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09/04/2009

Crise econômica global ameaça a paz social no Marrocos

El País
Ignacio Cembrero Em Madri (Espanha)
No centro de Khouribga, uma cidade a 140 km a leste de Casablanca, já há nesta primavera quase tantos carros com placas italianas quantos em pleno verão. São imigrantes marroquinos desempregados ou submetidos a turnos na Itália, que aproveitam as férias forçadas para visitar seus parentes na região de onde emigraram. Assim, o Marrocos importa a crise.
  • Paul J. Richards/AFP

    Hillary Clinton, secretária de Estado dos EUA, cumprimenta o premiê marroquino Taieb Fassi Fihri, que visitou Washington (EUA) nesta quarta-feira (8)


O Marrocos pensou durante algum tempo que ficaria imune ao transe pelo qual passa o Ocidente. Este começou pelas finanças, mas seu sistema bancário está tão pouco imbricado na economia internacional que quase não foi afetado. "A queda do preço do petróleo e as chuvas abundantes levantaram inclusive os ânimos do governo e de parte da população", indica Mehdi Lahlou, professor de economia no Instituto Nacional de Estatística de Rabat.

A produção agrícola depende da pluviometria, e se esta for copiosa repercute no conjunto do PIB. As chuvas e as reformas econômicas explicam em boa medida a fase de bonança que o Marrocos atravessou desde o início desta década. O crescimento médio do PIB não-agrícola foi de 4,6%. Criou-se emprego e se reduziu o desemprego urbano para 9,6%, embora as estatísticas não sejam totalmente confiáveis.

Para este ano, o ministro das Finanças, Salaheddin Mezouar, ainda mantém sua previsão de crescimento de 5,8%, mas as estimativas independentes, como a da Economist Intelligence Unit, a situam pouco acima de 2%. Com uma porcentagem tão baixa, o Marrocos não vai criar os quase 200 mil empregos urbanos de que necessita para colocar os jovens que todo ano se incorporam ao mercado de trabalho.

"A redução das remessas, a queda das exportações de fosfatos, têxteis e peças de automóveis, a contração do turismo, etc., significam que a crise já nos atinge", afirma Lahlou. Nos dois primeiros meses do ano as exportações diminuíram 32%.

O esmiuçamento dessas cifras é ainda mais chamativo. No ano passado foram cortados 48 mil empregos no setor têxtil regulado, aos quais se devem acrescentar milhares no setor informal. Em janeiro e fevereiro as remessas, da qual vivem muitas famílias, caíram 15% e essa fonte de receita representa quase 10% do PIB marroquino. O peso do turismo na economia é um pouco superior e a ocupação hoteleira diminuiu 30%. O valor das vendas de fosfatos, principal produto de exportação, caiu 61%.

O Marrocos foi até agora o principal destino do investimento estrangeiro no norte da África, excetuando-se o setor de hidrocarbonetos, mas um após outro, muitos dos grandes projetos foram adiados ou cancelados. A Nissan desistiu de sua fábrica de Tanger, enquanto sua parceira Renault duvida se continuará adiante. A gigante dinamarquesa dos contêineres, Maersk, desistiu de operar em Tanger Med II, comprometendo assim a viabilidade da ampliação do porto que pretende concorrer com o espanhol de Algeciras.

Para enfrentar a crise, o rei Mohamed VI esteve em meados de fevereiro em Fez, no lançamento de um primeiro programa de ajuda à indústria, que mobilizará 1,14 bilhão de euros, 1% do PIB. O Banco Central também reduziu em março a taxa de juros para 3,25% (a inflação foi de 3,9% em 2008). Provavelmente serão necessárias mais medidas para atenuar o impacto.

No Marrocos de Mohamed VI houve pequenas explosões sociais, as mais recentes em Ifni e Sefrou, e há uma agitação crônica por parte de algumas coletividades, como os aposentados e desempregados, que se manifestam quase diariamente. Duzentos jovens desempregados tomaram, inclusive, em fevereiro a sede do Istiqal, partido do primeiro-ministro Abas el Fassi, em Rabat.

Mas essa efervescência não mantém qualquer relação com os violentos conflitos que salpicaram a era de Hassan II e que às vezes deixaram dezenas de mortes causadas pela repressão policial. A emigração de muitos jovens e o crescimento sustentado explicam em boa medida o desaparecimento desses surtos.

"Agora o que está disparando é a criminalidade", afirma Mehdi Lahlou. "O impacto da crise nos atingirá com força no Ramadã (mês de jejum muçulmano) e na volta às aulas" no final do verão, prevê. "Será um momento socialmente complicado", adverte.

Será o primeiro grande teste social do reinado de Mohamed VI, que em julho completará uma década no trono.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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