UOL Notícias Internacional
 

10/04/2009

Chávez desencadeia caça aos políticos de oposição através do aparelho judicial

El País
Maye Primera Em Caracas (Venezuela)
No mesmo dia em que o general Raúl Isaías Baduel deixou de ser ministro da Defesa da Venezuela para se aposentar da vida militar, transformou-se em um dos inimigos políticos mais perseguidos por Hugo Chávez.

Em 18 de julho de 2007, em seu discurso de despedida da Força Armada Nacional, Baduel manifestou seu desacordo com o modelo econômico socialista que o presidente venezuelano pretendia implantar. Até então, o general era reconhecido como o que possibilitou que Chávez voltasse ao poder depois do golpe de estado de 11 de abril de 2002, que o derrubou durante 48 horas. Mas naquele dia de 2007 dia Baduel caiu em desgraça. Chávez, que com infinito agradecimento o chamava de "compadre", a partir daquele momento começou a chamá-lo de "traidor". E, de alguns anos para cá, as "traições" na Venezuela são pagas com a prisão.

É o que demonstra Baduel, detido há uma semana, e a cada vez mais extensa lista de opositores que estão sofrendo assédio judicial a toda regra: o ex-candidato presidencial Manuel Rosales, três dos cinco governadores críticos a Chávez e inclusive o editor Teodoro Petkoff enfrentam investigações e diferentes acusações.

O general Baduel está preso "preventivamente" no Centro Nacional de Processados Militares, conhecido como Ramo Verde. Em julho passado a Promotoria Militar o havia denunciado por delitos contra o decoro militar, desvio de fundos e abuso de poder, supostamente cometidos durante sua gestão como ministro da Defesa, entre julho de 2006 e julho de 2007. A Promotoria Militar não apresentou uma acusação formal contra ele; mas em 2 de abril solicitou aos tribunais a detenção imediata de Baduel sob o argumento de "perigo de fuga".

Agora a acusação tem 30 dias de prazo para formalizar sua acusação (e 15 dias de prorrogação). Pelo menos até que esse trâmite ocorra, o ex-general continuará preso. Nem sua mulher nem seu filho puderam vê-lo desde que foi apresentada a sua primeira audiência no tribunal na última sexta-feira, um dia depois que funcionários armados da Direção de Inteligência Militar (DIM) o detiveram na cidade de Maracay. "Não vi meu pai desde que ele foi detido. Não tenho como me comunicar com ele", conta Emilio Baduel, filho do ex-general.

Só se permite o acesso de sua defesa. Para Omar Mora, um dos advogados de Baduel, tudo isso não passa de uma demonstração de poder contra seu cliente: "Fazem isso para humilhá-lo e para mandar uma mensagem ao resto dos generais e almirantes, para que ninguém pense em se voltar contra Chávez nem levantar a voz em protesto diante do que ocorre no país. O motivo é político e as acusações são falsas."

Na prisão de Ramo Verde também foram parar outros militares acusados de traição. Primeiro caiu o general Francisco Usón, ex-ministro das Finanças de Chávez que se tornou opositor e que em outubro de 2004 foi condenado a cinco anos de prisão por "ultraje" à Força Armada. Usón cumpriu três anos de pena e depois foi libertado sob a condição de não fazer declarações políticas.

E ali continua detido o capitão Otto Gebauer, condenado a 12 anos de prisão por "cumplicidade" na detenção de Chávez durante o golpe de Estado de 2002. Conhecido como o oficial que viu Chávez, Gebauer é o único militar condenado pelo golpe de 11 de abril. Mas há prisões piores. Em 3 de abril passado, seis efetivos e três delegados da Polícia Metropolitana foram condenados a pagar entre 17 e 30 anos de prisão nas celas da Direção dos Serviços de Inteligência e Prevenção (Disip) - a polícia política da Venezuela -, que medem 4 metros quadrados cada. Lá estiveram presos nos últimos cinco anos.

Embora a Promotoria não tenha conseguido provar sua responsabilidade, esses nove funcionários foram condenados por duas das 19 mortes registradas em Caracas horas antes do golpe de 2002. Agora seus advogados pedem que pelo menos se permita que eles cumpram a pena em um cárcere mais cômodo... como a de Ramo Verde. Mas a possibilidade de que sua apelação seja concedida é remota.

No domingo, no meio de seu giro pelo Japão, Chávez disse que a sentença contra os policiais foi "uma brisa fresca" a favor da Justiça venezuelana. E sua palavra é a lei.

Por isso o ex-candidato presidencial Manuel Rosales optou por mergulhar na clandestinidade, perseguido por uma acusação de enriquecimento ilícito que ele refuta. Em seus cargos continuam Henrique Capriles, governador do estado de Miranda, César Pérez, governador de Táchira, e Henrique Salas, de Carabobo, todos eleitos em novembro, todos de oposição a Chávez e todos investigados por acusações diversas, desde promover o secessionismo até atrasar o uso dos recursos.

O jornalista de esquerda Teodoro Petkoff, por sua vez, enfrenta uma investigação "por não ter pago impostos de uma herança que recebeu em 1974", algo que o escritor qualifica de "incrível". Por trás desses movimentos os analistas veem simplesmente uma estratégia de Chávez para decapitar a oposição.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h19

    0,79
    3,176
    Outras moedas
  • Bovespa

    16h27

    -0,24
    64.991,27
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host