. Sempre separados. Homens e mulheres não podem rezar juntos. "Só vestiam chilabas quando rezavam escondidos. Deveriam usá-las, mas as vestiam ao contrário. Um dia lhes perguntei: 'Vocês nos pedem para usar a burca e vocês se vestem como querem?' E me responderam: 'Fazemos isso para que não sigam nossa pista, para que a polícia não preste atenção em nós'." Mas suas calças curtas às vezes os delatam: "Diziam que não podiam ser abaixo dos tornozelos. Que mais compridas são impuras".

Os primeiros livros que Fátima recebeu tratavam da mulher: em casa, com o marido, seus deveres. Um compêndio aparentemente ilustrado de submissão e vexação absoluta para as mulheres. "Sua mensagem se resumia em que se pode maltratar a mulher, pode-se bater nela, mas nunca no rosto nem nas mãos. Falavam-me de uma mulher submissa que nunca responde ao marido. A lista de castigos para a mulher era inumerável. Um dia me rebelei e lhes disse: 'Em mim ninguém bate'."

O Iraque e o Afeganistão eram o fio condutor de muitas conversas clandestinas: "Se realmente fôssemos homens, estaríamos lá ajudando nossos irmãos", repetiam às vezes diante das mulheres. "Falavam menos da jihad em nossa presença porque não confiavam. Nós não podíamos opinar sobre nada", lembra Fátima.

A jovem passou da submissão à rebeldia. Seu namorado a chamava e começaram a se encontrar em segredo. "Nos encontrávamos às escondidas. Nunca me apanhava em casa, mas logo nos descobriram e começaram as críticas. 'Você voltou com esse traidor; vimos você descer do carro dele. Não tem vergonha.' Eu mentia e negava."

Eles ficavam mais incomodados porque Salam tinha saído da seita e agora levava uma de suas mais fiéis e promissoras seguidoras, segundo várias pessoas do círculo do casal. "Eles são takfiris, e quem entra no grupo não sai mais", afirma Mohamed, um jovem do bairro que afirma conhecê-los.

Fátima decidiu romper com a seita. "O que acontece com Fátima, que não vem? Está doente? Alguém sabe onde está?" As perguntas dos chefes da seita correram de boca em boca dos dois lados da fronteira, especialmente sob as burcas de algumas amigas e companheiras de colégio da jovem que tinham se casado com membros do grupo. "Começaram os rumores de que íamos para Barcelona, para a casa da mãe de Salam. Queríamos ir para escapar dessa gente e de La Cañada. Fizemos trâmites para nos casar no juizado."

Em julho passado, Fátima e Salam, ex-membro do exército, conversavam sentados na porta de sua casa. Ela tinha voltado a se vestir como antes, não se cobria mais e estava há semanas afastada da seita. Dois takfiris passaram de carro e lhes lançaram olhares inquisidores. Salam disse para Fátima: "Viu como seus amigos a olharam?" Pouco depois um som do celular de Fátima anunciou a chegada de uma mensagem: "Você nos ridiculariza com sua atitude. Temos vergonha de você", dizia o texto.

Em 8 de julho Salam apareceu na casa de Fátima. O rapaz tinha passado a semana preparando seu Volkswagen Golf de vidros escuros. Era apaixonado por carros e queria deixá-lo no ponto para sua viagem a Barcelona. "Quer um sanduíche?", Fátima lhe perguntou. "Não. Tenho que fazer um serviço em Farhana. Me chamaram para pegar um dinheiro e me oferecem € 4 mil de comissão." A encomenda, segundo a versão de Fátima, tinha sido feita por um membro da seita com o qual Salam ainda mantinha algumas relações desde a época em que pertenceu ao grupo. Disseram que eles não queriam passá-lo porque podiam estar fichados pela polícia.

"Surpreendeu-me que o chamassem. Eu lhe disse para não ir, que era uma armadilha. Eu os conhecia muito bem. Ele ficou pensando e me respondeu que não me preocupasse, que tinha pensado em levar seu amigo Rachid para acompanhá-lo, mas que não iria. Que às 11 da noite voltaria para jantar comigo. Subiu no carro e foi embora. Nunca imaginei que não voltaria a vê-lo", lamenta Fátima.

A investigação policial nos dois países concluiu que Salam e seu amigo Rachid, um rapaz de 21 anos desempregado, baixaram por volta das 8 da tarde do dia 8 de La Cañada para um estacionamento próximo à fronteira. Ali deixaram o veículo e passaram a pé para o Marrocos. Um casal os apanhou e levou ao bairro de Farhana, onde foram torturados até morrer em uma residência que ainda não foi localizada. Uma semana depois seus corpos seminus apareceram em um bosque próximo à fronteira espanhola, junto à estrada que liga Mariquari a Yassine. Os dois jovens estavam amarrados pelos pés e as mãos. Os policiais marroquinos encontraram a 16 km a camisa e o suéter de Salam. "Tinham cavado uma fossa para enterrá-los, mas não deu tempo. Os colocaram em um carro e atiraram como cachorros em um bosque", relata Abdesalam, 48 anos, o pai de Salam, um pintor desempregado.

As autoridades marroquinas transferiram os cadáveres para o hospital Hassani de Nador, onde por ordem judicial foram feitas autópsias. Um primo de Salam o reconheceu por um brinco que usava na orelha. Seu rosto estava totalmente desfigurado pelo fogo. "Não sabemos se fizeram isso com um produto químico ou com fogo. Meu filho também teve suas partes queimadas. Devem ter sofrido muito", diz Abdesalam enquanto exibe o último relatório forense.

As famílias de Salam e Rachid pediram uma segunda autópsia particular no Marrocos. Os corpos sem embalsamar atravessaram a fronteira em duas caixas e em mau estado de conservação, segundo a terceira autópsia do IML de Melilla. O relatório descreve seu avançado estado de putrefação e afirma que os receberam envoltos em lençóis e um plástico azul. Os médicos estabelecem sua morte entre os dias 8 e 9 de julho.

Abdesalam admite que seu filho lhe confessou que ia cruzar a fronteira do Marrocos para passar dinheiro e afirma que o advertiu sobre o risco. "Tenha cuidado. Não passe em seu carro, cuidado para não lhe darem droga e cair numa armadilha", eu lhe disse. "Precisava de dinheiro para ir a Barcelona com sua namorada e lhe mostraram o anzol. Todo mundo no bairro sabia que era um rapaz bom e um pouco tímido. Um rapaz que nunca se meteu em nenhum problema. Seu sonho era entrar para algum corpo policial, mas deixou o exército porque um capitão problemático o enlouqueceu. Eu tentava colocá-lo nas obras em que trabalhei, mas como não surgia nada o mantínhamos entre todos."

"Não tinha um centavo. Emprestava dinheiro para comprar gasolina. As pessoas que estão na droga têm dinheiro, e ele nunca", afirma seu amigo Samir, 23 anos, militar. Rachid, 33 anos, garçom, salienta que seu primo Salam não se movia no mundo do crime. "Eu lhe dei dinheiro para a carteira de motorista. Ele ia de casa em casa para comer um sanduíche."

O pai de Salam e outros parentes também apontam os takfiris como responsáveis pela morte de seu filho. "Esteve com eles durante algum tempo. Comeram seu cérebro. Ele não se alimentava conosco, não falava, não via televisão nem escutava rádio. Tudo era pecado. Só podia comer animais sacrificados por eles. Tive de mandá-lo a Barcelona para se afastar daquela gente. Esse grupo apoia os massacres, os fomenta e depois reza como se não fosse nada. Para mim isso é incompatível. Supõe-se que a religião seja contrária ao terrorismo. Mas para eles é diferente. Se você não pensar como eu, o tiro do meio, esse é seu lema. Talvez meu filho soubesse algo sobre eles."

A família de Rachid Chaib, o rapaz que acompanhava Salam, pensa do mesmo modo. Rachid tinha trabalhado durante dois anos em um restaurante na Alemanha e acabava de voltar para Melilla. Sua casa fica a cinco minutos da de Salam, e as mulheres correm para buscar uma foto do rapaz para o jornalista. Seu irmão Mohamed, de 30 anos, empregado em uma sapataria em Melilla, resume assim: "Os mandaram para Farhana para cair em uma armadilha. Os mataram no mesmo dia em que foram. Uma morte assim só obedece a uma vingança. Todos sabemos quem foi". Chaib, seu pai de 78 anos, ex-militar aposentado, concorda com leves movimentos de cabeça. "Afirmo que eram bons rapazes", diz em voz baixa.

No centro da cidade, a dez minutos de carro de La Cañada, o serviço de informação da Guarda Civil de Melilla investiga o desaparecimento dos dois jovens. Não podem indagar sobre os assassinatos porque foram cometidos em Marrocos, mas por ordem judicial tomaram depoimentos de familiares, amigos e moradores do bairro muçulmano. Fontes próximas à investigação afirmam que as linhas de trabalho se concentram no grupo islâmico e no terreno da criminalidade. "Ambas estão abertas, incluindo a sentimental", explicam. Alguns depoimentos indicam que um dos takfiris estava apaixonado por Fátima, a namorada de Salam.

Em Nador (Marrocos), Wariachi, substituto do fiscal do rei, dirige a investigação dos assassinatos e tenta acumular provas. Há vários dias confessou a representantes do cônsul espanhol, Fernando Sánchez, que não há testemunhas. "Faltam provas concretas para deter alguém. Só há suspeitas", dizem no consulado, diante do qual as famílias das vítimas se manifestaram.

Fátima está em tratamento psiquiátrico, trabalha em um Burger King, ganha € 745 por mês e dedica todas as suas energias a pedir justiça e denunciar os que considera responsáveis pela morte de seu namorado. "Disseram à Guarda Civil que conhecem Salam de vista, mas o haviam levado para rezar no morro várias vezes, uma vez em Málaga e outra no Marrocos. Faziam acampamentos que duravam vários dias, como se se isolassem no mundo rural. Como podem afirmar que não o conhecem? Quando soubemos que estavam mortos, falei com um deles e lhe disse: 'Sei que foram vocês que mandaram'. Ele ficou chocado, começou a suar e me respondeu: 'Se você me prejudicar eu a prejudicarei. Passarei 30 anos na prisão, mas cuidarei para que apaguem você. Por que chora por esse traidor? Fizeram-lhe um favor'."

Os takfiris de La Cañada não têm trabalho conhecido. "Roubam e traficam drogas", acusa Abdesalam. Nos últimos anos, várias casas de La Cañada foram saqueadas. Quando seus donos voltaram, encontraram o televisor dentro da banheira cheia de água. "Todos pensamos que fossem eles. Pregam que se pode roubar dos descrentes. Que tipo de islã é esse?", pergunta-se Rachid.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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