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09/04/2009

Argélia transforma Bouteflika em presidente vitalício

El País
Ignacio Cembrero Em Madri (Espanha)
"Eleição plural, candidato único" - o título do jornal argelino "El Watan" resume em que consistirão as eleições presidenciais que se realizam nesta quinta-feira na Argélia. A eleição é formalmente plural porque o chefe de Estado, Abdelaziz Bouteflika, tem cinco adversários na corrida presidencial, mas não têm peso nem recursos para competir com ele. Nem sequer contam com fiscais na maioria dos colégios eleitorais.

Argélia

  • AP Photo/Ouahab Hebbat

    Cartazes eleitorais pendurados nas paredes mostram o presidente da Argélia, Abdelaziz Bouteflika. O político disputa eleição com outros cinco candidatos menores em busca de um terceiro mandato

A única incógnita das eleições não é se Bouteflika será reeleito pela terceira vez, nem com que porcentagem - colherá um resultado arrasador -, mas qual será o índice de participação. "Ele vai obter 90%, mas com uma participação muito baixa", prevê Benjamim Stora, talvez o mais influente intelectual argelino. "Existe uma grande separação entre o regime e a sociedade", salienta Mohamed Benchicou, o jornalista mais rebelde.

Bouteflika modificou a Constituição, que proibia ao presidente solicitar um terceiro mandato, para aos 72 anos apresentar-se novamente com o apoio de três formações, começando pelo antigo partido único, a Frente de Libertação Nacional. No entanto, desde que ele foi operado em Paris em 2005 de uma úlcera supurada seu estado de saúde é delicado.

O empenho do presidente em se eternizar no poder e o temor de eleições forjadas incitou os partidos de oposição, desde os social-democratas da Frente de Forças Socialistas até os islâmicos moderados reunidos em torno de Abdallah Djaballah a boicotar o encontro nas urnas. O Reagrupamento Constitucional Democrático, uma formação laica, manifesta seu rechaço colocando tarjas pretas em suas sedes.

"Não deixe que ninguém decida por você!" foi a resposta do governo através de um SMS enviado a milhões de argelinos para que vão votar. Em seu empenho por mobilizar o eleitorado, o estado chegou a "ordenar aos chefes religiosos - todos funcionários públicos - que desempenhem abertamente um papel político", denunciou "El Watan".

"É essencial votar", reiterou Bouteflika durante a campanha. "Votem em nós ou contra nós, ou mesmo em branco, mas não permitam que lhes roubem a palavra", insistiu.

Nas presidenciais anteriores de 2004, nas quais Bouteflika enfrentou um rival de certo peso, Ali Benflis, a participação oficial foi de 58%. Nas legislativas de 2007 caiu para 35,7%. Mas a julgar pelo aspecto quase desértico de muitos colégios eleitorais essas porcentagens parecem inchadas, sobretudo nas grandes cidades.

Além de animar o voto, o futuro presidente confirmou durante sua campanha que intensificará a política de "reconciliação nacional" com a qual busca, com sucesso moderado, acabar com o terrorismo que no mês passado ainda fez 20 mortos. Deixou entender inclusive que poderia promulgar uma anistia para os radicais islâmicos quando tiverem entregado as armas.

Bouteflika multiplicou sobretudo os anúncios de "presentes". Apagou de uma canetada em fevereiro a dívida dos agricultores (410 milhões de euros), prometeu um corte da força militar, um aumento das aposentadorias e até um subsídio desemprego para todos os que solicitarem emprego, mesmo que nunca tenham trabalhado. Seu plano de investimentos para cinco anos chega a 113 bilhões de euros.

As medidas sociais são mais que necessárias em um país onde o desemprego chega a 11,3%, mas atinge com especial força os jovens. Por isso que emigrar clandestinamente se transformou em uma obsessão coletiva da juventude.

Poderá Bouteflika cumprir suas promessas? As receitas dos hidrocarbonetos, que representam 97% das exportações argelinas, cairão este ano 60% - só chegarão a 22,6 bilhões de euros -, segundo as previsões do ministro da Energia, Chakib Khelil.

"O regime não poderá continuar custeando o atual modus vivendi", salienta Mohamed Benchicou. À sua maneira, o ministro das Finanças, Karim Djoudi, também o reconheceu em janeiro, muitos antes do início da campanha: "Se o preço do petróleo se mantiver em baixa, teremos de reconfigurar nossa política econômica".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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