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13/04/2009

Salander, o Madoff da arte

El País
Lola Galán
O galerista dos famosos enganou colegas e investidores, em sua cruzada para eliminar o mau gosto

Ida Benucci é uma mulher arruinada. A dona da galeria de mesmo nome, na Via Del Babuino 150c, um dos endereços mais exclusivos de Roma, ainda não se recuperou dos estragos causados em sua vida pelo galerista nova-iorquino Lawrence B. Salander. "Confiávamos nele. Era uma pessoa conhecida, respeitada. Levou muitas coisas de nossa loja, antiguidades valiosas, e nos pagou com cheques sem fundo", conta Benucci por telefone, em Roma. No total, a dívida chega a cerca de € 7 milhões. "É muito dinheiro para uma galeria como a nossa. Pode nos levar à ruína", ela diz.

Ruína é a palavra que mais se associa agora a Lawrence Salander, de 59 anos, detido e acusado na quinta-feira (26) por um grande júri de Nova York, por mais de cem delitos que se resumem em latrocínio, falsificação, fraude contábil e perjúrio. Salander passou a última década mentindo, enganando uns e outros, em uma bola de neve que o levou a contrair uma dívida de US$ 88 milhões. Robert M. Morgenthau, o promotor que conduz o caso, comparou o negócio de Salander a uma espécie de esquema de Ponzi, como o utilizado por outro famoso vigarista, Bernie Madoff. Salander também era um sujeito sem escrúpulos, capaz de vender o mesmo quadro a vários colecionadores ou especuladores. Um mestre da manipulação que operava do escritório de sua luxuosa galeria, negociando obras de arte que não possuía.

Ida Benucci e seu marido não sabiam de nada disso quando foram para Nova York com os cheques não pagos. "Salander nos pediu desculpas, falou que estava passando por apuros financeiros. Disse que podíamos pegar o que quiséssemos de sua galeria". E os Benucci escolheram uma dúzia de quadros de Robert de Niro pai, um artista de certa fama nos EUA, falecido em 1993. Mas os quadros não eram de Salander. Haviam sido depositados em sua galeria por Robert de Niro filho, o ator, outro dos enganados. Tampouco eram do galerista as duas telas do artista Arshile Gorky, expressionista abstrato, usadas como garantia por Salander para obter crédito no Bank of America. Pelas duas obras em questão, "Pirate I" e "Pirate II", o ex-tenista John McEnroe havia pago € 1,5 milhão em 2003 para garantir os 50% de juros.

A arte, como os vinhos de qualidade, se negocia no mercado de futuros, à margem das Bolsas. McEnroe acabou comprando um dos quadros, mas não chegou a pendurá-lo em nenhuma de suas mansões. Ele soube que a obra "Pirate II" também havia sido adquirida por outro investidor.

Era o ano de 2005, e Larry Salander continuava sendo o mais renomado marchand de arte americano dos séculos XIX e XX, embora já vivesse preso entre seus sonhos e a realidade. Convencido de que o mercado havia tomado um rumo inaceitável, ele se voltou para a compra de arte antiga: obras bonitas que custavam pouco, e podiam ser vendidas com uma enorme margem de lucro. Mas para ele era necessário dar uma reviravolta nas tendências do mercado. "Nossa sociedade atribui um valor a um Warhol três vezes maior do que a um Rembrandt. Isso significa que estamos perdidos", declarou Salander à "New York Times Magazine" em março de 2008. Como era possível que um quadro de Jasper Johns custasse o dobro da "Madonna e Criança" de Duccio, adquirido pelo Metropolitan Museum de Nova York por US$ 45 milhões em 2004?

O mundo da arte era uma catástrofe, mas seu salvador havia chegado: Lawrence Salander. Um marchand com uma reputação forjada em 40 anos de atividade, sem formação nem títulos acadêmicos, mas com um grande faro para negócios. Nascido em Long Island em uma família judia de classe média, galgou a hierarquia de galeristas e marchands a partir de uma modesta loja de antiguidades em Wilton (Connecticut) até o degrau mais alto do Olimpo artístico nova-iorquino. Como contou seu amigo Leon Wieseltier, crítico de arte do "The New Republic", "é um sujeito das ruas que leu Ruskin [crítico de arte e escritor do século XIX]".

Salander nunca quis seguir caminhos banais. O seu era descobrir artistas, vivos ou mortos, e resgatá-los do anonimato. Como De Niro sênior, Leland Bell ou Paul Georges. "É um homem inteligente. Fala pouco, gosta de escutar", lembra Álvaro Alcázar, dono da galeria madrilena de mesmo nome, que em 2000 negociou com o nova-iorquino. "Ele trouxe para a galeria Metta, que eu dirigia na época, alguns de seus artistas, como De Niro e Larry Poons; e eu levei para a sua, da Rua 79 de Nova York, esculturas de Adolfo Barnatán e quadros de Eduardo Arroyo. Ele nunca deixou de me pagar uma fatura", ele garante.

A última vez que o viu, quatro ou cinco anos atrás, Salander lhe pareceu a pessoa de sempre. Mas já encarnava outro personagem. Ele havia se transformado em uma espécie de messias da arte, de libertador da beleza, relegada a um segundo plano pelos especuladores. E vivia em grande estilo, gastando dinheiro aos montes. Comprando quadros e esculturas sem pagar por elas. Viajando em jatos particulares de uma feira de arte para outra, enquanto as contas se amontoavam sem ser pagas em seu escritório da galeria da Rua 79 no Upper East Side, e logo na mais luxuosa sede da Rua 71, inaugurada com enorme pompa em 2005.

Salander criou uma bola de neve. Para manter viva sua cruzada pela verdadeira arte, e seu estilo de vida, ele buscou o apoio de um conhecido, Donald Schupak, que trouxe dinheiro fresco de um novo investidor, Jack Binion, dono de um cassino em Las Vegas e filho de um suposto mafioso, Benny Binion. Os três criaram uma firma com o objetivo de financiar a grande ideia do galerista. As dívidas cresciam, mas Salander tinha um projeto em mãos que podia resolver o problema. Preparava uma grande exposição que deslumbraria Manhattan, chamada "Mestres da arte: cinco séculos de pintura e escultura". Contaria com obras de Ticiano e Michelangelo, e com uma joia excepcional, "O Tocador de Alaúde", atribuído à escola de Caravaggio.

Um marchand e especialista britânico em arte antiga, Clovis Whitfield, garantia que o quadro, longe de ser da escola do pintor italiano, era um caravaggio puro. Uma obra que poderia ser vendida por € 75 milhões. Uma obra digna de ser apresentada em uma grande celebração. Mas a festa, anunciada para outubro de 2007, não chegou a ser feita. O buraco de dívidas era grande demais, e o sócio de Salander não estava disposto a continuar assinando cheques. Os mestres antigos voltaram para seus lugares de origem, e alguns meses depois, a galeria de Salander fechou suas portas. O grande marchand se viu obrigado a pôr à venda sua casa de Manhattan, avaliada em € 18,5 milhões.

Então os credores começaram a aparecer. O dono do local onde estava instalada a galeria reclamava meses de aluguéis não pagos. Ex-sócios de Salander o denunciavam por fraude. Investidores, como McEnroe, pediam de volta adiantamentos de dinheiro, familiares de artistas como John Crawford, filho do pintor abstrato Ralston Crawford, exigiam a devolução de 12 obras de seu pai consignadas na galeria de Salander. Na quinta-feira, dia 2, o galerista foi detido e acusado de fraude e falsificação contábil. E pode ir para a cadeia.

"Esperamos que a justiça americana consiga entender o ocorrido e resolva o problema", diz Ida Benucci, de Roma. Em meio à catástrofe, não faltou apoio a Salander. Um benfeitor desconhecido mantém a família com uma quantia de € 18 mil ao mês. E a mesma pessoa planeja comprar a casa de campo do galerista, em Millbrook, Nova York, para que continuem vivendo nela. Talvez Salander não fosse o único a querer inverter a tendência no mercado da arte. E sua batalha, afinal, não esteja perdida.

Tradução: Lana Lim

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